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ESTADO ESPANHOL

Uma foto que viraliza nas redes sociais contra a onda de islamofobia e racismo

Os pais de uma criança assassinada no atentado na Espanha abraçam um imame islâmico. Uma imagem que golpeia o sentido comum da islamofobia.

Josefina L. Martínez

Madrid | @josefinamar14

sábado 26 de agosto| Edição do dia

Na pequena vila de Fitero, no município espanhol de Valencia, três menores, de origem marroquina (o mais novo com 13 anos), foram agredidos no sábado passado, depois de participarem de um ato contra o atentado nas avenidas da cidade. Dois homens além de os insultar, os perseguiram com um carro e os agrediram com um pau de madeira. O resultado, segundo informe do jornal El Diario.es foi “traumatismo cranioencefálico, feridas abertas na cabeça, traumatismo na região lombar, contusão torácica e perda de consciência”. A denúncia pela agressão islamofóbica foi diminuída pela juíza do município de Tudela que caracterizou como “lesões” menores, sem considerar como um delito de ódio.

Na quarta-feira, 23, uma mulher de 38 anos saía do metrô em Usera, bairro popular de Madrid, quando três jovens se lançaram sobre ela, insultando-a e agredindo-a por estar usando um véu. A ambulância socorreu a mulher que foi ingressada com prognóstico leve no Hospital Doze de Outubro.

“Sem mais ajudas aos mouros”, essa mensagem sinistra foi estampada no muro da Oficina de Emprego no município de Figueres. Durante o fim de semana posterior aos atentados, mesquitas em Sevilla e Granada foram atacadas com mensagens similares contra os muçulmanos e o islamismo.

A Plataforma Ciudadana contra a Islamofobia, em seu informe do ano de 2016 – antes da onda de islamofobia que surgiu após os atentados – já indicava um aumento dos casos no Estado Espanhol. No ano passado ao informe, em 2015, oficialmente foram registrados 573 denúncias de islamofobia, o que corresponde a 14,14% a agressões contra mulheres e 4,01% contra crianças, 12,57% incidentes contra mesquitas, 5,41% contra refugiados e 6,63% contra pessoas não muçulmanas. “O aumento em relação aos incidentes de 2015 é de 106,12%”, declaram.

A organização neonazi, Hogar Social de Madrid, vem aproveitando o impacto social dos atentados de Barcelona para disseminar sua propaganda islamofóbica e racista, promovendo ataques contra mesquitas em várias cidades. Essa semana, a Rede Espanhola de Imigração e de Ajuda ao refugiado, denunciou judicialmente esse coletivo fascista por “delitos de ódio” e “organização criminal”.

Em junho desse ano nasceu uma iniciativa para medir o grau de islamofobia nos meios de comunicação espanhóis. O Observatório da islamofobia analisa uma mostra dos seis jornais de tiragem estatal, para analisar como se expressa a islamofobia em mais de 1.400 artigos. Segundo dados, cerca de 70% desses textos publicados durante o primeiro semestre de 2017 tem caráter islamofóbico. De acordo com a Plataforma: “geram fobia contra o islamismo e os muçulmanos”. Acrescentam que a maioria dos artigos que se referem ao islamismo ou aos muçulmanos, tratam sobre temáticas negativas.

Sara Piquer Martí (Universidade de Zaragoza), aborda um estudo sobre a islamofobia na imprensa espanhola. “Diariamente nos encontramos com notícias sobre terrorismo, fanatismo, guerras e conflitos nos países árabes, casos de mulheres vítimas de um machismo supostamente fruto da religião islâmica. A imprensa espanhola, através desse tipo de notícias, construiu uma polarização em que o coletivo islâmico se tornou um grupo homogêneo, agressivo, fanático, radical e pobre”. Tanto a temática como a contextualização das notícias e a linguagem utilizada, constroem “o estereótipo”, “o medo ou a ameaça” que se relacionam com o islamismo, afirma a autora.

Sobre a islamofobia nas mídias, se viu muito nos últimos dias, desde a reportagem da importante mídia espanhola RTVE onde um repórter repreendia duramente uma jovem muçulmana entrevistada – fato que despertou muito repúdio nas redes sociais –, até os editoriais polêmicos que crescem como capim nas mídias. A onda de islamofobia também dominou as redes sociais, com brutalidades de todo tipo contra os “mouros”, os refugiados ou os imigrantes, incitando à violência racista contra esses grupos.

Solidariedade e resistência

O clima político aberto despois dos atentados polarizou para a direita e esquerda. Enquanto nas redes sociais se inundam os comentários islamofóbicos, também está cheio de amostras de solidariedade com os imigrantes e refugiados, repudiando o racismo e a estigmatização da comunidade árabe e muçulmana.

A manifestação em Barcelona contra a concentração neonazi foi uma primeira expressão, imediata e espontânea, dessa resistência. Nesses dias, muitos jornais escreveram boas análises e denúncias contra a islamofobia e a própria comunidade árabe e muçulmana se mobilizou ao grito de “Não em nosso nome”.

A foto dos pais de uma criança de três anos que morreu em um dos atentados há uma semana, abraçando a um imame na localidade de Rubí, em Barcelona, é uma imagem poderosa que chamou atenção nas redes sociais com um sentimento profundo contra o racismo e a islamofobia.

Tradução: Lara Zaramella




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