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"Uma lição decisiva de 68: não há regime, não há bolsonarismo que aguente a aliança operário-estudantil"

"Uma lição decisiva de 68: não há regime, não há bolsonarismo que aguente a aliança operário-estudantil"

Partindo que vivenciamos um governo de Jair Bolsonaro e que o movimento estudantil tem sido um dos principais focos de resistência às medidas do governo, achamos pertinente retomar a experiência do movimento estudantil contra a ditadura, na tentativa de extrair lições. Após uma semana do termino do 57º CONUNE, entrevistamos Gilson Dantas, médico e sociólogo, pós doutorando na UnB e militante trotskista desde a década de 60.

Manifestante queima a bandeira dos EUA no prédio da UNE, no dia da morte do estudante Edson Luis, em 1968
Foto: Pedro de Moraes / Divulgação

IDE - Quais as principais características do movimento estudantil contra a ditadura? Qual era a importância das questões internacionais e ideológicas no contexto da ditadura para o movimento estudantil?

GD - Uma das características notáveis daquele movimento estudantil, com seu auge em 1968, foi seu grito internacionalista. Mesmo em Brasília, na UnB daquele momento, que não chegou a apresentar as marchas impressionantes do Rio de Janeiro, mas não era incomum que saíssemos às ruas [na avenida W3, por exemplo] para queimar bandeiras do imperialismo ianque, gritarmos a plenos pulmões contra os EUA e contra a invasão do Vietnã. Respirávamos a revolução vietnamita, cada batalha ganha, cada vitória em terreno militar na Ásia e nem falar nas batalhas do maio francês. As canções revolucionárias latino-americanas [chilenas], americanas [Bob Dylan, Joan Baezetc], nacionais [Vandré] eram nosso gás internacionalista e revolucionário. Marchar pelo Vietnã era norma, uma espécie de “consenso de esquerda de época”.

A dinâmica de um ciclo de atualização da revolução mundial que duraria anos – com o maio de 68 na França repercutindo muito diretamente no nosso movimento estudantil – nos impactava; por isso, mesmo com a contradição de que aqui a ditadura militar se consolidava, nos perseguia e matava, mas o horizonte da efervescência internacional nos alentava todo o tempo. A luta dos vietcongues contra os Estados Unidos era nossa luta; a revolução cultural na China [de 1966 aos anos 1970], Che Guevara, eram oxigênio para nossa juventude. Nos ofereciam horizontes. Os feitos revolucionários no Vietnã pulsavam em nosso sangue.A revolução chinesa, a revolução cubana eram pautas e impulso para nós. As convulsões no Leste [Checoslováquia], nas capitais europeias, eram tema político aqui, nas universidades. Respirava-se, repito, politização internacionalista. Che, Mao, Lênin, Trotski, Fannon, Sartre, Marcuse, tudo que apontasse para o marxismo, era tema na vanguarda. A trilogia de Deutscher sobre Trotski era lida por todo lado.

Hoje a UNE, comparativamente, é paroquial: sequer promove um grande debate nacional sobre a Venezuela, que levante uma força crítica jovem contra a intervenção norte-americana naquele país vizinho, e que, ao mesmo tempo, também se posicione contra o regime burguês e anti-operário de Maduro.

Naqueles anos 60, a politização, de uma forma ou de outra, era mediada pela revolução internacional em tempo real; hoje a burocracia da UNE faz um esforço em impedir que o movimento ponha seus olhos nos novos fenômenos da luta de classes internacional, fenômenos que ficam sem qualquer resposta, já que a UNE vive em sua bolha estudantilesca.

Ora, isso é o oposto de 68.

Sim, vivíamos um golpe – militar – como hoje se vive esse governo de extrema-direita, cria do golpe institucional de 2016, e amargávamos a derrota do golpe de 64 mas, de fato, no real, o mundo nos pautava. Neste sentido tratava-se de um movimento estudantil internacionalista.

A direção da UNE atual não vibra com nada: o movimento de mulheres na Argentina, os coletes-amarelos na França, o junho de 2013 ou as ocupações de escolas por secundaristas, nada é sua pauta, nada funciona para o PT-PC do B como um meio para elevar a politização socialista e anticapitalista da massa estudantil.

Seu real objetivo é – como se viu no CONUNE – desviar as lutas para dentro do regime, para os acordos de governabilidade, impedir que a potência do movimento estudantil, a mesma que, no nosso tempo ia para as ruas bater de frente com o regime político, possa se empolgar e virar o jogo político no Brasil de Bolsonaro. Até o elementar, que é confluir a luta em defesa da universidade pública com a luta contra a contrarreforma da previdência, contra a dívida pública, nada disso é pauta.

E mais: em 1968 só um dirigente estudantil fora das suas faculdades mentais e políticas, pensaria em governabilidade, pensaria em trégua contra os ataques governistas [como faz a UNE atual] e jamais em convivência com o regime golpista.

IDE - O que significou 1968 no Brasil e quais lições poderíamos tirar daquele movimento?

GD - Uma das lições mais fortes de 1968 é a demonstração de que a juventude, inclusive operária, mesmo na adversidade de um golpe militar, tinha e tem potencial para virar o jogo contra o regime. Não era uma juventude que se sentisse [como tampouco hoje se sente] derrotada. Caixa de ressonância do mal-estar político e social, o movimento estudantil pôde e pode entrar em campo. Estimular e acionar outras forças, decisivas.

Hoje, o que ocorre é que suas direções burocráticas, vivem nas alturas, em acordos com o regime para desviar aquele poder de fogo da juventude e seu potencial revolucionário. O trabalho da juventude Faísca, como pude ver de perto no CONUNE em que estive para dar uma palestra– justamente procurando tirar lições de 68 – é o de impulsionar uma direção à altura desse poder político jovem em movimento, barrar o golpismo, fazer o debate internacionalista e programático, confluindo com os trabalhadores e suas lutas.

Em 68, sentíamos esse potencial, visível nas ruas, nas escolas.

Aliás, prova disso é que a própria ditadura militar, ali em 68, se lançou ao golpe dentro do golpe e imprimiu toda sua força repressiva no segundo semestre de 68, quando se viu diante daquele potencial, real, de luta, que segundo seus generais “colocava a ordem em risco” [declaração do coronel J Passarinho], potencial desenvolvido entre março, abril e julho de 1968. E cujo poder de fogo passou pelo esboço da poderosa aliança entre os operários de MG [Contagem], de Osasco, na direção da massa estudantil em movimento, de estudantes que corriam para as fábricas, que discutiam marxismo com operários.

Essa é outra lição decisiva daquele movimento. Não há regime, não há bolsonarismo que agüente aquele tipo de aliança política. Daí o papel nefasto da burocracia do CONUNE: impedir o formato atual de um movimento estudantil combativo [e que se encontra perplexo] diante dos ataques às universidades e ao nosso futuro, movimento que reaja,que conflua com os operários, com as bases operárias que a burocracia sindical do PT e PC do B tratam de não mobilizar; sempre em nome de suas alianças espúrias com o regime e seus interesses burocráticos [o imposto sindical, por exemplo].

Pois bem, 1968 foi uma muito pálida amostra do poder da nossa juventude, ontem como hoje, quando seu ímpeto não é desviado do combate. E quando se estabelece uma sintonia entre a escola e a fábrica.

IDE - A esquerda estudantil em 1968, em que sentido apresentava diferenças com a esquerda hoje, no CONUNE, por exemplo?

GD - Claramente aquela esquerda de mais visibilidade em 68 – com suas diferenças mas também sua geral falta de estratégia – estava de acordo no essencial: disposição de combate sistemático contra o regime. A direção burocrática atual, PT e PC do B, passam ao largo disso, trabalham para desviar o poder de fogo do movimento para dentro do regime: reúnem-se com a CNBB, com o STF, com Rodrigo Maia, ao mesmo tempo em que seus partidos dirigem a CUT, que não convoca suas bases contra os ataques de Bolsonaro, enfim, procuram controlar o movimento estudantil no marco de desvios institucionais. Em 68 se tratava diretamente da luta anti-institucional. Nas ruas e escolas.

No entanto, há um item que é comum entre hoje e 68: nem a direção da UNE de hoje mas tampouco quaisquer das direções de antes, de 68, se mostram/ram à altura do desafio político, antes como hoje. Naquele momento, de crise da velha esquerda do PCB [stalinismo], a esquerda que dirigia a UNE, em franco processo de maoização e stalinização [com AP, PC do B e todas as dissidências guerrilheiristas] também terminou apostando no desvio político, naquele caso, via guerrilha.

Hoje, a direção da UNE joga suas fichas em qualquer desvio político, recém-egressa do seu papel de “esquerda chapa branca”, da governabilidade burguesa, fecha-se no seu “sindicalismo” pragmático. Mas a verdade histórica é que, nos dois casos, das “duas esquerdas”, sua política cotidiana não ocupa o lugar da estratégia para vencer: promover a organização pela base, por sala de aula em confluência com as lutas e o movimento de trabalhadores. Não havia estratégia em 68, não há estratégia revolucionária hoje.

Nos dois casos, a estratégia usada não se mostrou à altura do potencial de fogo da juventude. São esquerdas burocráticas. Por isso defendemos, no CONUNE, a formação de um polo de esquerda no movimento estudantil, contra a direção da UNE e de natureza anti-burocrática e pró-operária. Aí sim, à altura do desafio do momento, um movimento baseado em sala de aula, em ampla democracia estudantil de base e que dê vazão à vontade de luta que a juventude atual vem demonstrando, que impulsione uma saída de massas contra o bolsonarismo.

IDE - Uma das batalhas do movimento hoje seria unir as demandas de educação com a luta contra a reforma da previdência, como parte de buscar a aliança entre juventude e trabalhadores. O que o movimento estudantil contra a ditadura nos ensina sobre isso?

GD - A lição concreta menos debatida e mais importante de 1968 talvez possa ser formulada da seguinte maneira: em determinado momento de 68, mesmo sem a plena consciência estratégica das direções, eis que aparecem elementos de uma confluência concreta da luta entre estudantes e trabalhadores.

Naquele ano, no passar dos meses, tivemos várias escaramuças do movimento estudantil contra o regime militar, e marchas multitudinárias no primeiro semestre e em julho. Por sua vez, entre abril [Contagem, Minas Gerais] e julho [a maior fábrica de Osasco, Cobrasma], no real, a classe operária retomava sindicatos, a partir de comissões de fábricas contra os pelegos sindicais e ia à luta. Concretamente, foram dois grandes centros de luta operária, e se deram meses de combate, estudantes-operários, contra a ditadura. Estava posta a possibilidade concreta da mais pujante aliança operário-estudantil para sacudir a ditadura. Os militares acusaram o impacto e trataram de conduzir a repressão ao extremo, culminando, em dezembro, com o AI-5, não sem antes prisão em massa e tortura de operários e estudantes; e a invasão UnB, em agosto daquele ano e a ocupação da cidade de Osasco com tanques de guerra.

A potencial aliança era real, o trabalho da vanguarda estudantil nas fábricas ou em órgãos que, depois, poderiam confluir para criar uma força material operário-estudantil, era tudo muito concreto. Era a grande possibilidade estratégica, de ir forjando uma direção dessa qualidade político-estratégica para quando viesse novo ascenso da luta de classes.

Mas as direções estudantis de esquerda não demonstraram qualquer consciência estratégica, não tiraram a lição: foram para a guerrilha ou se articulariam, anos depois, no PT, novamente para um movimento sem estratégia que partisse da fábrica, sem estratégia soviética e que jamais lutou conscientemente pela aliança operário-estudantil, por um partido anticapitalista de massas. Não tirou lições de 68.

Mas a grande lição está lá, no concreto daqueles meses de 1968: aqueles elementos de uma aliança operário-estudantil ameaçaram abalar a ditadura militar.

Hoje, essa seria justamente a chave: um polo estudantil para bater de frente com a burocracia da UNE e confluir com as lutas dos trabalhadores, chamando a base da CUT ao combate, por exemplo, uma estratégia que não deixaria o bolsonarismo respirar. E que, finalmente, implodiria o desviacionismo imposto ao movimento pelo PT e o PC do B, permitiria ao movimento estudantil reencontrar aquelas suas raízes promissoras de 68. Unindo em uma só luta as demandas dos estudantes, da classe trabalhadora, do povo pobre.

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