Juventude

ELEIÇÕES DCE USP

Uma eleição de DCE ao tom dos grandes debates nacionais

O que significa uma eleição de DCE com 10 chapas e marcadas pelo discurso nacional? A polarização política entrou na universidade e as eleições do DCE são a representação de que politização não só é profunda como pode anunciar um momento de preparação para o movimento estudantil voltar a cena.

Fernanda Inês

São Paulo

terça-feira 12 de abril de 2016| Edição do dia

Na prática essas eleições são parte da disputa de diferentes estratégias para a juventude, que está rompendo com o governo petista, se politizando e a procura de alternativas políticas. Juventude que combina por um lado uma tendência espontânea e explosiva que não quer ser “domesticada” por um governismo com cara combativa, e por outro está sendo disputado pelo conservadorismo da classe média acomodada, pela direita, a mídia e a FIESP, que querem aparecer como uma alternativa ao PT, mas que não conseguem entusiasmar.

E nessa disputa se agrega o fato do movimento estudantil, ainda mais o paulista, onde está o centro político da polarização nacional com os grandes atos dos dia 13 e 18, é um importante fator de formação de opinião, sendo assim, se discute hoje na USP qual projeto de país frente a uma disputa acelerada para que resposta a juventude vai dar a crise. Já que um movimento estudantil com entidades combativas e que leve uma política independente da reitoria e do governo, levantando as pautas dos trabalhadores e as demandas sociais, é um risco enorme para o regime em crise.

A politização no movimento estudantil impôs uma reconfiguração das suas forças políticas, esse ano rompeu a unidade entre PSTU e PSOL que por anos dirigiram o DCE, assim como o governismo saiu dividido nas chapas “Todas as Mãos”, juventude do PT e a “Levante e Lute”, Levante Popular da Juventude. A direita, por sua vez, continua junta, contudo esse ano precisou adequar seu discurso para uma camada de estudantes mais politizados e democráticos, o individualismo e a meritocracia defendida pela chapa USPinova, não cai bem em setores mais de massas que odeiam a direita. A direita é obrigada a falar que defendem a educação, só não dizem que a educação que defendem é para empresas e privatizada. A cara lavada do elitismo dessa chapa é a sua recusa em defender cotas raciais.

Como defender a iniciativa privada na universidade e a “que vença o melhor”? Quando qualquer pessoa que olha o mundo hoje vê que a iniciativa privada deu como resultado Mariana em Minas Gerais, a maior catástrofe ambiental do Brasil, e como defender a meritocracia frente a tamanha desigualdade social e elitismo da Universidade. Essa chapa é a representação uspiana dos direitistas de verde amarelo da paulista, que defendem o impeachment e as manobras do judiciário, e que dentro da USP apoiam a reitoria e o concelho universitário, não à toa, já que nele está seus “irmãos de ideias” como a FIESP e o empresariado brasileiro. Para os quais a USPinova quer que a universidade produza conhecimento.

Recentemente oInstituto Liberal de São Paulo vem fazendo uma verdadeira campanha machista e de direita contra Jéssica Antunes, diretora do CAELL na Letras e membro da chapa "Meu Canto de Guerra". O ILISP apoiou a USPinova em 2015 e suas ideias confluem completamente. Esses ataques não são somente a ela, mas sim a todo o movimento estudantil, contudo “escolhem” ela, justamente porque o que mais vem incomodando os setores de direita são as idéias revolucionárias ganhando força material na juventude, e que se propõe a fazer uma luta consequente contra o impeachment sem fortalecer o PT e os métodos parlamentares, tão pouco o Judiciário, mas sim combatendo os cortes do governo Dilma umbilicalmente ligado a luta contra o impeachment para surgir uma força anticapitalista da juventude aliada aos trabalhadores.

Essa força revolucionária e independe nem o governismo por questões obvias pode se dar, mas também nem a esquerda, que caminha hoje em sentido oposto. PSOL e PSTU que se dividiram em duas chapas “Fazendo a Primavera” e “Reviravolta”, colocaram a questão da proporcionalidade como principal fundamento do rompimento, depois de anos negando a proporcionalidade, e ainda que seja uma demanda importante para democratizar a entidade, parece não querer entrar nas polêmicas centrais frente a política nacional. Ambas as chapas ignoram o fato de terem construído anos de um DCE despolitizado e afastado dos estudantes, que hoje cobra seu preço, como na política não tem espaço vazio, o rotineirismo e apatia do DCE atual, abriu espaço para a direita e para o governismo.

Mas não só não fazem balanço desse período como continuam na mesma lógica, as duas chapas não apresentam grandes diferenças nas propostas e tampouco na resposta nacional, na realidade o PSTU prima por um discurso de greve, mas sem dar nenhuma resposta de como essa greve seria construída, e dividem ainda as pautas da USP da política nacional, o método exato que enterrou a antiga gestão, o sindicalismo que não buscava fazer do DCE um fator político. Os dois grupos políticos também não avançaram nas pautas estudantis e continuam com um programa adaptado, levantam demandas fundamentais como cotas e permanência, contudo sem colocar a necessidade de que para arrancarmos essas demandas só sera possível se enfrentando com o regime universitário.

Essa adaptação dentro da universidade é continuidade da política nacional destas correntes. O PSOL para muitos jovens é visto como uma referencia de esquerda ao PT no governo, contudo sua principal figura, Luciana Genro, com sua corrente interna MES e a agrupação Juntos, estão hoje fazendo uma política que se cola com a direita ao defender eleições gerais, que na pratica além de seguir em uma saída parlamentar por dentro desse regime podre, Luciana ainda declarou seu apoio a Lava Jato, dirigida por Sérgio Moro, mostrando que não poderá ser uma alternativa ao PT que fortaleceu o Poder Judiciário e abriu espaço para suas manobras reacionárias, como aprofunda o apoio a essas medidas que só visam aprofundar os ajustes a juventude e aos trabalhadores.

O PSTU também levantam eleições gerais, seguem a mesma linha que tira a força independente da juventude e dos trabalhadores, falando de uma suposta greve geral, que nunca constroem, mas também ao colocar uma eleição como objetivo das lutas é na pratica desviar possíveis processos para uma alternativa parlamentar, que vai eleger mais um representante das elites que continuará a corrupção e os ajustes. E terminam com um "Fora Todos" que só pode se colar com o "Fora Dilma" da direita. Não à toa nenhuma das duas chapas coloca um plano concreto de luta contra o impeachment e os ajustes, e segue num rotineirismo sem paixão de uma esquerda que por anos foi forjada pelo modo de militar do PT nos sindicados e na passividade, não conseguem dar uma saída a altura do espírito da juventude hoje, que fala de revolução.

Para o DCE voltar a ser vivo e político: combater o impeachment e a direita lutando contra os ajustes do PT

O governismo vem tentando se relocalizar na juventude aproveitando desse sentimento anti-direita, para reganhar uma força que defenda o governo do PT, assim falam contra o impeachment, e se pintam de combatentes. O problema que o resultado da luta contra o impeachment das chapas “Todas as mãos” e “Levante e Lute”, é um novo governo Lula e Dilma e mais ajustes com um discurso popular.

Essas duas correntes são parte da UNE, e mesmo o Levante compondo o Campo Popular, são duas caras para construir um novo petismo, e para isso é só não falar da crise das Universidades Federais, nos cortes do FIES e no Pronatec.

A UNE, sob direção destas correntes (junto ao PCdoB, não esquecemos deles), foram sujeitos ativos de desviar os processos de luta contra os cortes na educação, e manter cada processo isolado um do outro, impedindo assim que a juventude se tornasse um fator político. Desde junho de 2013 que se abre um fenômeno de juventude no pais, o PT vem usando de seus braços dentro do movimento estudantil para impedir que as forças de junho descarregasse mais sobre seu governo. Essa lição que secundaristas deixaram é fundamental, é preciso superar as burocracias para vencer, e nesse processo arrancar as entidades das mãos da direita e do governo.

Assim, também pesa sobre essa direção estudantil governista a responsabilidade do governo Dilma que abriu espaço para a direita e fortaleceu o judicinário, na medida em que dentro da UNE impediram que as lutas se desenvolvessem, tudo para defender o PT. E de novo hoje o PT quer se localizar na juventude, não a toa durante o discurso do Lula estava Karina Vitral da UNE, mas que não falem das novas tentativas de aliança com Kassab e Maluf.

A chapa Meu Canto de Guerra, composta por militantes da Faísca - Juventude Revolucionária e Anti-capitalista e militantes independentes, está lutando contra o impeachment e os cortes do governo do PT, para defender a educação e construir um DCE combativo que abra a universidade para os trabalhadores, os negros, mulheres e LGBTs, tomamos como exemplos os estudantes franceses que vem se organizando junto aos trabalhadores para barrar as reformas do presidente François Hollande. Para isso exigimos que as chapas, a UNE e ANEL coloquem suas forças, rompendo a subordinação ao governo, e construa em cada escola e universidade um plano de luta contra o impeachment e os ajustes do PT.

Na USP o movimento estudantil tem as tarefas claras de defender o SINTUSP da reitoria que quer desocupar sua sede, defender um sindicato que por anos defende a educação. Essa luta dever ser ligada a defesa da ocupação da SAS na luta contra a violência às mulheres e da greve dos estudantes da Faculdade de Direito, para um movimento unificado que barre o desmonte. Isso como parte desse movimento que coloque o DCE na arena nacional defendendo contra os cortes do PT na educação e que não seja paga as dividas dos estados e se reverta para educação, ao mesmo tempo que construir um movimento pró operário que defenda o fim das demissões.




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