Opinião

Uma nova guerra fria? A escalada de tensões entre EUA e Rússia

quarta-feira 9 de novembro| Edição do dia

A prolongada crise capitalista que vivemos, que já dura quase uma década e não dá sinais de encontrar vias de superação, gera cada vez mais fenômenos de crises e conflitos entre atores de peso no cenário geopolítico mundial. A esperada nova ordem mundial e “pax americana’’ que anunciaram os ideólogos capitalistas em seu momento de maior ufanismo durante a década de 90 e começo do novo século mostra estar em ruínas e se vê com uma frequência mais e mais inquietante grandes meios de notícias, analistas e “think tanks” imperialistas discutindo as possibilidades de guerras entre potências, algo dado como virtualmente superado durante a etapa anterior.

A crise da hegemonia estadunidense, que pra além de todo amplo debate que pode se gerar sobre quando teve seu início, certamente tem um marco qualitativo na grande crise capitalista que atravessamos. Isso porque as crises capitalistas não são uma abstração economicista, uma crise da produção de determinados valores de uso, por exemplo, mas são crises de determinada forma de estruturação da reprodução ampliada desse modo de produção. Uma crise estrutural do capitalismo, como a que vivemos, portanto, é crise das formas através das quais se estruturaram e configuraram as relações entre as classes, os estados, e que permitiram a reprodução ampliada do capital no momento anterior.

As formas como se configurou e estruturou a acumulação capitalista no último período, seu regime de acumulação específico, foram amplamente hegemonizadas pelo imperialismo estadunidense, herdeiras da hegemonia conquistada por esse país no mundo capitalista a partir de sua localização com o fim da segunda grande guerra. Foram seus sistemas de alianças, suas instituições internacionais, ou seja, as formas concretas de expressão de sua hegemonia, aquelas que organizaram as relações entre os países durante todo último mais de meio século. Apesar dos limites e contestações que houveram a essa hegemonia por antigos aliados e adversários, principalmente a partir da década de 70 do século passado, essa estruturação das relações capitalistas conseguiu se manter, com altas e baixas, até aqui. A queda do muro de Berlin e consequente fim dos estados operários burocratizados garantiram à hegemonia estadunidense um momento de predominância que reverteu a relativa perda de espaço que tinha marcado as décadas precedentes.

Contudo, as tentativas de fazer dessa nova predominância algo duradouro e estrutural por meio do giro guerreirista no começo do novo século, que se propunha a redesenhar a correlação de forças mundial, por um lado, e a imposição de tratados comercias que dessem um salto no sentido da correlação de forças com suas semi-colonias (como foi o caso com a América Latina por meio da ALCA), por outro, falharam, tanto pelos limites enfrentados para impor militarmente essa nova correlação de forças (como no Iraque ou Afeganistão) como por resistências das lutas dos povos latino-americanos, no caso da ALCA, por exemplo.

A resposta estadunidense a essa impossibilidade de aproveitar a vantagem conquistada durante a década de 90 para impor um novo desenho para as relações internacionais que marcasse uma correlação de forças estruturalmente mais vantajosa para seu imperialismo foi aprofundar de forma qualitativa a financeirização de sua economia e sua dependência da economia chinesa, num processo simbiótico que marcou a primeira década de novo século. O ciclo das commodities, as bolhas imobiliárias, a possibilidade que parecia infinita de expansão da produção chinesa e sua capacidade de absorver os capitais excedentes do ocidente permitiram um último respiro de uma hegemonia que dava sinais mais claros de esgotamento.

É essa estruturação da acumulação capitalista, herdada do fim da guerra, mas atravessada por todos os fenômenos que marcaram o percurso histórico de lá até aqui, que entra em crise em 2008. O sistema de alianças, as balanças de poder, as instituições, as correlações de força e formas de hegemonia capitalista sobre as classes subalternas, ou seja, todo o regime de acumulação que tinha marcado a história do capitalismo durante todo esse largo período deixa de poder se reproduzir e expandir nas mesmas condições em que tinham se dado até ali. Se num primeiro momento a coordenação das respostas das grandes potências imperialistas associada ao ainda robusto crescimento da economia chinesa permitiram que se afastassem os efeitos mais catastróficos da crise, sua extensão, duração e profundidade (que marcam seu caráter estrutural) fazem com que esses fatores cada vez mais vão se desarticulando e sendo incapazes de deter que a presente crise capitalista se expresse em fenômenos cada vez mais caóticos.

É no marco dessa crise da hegemonia estadunidense que passam a surgir contestações cada vez maiores as relações internacionais tais quais forjadas pelo imperialismo ianque, o que sem uma saída revolucionária a vista e sem a possibilidade da substituição pacífica dessa hegemonia tornam o cenário internacional mais caótico e instável. Um dos elementos mais importantes que marcam essa instabilidade geopolítica recente é a relação cada vez mais conflituosa entre EUA e Rússia, que faz com que grande parte dos analistas de ambos os países falem em uma nova guerra fria entre eles (em colóquio recente sobre as relações entre os dois países feito pelo CFR –conselho de relações exteriores, na sigla em inglês- os analistas presentes chegaram a declarar que a possibilidade de uma guerra entre os dois países hoje nunca foi tão próxima desde a crise dos mísseis em 1962).

Entender os elementos estruturais que levam a essa relação mais conflituosa entre os dois países, as duas maiores potências nucleares do mundo, é elemento fundamental. Esse cenário pode enfrentar modificações se uma improvável vitória de Trump ocorre nos EUA em sua eleições próximas, posto que coloca uma nova incógnita na equação, mas para nós trabalhadores é central compreendermos os aspectos mais importantes dessa escalada na instabilidade internacional para que vejamos os riscos e responsabilidades que se colocam para nossa classe no marco do desenvolvimento da crise capitalista.

O avanço da Otan e da União Européia para o leste como forma de reconfiguração da acumulação capitalista por parte do imperialismo ocidental e estadunidense

A queda do Muro de Berlin e fim da URSS marcaram um momento de inflexão nas relações internacionais tais quais tinham sido moldadas durante todo período posterior ao encerramento da II guerra mundial. A vitória estadunidense na guerra fria e o enfraquecimento russo possibilitaram uma relocalização do imperialismo ianque que dava sinais de enfraquecimento e contestação por parte de aliados que se tornavam competidores, como Japão e Alemanha Ocidental, contestação a hegemonia dos EUA que vinha pelo menos desde a primeira crise econômica mundial a partir da grande guerra que aconteceu no mundo capitalista no meio da década de 70 e a também a derrota estadunidense no Vietnã durante o mesmo período.

A crise estrutural do capitalismo que passava a se desenhar a partir dali, depois de um momento de crescimento vertiginoso e relativamente menos crítico desde o fim da guerra, era expressão das contradições intrínsecas a esse modo de produção, que se recolocavam naquele momento; a queda tendencial da taxa de lucros, que tinha sido superada de forma relativa no fim da guerra pela destruição massiva de capitais, e os limites da expansão do mercado capitalista, que tinha tido um novo impulso no período com a política estadunidense de descolonização, passavam a ser fenômenos presentes novamente. A estratégia do imperialismo estadunidense (associado ao imperialismo britânico), que depois se expandiu para todo mundo capitalista, para superar essa crise estrutural foi o estabelecimento de uma nova forma de estruturação da acumulação, a contra-revolução neoliberal, que pode se impor após a derrota do ascenso operário e popular que marcou o fim dos anos 60 do século passado, toda sua década de 70 e começo dos 80.

No bojo desse processo, contudo, o imperialismo estadunidense conseguiu impor uma vitória ao movimento operário de tal porte que permitiu frear de forma relativamente duradoura a crise estrutural que se desenhava naquele momento, permitindo reorganizar as formas de acumulação capitalista no sentido de construir contra-tendências capazes de frear, pelo menos por um tempo, o desenvolvimento das contradições inerentes ao sistema. A queda dos estados operários, que mesmo que ultra-burocratizados eram expressão das lutas dos trabalhadores, criou uma nova correlação de forças favorável à burguesia imperialista, tanto no nível geopolítico, posto que a ordem bipolar estabelecida até ali dava lugar a um predomínio unipolar da única superpotência, os EUA, quanto na relação entre as classes ao redor do mundo, com a queda do muro de Berlin representando uma profunda desarticulação e desmoralização do movimento operário em praticamente todos os países.

Essa vitória permitiu ao capital financeiro imperialista reverter de forma relativa as contradições que se aprofundavam para o desenvolvimento de sua acumulação ampliada em dois sentidos: 1) permitiu a imposição do neoliberalismo como consenso entre a burguesia e camadas médias da população contra o movimento operário, desregulamentando o mercado de trabalho, retirando direitos trabalhistas e sociais, o que através da diminuição dos custos da mercadoria força de trabalho permitiu um restabelecimento de sua taxa de lucro; 2) a queda do muro abriu todo um novo mercado de fornecimento de mão de obra barata e qualificada, que permitia a exportação dos capitais excedentes no ocidente, e de fornecimento de matérias primas e energéticas, o que permitia também um restabelecimento da taxa de lucro pela diminuição dos custos para o reinvestimento produtivo do capital.

Para aproveitar essa situação particularmente favorável o imperialismo estadunidense, junto a seus aliados europeus, buscou expandir sua presença na antiga área de influência russa, atraindo os pequenos estados do antigo bloco soviético para dentro de suas instituições, sistemas de alianças, num processo de semi-colonização mais profundo dos espaços antes vistos como esfera de influência russa. Dentro dessa estratégia o leste europeu deveria mais e mais se tornar uma semi-colonia da Europa ocidental e do imperialismo de conjunto (essa estratégia certamente não deixou de criar rusgas e tensões entre os próprios países imperialistas, principalmente EUA e Alemanha, sobre quem deveria hegemonizar as vantagens desse processo de semi-colonização do leste europeu).

É esse processo de “cercamento” (encirclement é o conceito que usam os ideólogos imperialistas) da Rússia e atração para as instituições dominadas pelos países ocidentais de países vistos pelos russos como de sua exclusiva área de influência um dos fatores centrais que explicam a escalada de tensões entre Rússia e EUA. A tentativa de atrair a Ucrânia, país que faz fronteira a oeste com a Rússia e é o maior território e economia entre os países do ex-bloco soviético após a própria Rússia, para a esfera de influência ocidental por meio de acordos para sua entrada na UE foi vista pelo Kremlin como um salto qualitativo, e inaceitável, nesse processo de cercamento da Rússia levando a uma escalada de conflitos na Crimeia e tensões cada vez maiores com a Otan na região.

O bonapartismo de Putin como resposta da burguesia russa ao avanço ocidental

Em grande parte de sua história o desenvolvimento econômico e político russo foi expressão da necessidade de responder as ameaças colocadas contra seu território pelos países ocidentais; não é diferente em relação ao fenômeno bonapartista de suma importância para a história recente do país que representa o predomínio político de Vladimir Putin.

Baseando seu poderio político numa retórica nacionalista que fusiona elementos chauvinistas grão-russos, um apelo ao imaginário popular da Rússia como grande potência (misturando referências ao czarismo e a época “comunista”), um restabelecimento da influência da igreja ortodoxa e forte chamado a um conservadorismo moral extremado, como parte de uma ideologia contrária aos valores “ocidentais”, Putin é expressão da resposta das elites russas a grande derrota do país com o fim da guerra fria e a brutal perda de espaço e enfraquecimento russo que a seguiu.

Durante a década de 90, sob hegemonia política da figura de Boris Yeltsin, que tinha cumprido papel chave na transição ao capitalismo e portanto era visto como aliado seguro para o imperialismo, o processo de semi-colonização da Rússia e de todo espaço do antigo bloco soviético avançou a passos largos e a decadência política, econômica e social do país foi estarrecedora. A presidência de Putin assim foi tentativa da burguesia russa de frear esse processo de semi-colonização do país, de reconquistar parte da área de influência da antiga URSS e recolocar o país pelo menos parcialmente como ator a ser levado em conta nas relações internacionais.

As sucessivas presidências de Putin, entrecortadas pelo seu papel de primeiro-ministro durante a presidência fantoche de Medvedev, são assim uma tentativa dos capitalistas russos de frear o processo de desagregação do país levado a frente pelas potências ocidentais durante a década de 90 e reconquistar pelo menos parte da influência perdida com a queda do muro de Berlin. De forma bastante contraditória e limitada os governos de Putin conseguiram cumprir parte desses objetivos, pelo menos na primeira metade do novo século. Se estancou, ou ao menos se freou, o processo de semi-colonização da Rússia (Rússia e China são os dois únicos países que ocupam uma posição intermediária dentro das relações internacionais, não sendo nem exatamente semi-colônias nem exatamente imperialistas, na opinião do autor dessas linhas) e o país reconquistou pelo menos parte da influência na antiga órbita do ex-bloco soviético.

Isso se deu, no entanto, à custa de uma reprimarização e desindustrialização marcadas da economia russa, que se tornou mais e mais dependente da exportação de petróleo e gás natural (a economia do país se beneficiou grandemente do ciclo das commodities que marcou a primeira década do novo século, o que foi fator importante para o crescimento da economia russa no período e para consequente popularidade de Putin, fatores que entram em crise com o fim desse ciclo), o que em vários sentidos a torna mais dependente da economia dos países ocidentais (como vemos com o grande impacto sobre a economia do país da queda do preço do petróleo e das sanções ocidentais após os conflitos na Ucrânia), e de rusgas e tensões constantes com o ocidente, como durante as chamadas “revoluções coloridas” no começo do novo século e os conflitos na Geórgia em 2008.

A esses elementos se acrescenta ainda o fechamento cada vez maior da sociedade e da política russas, com o governo de Putin se tornando mais e mais bonapartista, autoritário e autocrático. O bonapartismo de Putin assim tem uma característica peculiar, pois é expressão da tensão entra a necessidade de conter as muitas contradições internas e a luta de classes no país e ao mesmo tempo combater esse processo de “cercamento” e avanço na semi-colonização levada a frente pelas potências ocidentais.

Os conflitos na Ucrânia e Síria e o posicionamento russo frente à crise da hegemonia estadunidense

O ano de 2014 marca uma inflexão na relação entre russos e estadunidenses e também no desenvolvimento da crise capitalista; por um lado a crise ganha cada vez mais contornos não só de crise econômica mas também de crise geopolítica, com parte das medidas de coordenação para contê-la perdendo força, por outro a queda abruta do preço do petróleo e a crise na Ucrânia levando a uma escalada dos conflitos entre os dois países.

É nesse contesto que deve ser inserida a escalada de tensões e conflitos entre Rússia e EUA que leva vários analistas a falar em nova guerra fria. Contra o aumento das tensões sociais e luta de classes em seu território, expressão do fim do ciclo das commodities e suas consequências sobre a economia russa (que a partir de 2014 passa a sofrer forte recessão) é necessário a Putin responder como uma retórica guerreirista e anti-ocidental, como forma de distrair a população e principalmente a classe trabalhadora frente aos problemas do país, colocando eles não como expressão dos limites inerentes ao desenvolvimento do capitalismo russo, mas como culpa da intervenção do imperialismo ocidental, e por outra parte é necessário à burguesia russa efetivamente resistir aos ataques a sua integridade levados a frente pelo imperialismo. O imperialismo estadunidense e seus aliados na Europa ocidental, por sua vez, buscam superar a crise do regime de acumulação que se manteve até aqui avançando no processo de semi-colonização de regiões inteiras, um dos espaços privilegiados para essa alternativa sendo o leste europeu.

É a luta entre essas duas saídas alternativas à crise capitalista do ponto de vista de burguesias conflitantes - a saída estadunidense, que é buscar recompor sua hegemonia e reconstruir um regime de acumulação sob seu predomínio por via de um processo mais agudo de semi-colonização de regiões inteiras do globo, que leva a sua política expansionista no leste europeu e o “cercamento’’ da Rússia, e a saída russa, tentativa de recuperar uma influência pelo menos regional mais ampla e se colocar como um ator de peso nas relações internacionais, numa perspectiva de que com a crise da hegemonia estadunidense se construa uma nova ordem mundial multipolar - o que explica a escala de conflitos entre Rússia e Estados Unidos.

Se durante o conflito ucraniano o movimento russo foi mais defensivo e de construção de uma contra-ofensiva através da anexação da região da Crimeia, no conflito sírio a posição russa foi mais assertiva e ofensiva. Percebendo e se aproveitando de um momento de maior debilidade e desorientação de seus inimigos num conflito “pantanoso” e complexo os russos aproveitaram a posição geopolítica que tinham por sua relação de décadas com o clã Assad (herança do período soviético) para intervir.

A intervenção russa na guerra civil síria foi importante para a posição do país no cenário internacional por dois motivos principais: 1) permitiu ao país proteger uma das poucas bases de influência que tinha por fora do espaço do ex-bloco soviético que sua relação de décadas com o clã Assad lhe garantia;2) colocou o país como interlocutor essencial para qualquer resolução de um dos principais conflitos mundiais, o que está de acordo com a estratégia de Putin de fazer do país um ator necessário na construção de uma nova ordem multipolar.

As possibilidades de rusgas e tensões entre ambos os países, no entanto, se multiplicam com Rússia e EUA envolvidos diretamente em dois dos mais importantes conflitos mundiais hoje.

A tentativa russa de criar uma aliança “anti-ocidente” junto a China e seus limites

Assim como os estadunidenses os russos também ensaiam um “pivô asiático” como estratégia frente a polarização das relações internacionais; diferente dos EUA, no entanto, o movimento russo rumo ao leste não tem como objetivo conter o desenvolvimento chinês, mas se apoiar no crescimento da economia do gigante asiático como contra-peso às sanções sobre sua economia por parte dos países ocidentais.

Contudo, a estratégia russa enfrenta uma série de limites e contradições; se é interessante aos chineses ter como aliado circunstancial frente a seus conflitos e rusgas com o ocidente um país de peso como a Rússia, uma aliança estrutural e estratégica com os russos pode ser danosa para os objetivos da burocracia chinesa. Isso porque não faz parte da estratégia chinesa para seus próprios conflitos e rusgas com os EUA (como o conflito no mar da China, que analisamos em outro artigo) que eles tenham uma escalada que coloque ambos os países em rota direta de colisão. Ainda é estratégia chinesa alguma forma de composição com seus competidores estadunidenses numa nova ordem no pacífico que sem romper totalmente com a estrutura construída pelos EUA para sua hegemonia na região dê mais espaço e uma posição mais condizente com o peso e localização da economia da China na região, com algum tipo de hegemonia compartilhada entre os países.

Uma aliança estrutural com os russos, nesse sentido, com algum tipo de eixo sino/russo anti-ocidental, entraria em conflito com a estratégia da burocracia chinesa de buscar uma nova posição para o país dentro das relações internacionais e das instituições existentes, ou seja, sem subverter de forma radical as estruturas e balanças de poder mundial, que expresse por via de negociações e novos acordos uma posição para o país condizente com o novo peso de sua economia no cenário internacional.

Por outro lado, na medida em que existe uma aproximação conjuntural entre os dois países, sempre difícil pela história de conflitos entre eles, essa aproximação é um risco para os russos, pois com uma economia muito maior e mais dinâmica é possível que a China avance num processo de semi-colonização da economia russa, como parte de uma estratégia de construir um espaço econômico e regimes de acumulação próprios, frente a crise do regime de acumulação capitalista sob hegemonia estadunidense. Uma das políticas centrais da burocracia chinesa, a reconstrução da “rota da seda” (ou One Belt, One Road), como peça chave nessa tentativa de criar um espaço econômico e regime de acumulação próprios, pode ser fator importante nesse sentido para avançar ainda mais na reprimarização e desindustrialização da economia russa, fazendo do país fornecedor de insumos energéticos para o crescimento da economia chinesa. Dessa forma, longe de uma parceria e uma aliança estratégica seria uma forma de a China aprofundar um processo de semi-colonização da economia russa.

Conclusão

A escalada de conflitos e tensões entre EUA e Rússia é marco de uma crise que a muito deixou de ser uma crise meramente econômica para se tornar cada vez mais uma crise geopolítica e das instituições capitalistas. Não só diversos analistas capitalistas falam em uma nova guerra fria como tratam esse novo capítulo do conflito entre os dois países como mais perigoso que a “antiga” guerra fria, pois se ali existiam uma série de regras e acordos bilaterais que mediavam os conflitos entre as duas superpotências esse novo momento não conta com essas mediações, seu desenvolvimento sendo muito mais caótico e anárquico, o que aumenta as possibilidades de que conflitos menores se agudizem para saídas imprevisíveis.

Pela primeira vez em décadas os analistas imperialistas voltam a falar como algo presente, como uma possibilidade (ainda não imediata) de guerras entre potências nucleares. Se esses conflitos não estão na ordem do dia o mero fato de eles serem debatidos como algo provável deve ser um alerta para nós trabalhadores, sobre a necessidade cada vez mais premente de que tiremos o futuro das mãos dos capitalistas e assumamos seus rumos com objetivos mais humanos do que o lucro desenfreado, com suas consequentes crises e guerras.




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