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EDITORIAL INTERNACIONAL

Uma esquerda de combate frente à crise dos governos “pós-neoliberais”

A crise dos governos “progressistas” na América Latina, encarnada no ajuste encabeçado por Dilma Rousseff e o giro à direita expresso no segundo turno entre dois candidatos, Scioli e Macri, que apresentam o mesmo programa de ajuste na Argentina, esclarece as tarefas preparatórias da esquerda revolucionária na América Latina.

sábado 14 de novembro de 2015| Edição do dia

As tendências recessivas em alguns países da América Latina e/ou a crise política, estão afetando a maior parte dos governos chamados progressistas. Na Venezuela, frente Às próximas eleições legislativas de dezembro, Maduro enfrenta uma dupla crise, econômica e política, que a direita está tentando capitalizar.

No Chile, logo após o importante ascenso da juventude sem medo em 2011, mesmo que a crise não tenha impactado e somente se tenha registrado um crescimento menor, o desvio de Bachelet e a Nova Maioria (onde de integrou o Partido Comunista) tem patas curtas, ao truncar as expectativas do movimento de massas, em particular pelo direito à educação gratuita.

No Brasil, se antecipam as principais tendências da região, o país está enfrentado uma profunda crise econômica que se reverte num ataque contra os trabalhadores e com o governo do PT deslegitimado. Na Argentina, o segundo turno ocorrerá com dois candidatos que se colocam a serviço de ajustar a economia e reprimir.

Na Bolívia, o governo de Evo Morales tem muito mais margem de manobra para enfrentar a crise mesmo que ainda não esteja descartado que a queda no preço das matérias-primas exija desvalorização e ajuste no futuro, até agora há indícios de alto crescimento econômico.

Mesmo que a burguesia e seus representantes regionais tenham acordo em descarregar a crise sobre os trabalhadores, a “velha” direita latino-americana tem dado às caras e está apresentando ao mesmo tempo, rachaduras entre as diversas variantes burguesas. O discurso “renovador” das direitas, empalma com o esgotamento das massas com a casta política dos governos pós-neoliberais, que prepararam ideologicamente o caminho do giro conservador e sob sua asa, protegeram os lucros milionários dos capitalistas nacionais e estrangeiros.

As consequências da crise econômica, necessariamente implicarão ataques ao movimento de massas por meio da desvalorização cambial e do desemprego. A relativa margem de manobra que conseguiram os países reunidos no Mercosul diante do imperialismo, tenderá a esfacelar-se pela necessidade de mitigarem o endividamento para saírem da crise econômica. Outra série de países como o México, tem aprofundado a sua subordinação ao imperialismo por meio de acordos comerciais como o Acordo Transpacífico e no caso da América do Norte, o TLC. Esta situação reatualiza a necessária luta contra o imperialismo na região, que é o verdadeiro patrão das burguesias nacionais.

Estas são as condições objetivas das quais se depreendem as tarefas dos revolucionários. É preciso uma esquerda que dê um combate decidido contra os bandos burgueses em disputa (e contra aqueles que a partir da esquerda, popularizam a falácia do “mal menor”) e preparam a partir de agora mesmo a força social capaz de enfrentar consequentemente o ajuste.

Uma esquerda de combate

Já viemos discutindo que o segundo turno brasileiro levantou exatamente a mesma falsa encruzilhada que o segundo turno argentino: não há mal menor para os trabalhadores e a juventude porque ganhe quem ganhar, estamos diante de um cenário de ataque contra os trabalhadores.

Na Argentina, a Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT), que realizou uma importante eleição encabeçada por Nicolás del Caño, conquistando quase um milhão de votos, está chamando agora, o voto nulo ou branco neste segundo turno (sobre os fundamentos desta política, há um debate com o Partido Obrero).
Por trás destas discussões, está a localização que deve ter a esquerda diante dos campos burgueses que, inevitavelmente, tenderão a apresentar fissuras no calor da crise. O voto em branco, como propõe o último spot de Nicolás del Caño, não é somente a consequência tática de uma política de independência de classe, é também um primeiro passo para resistir ao ajuste que está por vir. Organizar uma campanha militante pelo voto nulo, é organizar ao mesmo tempo os trabalhadores e a juventude que depositou seus votos na FIT e suas expectativas para enfrentar este ataque.

Também no Brasil, por exemplo, está colocada uma luta política de estratégias contra aquela esquerda que se coloca do lado de um dos campos burgueses, e uma luta que reivindique claramente que os trabalhadores não podem estar nem com o PT, nem com a direita. O PSOL por sua vez, diante das chantagens da direita para pedir o impeachment de Dilma, tem optado pelo apoio político ao PT. Enquanto isso, o PSTU está exigindo a saída de Dilma sem que o movimento operário e de massas esteja lutando nas ruas por esta perspectiva, fazendo assim, objetivamente, o jogo da direita.

O Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT), partido irmão do PTS da Argentina, polemiza com a esquerda no sentido de sustentar as bandeiras da independência de classe e tem chamado inclusive, o PSOL a romper com o PT e o PSTU que coloque as forças da Conlutas e sua militância a serviço das lutas operárias como a dos trabalhadores dos Correios que ocorreu recentemente, a dos bancários e agora a luta dos petroleiros no Rio de Janeiro.

Neste sentido, o MRT chama a que se tomem ações concretas de solidariedade com a lutas e sobre esta base, a construir um polo dos trabalhadores, antiburocrático e antigovernista que impeça que a lutas operárias em curso fiquem isoladas e que assim, se conflua com os setores avançados que estão resistindo aos ataques. É indispensável que um setor da classe operária e da esquerda brasileira façam a diferença e demonstrem que a vanguarda operária e estudantil está disposta a lutar.

No Chile, o PTR – também uma organização irmã do PTS –, tem confluído com as principais lutas do último período como a dos portuários, mineiros e dos professores e no movimento estudantil que luta para conquistar uma educação pública, gratuita para todos, por exemplo, na recente eleição da Federação da Universidade do Chile, (FECH). Esta luta está na contramão do Partido Comunista, que no governo da Nova Maioria, aceita as reformas cosméticas no sistema educacional e do regime herdado da ditadura, e como alternativa às variantes neoliberais que veem nos governos “progressistas” tipo Chávez ou Evo, o “modelo” a seguir. Aqui também, é indispensável levantar uma alternativa independente tanto frente à reacionária direita chilena – que está se mobilizando contra o povo Mapuche nos últimos meses – quanto frente ao governo da Nova Maioria e que coloque uma saída dos trabalhadores e da juventude diante da crise que o regime de transição pactuada.

Na Bolívia, em condições mais adversas, devido à relativa estabilidade do governo Evo Morales, que vem anunciando demissões no setor petrolífero, a LOR-CI está alertando aos trabalhadores que defendam seus postos de trabalho colocando de pé um firme movimento de mulheres e de estudantes impulsionando à agrupação Outubro.

No México, o MTS, se coloca à frente da luta pelas reivindicações democráticas mais sentidas da massa como a luta pela aparição dos 43 normalista ou contra o feminicídio e pelos direitos das mulheres e ao mesmo tempo está reivindicando que, diante do ascenso de variantes pós-neoliberais, como o Morena ou das organizações populistas que sustentam uma estratégia de conciliação de classes, é necessário lutar pela independência de classe e construir uma organização alicerçada na poderosa classe operária mexicana, que se estende do norte ao centro do país e que é a que pode encabeçar a luta contra a burguesia nativa associada ao narcotráfico e ao imperialismo.

Por outro lado, na Europa, os grupos da FT-CI estão lutando por uma perspectiva também independente e internacionalista, diante do “soberanismo de direita” mas também do de “esquerda” ao estilo Unidade Popular (da Grécia) e estão chamando a esquerda que se reivindica anticapitalista a lutar por um “movimento por um Plano Internacionalista para disputar com o reformismo pró-europeu, com o soberanismo de esquerda e, mais ainda, com a extrema direita xenófoba, a sua influência entre os trabalhadores”.

Na Argentina, o PTS, que empalmou com o chamado “sindicalismo de base” e é parte orgânica de setores avançados da classe operária que militaram e votaram na FIT, o aprendizado adquirido nas lutas da ex-Zanon, Kraft, Lear e Madygraf e Wordcolor está a serviço de combater o ajuste hoje de forma consequente, como está sendo feito agora mesmo frente às demissões dos trabalhadores de Hutchinson. Após preparar a força social que possa enfrentar a desvalorização e as demissões - que venham das mãos de Scioli ou Macri – e também a repressão, a campanha pelo voto nulo está articulada ao redor de erguer uma força social que defenda tenazmente suas conquistas e a dos setores explorados e oprimidos.

A serviço das lutas e das tarefas colocadas, está a rede de diários digitais La Izquierda Diario em língua hispânica com edições na Argentina, Chile, México, Estado Espanhol, Esquerda Diário, em português, Left Voice em inglês e o diário Rèvolution Permanente, na França, além de sessões na Bolívia, Uruguai, Venezuela e Alemanha. Se trata de uma nova ferramenta para gerar uma corrente de opinião contra as ideias dominantes, dando visibilidade às lutas em curso e construindo fortes organizações de combate .

Enquanto no passado a maior parte da esquerda se adaptou aos chamados governos “progressistas”, nossa corrente internacional, a FT-CI, teve o mérito de manter a independência de classe e a necessidade da revolução. Longe do neoreformismo de partidos como Podemos e Syriza, que são saudados com entusiasmo por setores da esquerda e ascenderam sobre a base do retrocesso de grandes mobilizações de massas como o movimento dos indignados e as greves gerais na Grécia, se trata então de construir organizações de e para a luta de classes. Colocar de pé uma esquerda que não se ajoelhe diante da derrocada dos chamados “populismos latino-americanos” e que, empalmando em setores da juventude e dos trabalhadores, saiba resistir na luta de classes e preservar a disposição e o espírito de luta dos trabalhadores e da juventude para os combates que estão por vir.




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