Cultura

CINEMA

Uma identidade para nós mesmos, segundo Wim Wenders. Notas

“De que modo a arte, a ocupação mais inocente de todas, pode expor o Homem ao terror?” Giorgio Agamben, In: O homem sem conteúdo.

Romero Venâncio

Aracajú (SE)

domingo 2 de outubro| Edição do dia

Estou convencido de que os documentários do cineasta alemão Wim Wenders são mais do que documentos sobre um determinando tema trabalhado. São, sem dúvida, documentos históricos de um determinado momento em foram filmados. Mas existem nos filmes documentais desse cineasta alemão uma “marca estética” muito profunda. Wenders faz “obra de arte” com a câmara na mão e muitas ideias na cabeça e no coração. Vem-me de passagem obras como: “Um filme para Nick” (1980) e “Buena vista social club”(1999). Uma obra prima “Um filme para Nick” e ao mesmo tempo um terror.

O documentário trata dos últimos dias de vida de Nicolas Ray, importante cineasta americano cultuado por Godard e grande parte da Nouvelle Vague. Wenders se hospeda na casa de Ray já sabendo que ele tem um câncer em fase terminal. O próprio Ray indica que tinha vontade de fazer um último filme sobre a odisseia de um pintor as portas da morte. Com esse mote, Wenders entra na casa do diretor, filma seu cotidiano detalhado e os seus últimos momentos na terra. Vemos de maneira lenta a agonia e a resistência de Nicolas Ray diante do absurdo da morte naquelas condições.

Um “Ray cadavérico” vai se mostrando pelas lentes de Wenders e do filho do próprio Ray, espécie de assistente de direção. Ao mesmo tempo temos pequenas reflexões em off de Wenders sobre a vida e o sentido que pode ter a existência humana condenada desde o nascimento ao implacável momento final que todos passaremos com ou sem câncer. Uma maneira bonita e constrangedora de tratar um tema tabu ainda hoje no mundo contemporâneo. Já em “Buena vista social club” temos a descoberta de um grupo de cantores cubanos que ficaram um tanto isolados pós a Revolução de 1959.

Desde o começo percebemos que Wenders não tem interesse de ser desonesto com a luta do povo cubano e de sua revolução, mas de procurar conhecer e dar a conhecer como estes geniais cantores, instrumentistas e cantoras ficaram a margem da música cubana contemporânea. Trata-se de pessoas já em idade avançada, mas de talento inigualável. Vemos depoimentos, apresentações, viagens fora de Cuba e uma recepção sempre calorosa do público por onde passam. Wenders nos revela verdadeiras pérolas musicais a partir do grupo cubano.

Gostaria de destacar um documentário que me marcou em definitivo e que nos faz avaliar certos preconceitos inevitáveis para alguém de esquerda. Em 1989 Wenders faz “Identidade de nós mesmos”, em que trata do tema da moda a partir dos depoimentos de Yohji Yamamoto, estilista japonês de rara sensibilidade estética e de uma visão cosmopolita de mundo marcante. Como em quase todo documentário de Wim Wenders, o filme se inicia com alguma reflexão mais abstrata ou filosófica a partir da periferia do tema principal. O diretor alemão nunca entra de vez no tema abordado no filme. Ele nos faz breves reflexões para só depois nos inserir no núcleo temático do trabalho. Em “Identidade de nós mesmo” ele inicia com algumas observações dele e do personagem sobre a questão da “identidade”. O que é e que significa em nossa época um tema que pode dar “calafrios”, como afirma.

O diretor nos chama a atenção para como nós somos constituídos por lugares, roupas, amizades, trabalho, amores, medos, etc. coisas que moram e nós e nós moramos nelas. Seria isto “identidade”, filosoficamente falando? As repostas de Wenders nunca são simples e mais nos colocam questões do que propriamente repostas. Mas a questão central no inicio do filme é a seguinte: tem sentido fazer um filme sobre a moda? Um tema tão efêmero e de universo tão tolo em tempos de capitalismo tardio. Percebemos no decorrer do filme que qualquer tema humano pode matéria de cinema. A moda não ficaria de fora e mais: podemos fazer uma beleza de filme como o fez Wenders sobre um tema não clássico no cinema.

Claro que depende do olho, da câmara, da capacidade analítica e estética do cineasta. Como bem define o diretor alemão a sua forma de fazer documentário: “um caderno d e anotações”. Wenders utiliza seu filme para também fazer uma reflexão sobre o próprio cinema. Uma reflexão sobre o tema da identidade em que a identidade do cinema está sempre em questão. Um jogo impagável de nos fazer entrar na “lógica da arte cinematográfica”. Ficamos com um sentimento estranho de que, no fundo, não seria todo cinema “um caderno de anotações” sobre o que existe e merece existir?

O encontro com o estilista e filósofo Yohji Yamamoto vem logo após essas reflexões. Wenders percebe em conversa com o estilista o seu método de trabalho: observar atentamente, ver fotos antigas, contemplar rostos, adivinhar profissões e desatacar o que chama a atenção. Por exemplo, em um livro de fotos de pessoas de vários países, Yamamoto nos levar a entender porque a foto de um cigano com as mãos no bolso e um olhar penetrante é a sua foto preferida e de como ela o influenciará na organização de um desfile em Paris.

Os gestos delicados e firmes de Yamamoto, as posições de observar as moças caminhando e as seus comentários sobre os vestidos são momentos de largo aprendizado sobre um método de trabalho que serve para qualquer trabalho e estudo. Do tecido ás formas, o estilista- filósofo nos mostra a “forma do efêmero” como uma maneira de sentir o presente e a beleza, mesmo que não sejam formas exuberantes. É na simplicidade que está o segredo de uma beleza durável. A beleza par ao estilista-filósofo tem a forma de uma poesia minimalista japonesa. O segredo mora no detalhe e na recomposição desses detalhes num todo artisticamente visto e sentido.

O cineasta nos fala um “paradoxo do trabalho” de Yamamoto: trabalhar pacientemente para algo que é efêmero por natureza, que é feito par ao aqui e agora e ao mesmo tempo nos transmitir uma ideia de perenidade da construção do belo. Um problema histórico para a filosofia da arte contemporânea. Sendo direto: o filme é uma senhora aula de filosofia da arte para os dias atuais e ao mesmo tempo uma crítica a um sistema que faz do efêmero vulgar seu lugar ideológico.

Sem citar ou fazer tese, Wenders nos remete a um momento singular do capitalismo: sua apologia do efêmero pelo efêmero no intuito de nos passar a ideia de que é um “sistema eterno” e de que a “lógica de mercantilizar tudo” é o nosso destino. O filme de Wenders desmistifica isto nos gestos e no método de trabalho de Yamamoto. Isto fica bem claro na cena em que Wenders registra as várias tentativas do estilista japonês em grafar seu nome para uma marca famosa. Ele assina seu nome diversas vezes e nós vemos ser apagado outras tantas até chegar um modelo ideal de assinatura ou de “identidade” do estilista.

Uma coisa que nos chama a atenção é a aparição em alguns momentos do filme algumas imagens de um cemitério de Tóquio sempre na forma de quebra da narrativa. É como se Wenders nos quisesse passar o sentimento que ao falar de moda (beleza efêmera) haverá sempre a nossa espera uma eternidade final: a morte. A morte e o efêmero estão ligados paradoxalmente. A escolha do personagem se justifica para o cineasta alemão por ele (o estilista-filósofo) mostrar que a beleza não se reduz a um estado de vida (juventude, por exemplo), mas continua na nossa maneira de ver e viver a vida.

A beleza não é uma coisa (um vestido, por exemplo). No fundo, a beleza é um conjunto de situações que articuladas dialeticamente constituem um todo num corpo ou num objeto. Não é uma forma isolada, mas um todo em processo. Beleza significa, como afirma Yamamoto: “É um desenhar o tempo e para isto é preciso que a velhice chegue”. Sabias palavras para um mundo controlado pelo Capital que nada quer saber de sabedoria. Na lógica do Capital sabedoria é uma “mercadoria sem valor”. A “identidade de nós mesmos” para por estes lugares: belos, sombrios, efêmeros, vulgares, profundos.

O comentário final de Wenders sobre a sua cena preferida de todo o filme é marcante: ele nos mostra um grupo de mulheres em círculo trabalhando no chão em um projeto. As mãos em gestos constantes, a participação sem ouvirmos os diálogos e a ideia de um trabalho coletivo é um ensinamento para a ideia de solidariedade num tipo de oficio tão afeito a individualismos e egocentrismos, como é o mundo da moda. Por trás daquilo que vemos nos desfiles tem sempre um trabalho coletivo, solidário muitas e que vezes somos levados a ficar apenas nas bobagens midiáticas e na visão de seus tolos repórteres e estilistas, sem conseguirmos ir além das aparências do que vemos.

Romero Venâncio (Aracaju – SE)




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