Mundo Operário

GREVE DOS CORREIOS

Uma conversa com os atendentes, carteiros e OTTs que não estão na greve

A greve está forte, mas ainda há ecetistas que por diversos motivos ainda não resolveram parar. É com estes que como ecetista em greve quero dialogar.

quarta-feira 23 de setembro de 2015| Edição do dia

Quero dialogar agora com todas as trabalhadoras e trabalhadores dos Correios que não estão em greve. Estamos realizando uma das mais fortes greves dos últimos anos, e sabemos que os dados divulgados na mídia que sugerem que os grevistas são apenas 10% da categoria, não são verdadeiros, ou são distorcidos, no mínimo. No entanto, é verdade que ela pode, sim, ser ainda mais forte.

Por que tantos trabalhadores seguem trabalhando? A diretoria da ECT afirma que é porque estão satisfeitos com a proposta salarial, aliás, proposta que na mídia que aparece distorcida, e omite as reivindicações sociais.

Apesar dos discursos, não acredito que a maioria dos trabalhadores que não estão em greve acredite nas lorotas da empresa. Acho que estão mais do que cientes de que nosso salário, que nunca foi compatível com o tanto que trabalhamos e está absolutamente corroído pela inflação. Estão cientes também de que gratificação e reajuste salarial são coisas diferentes (se dá na mesma, por que usar nomes distintos? se a incorporação posterior é garantida, por que não incorporar agora?). Também entenderam o nível dos ataques ao convênio médico.

Além disso, estão mais do que conscientes de que trabalhamos demais, fazendo tudo que é possível para esta empresa funcionar bem, e ainda assim não funciona. As cartas e encomendas atrasam constantemente, independentemente da greve. Por falta de funcionários. Milhares de vagas que não são preenchidas, de trabalhadores que se aposentaram, de pessoas que se demitiram porque passaram em outros concursos, etc, gerando sobrecarga de trabalho pra todos, e impossibilidade de um trabalho de qualidade.

Do mesmo modo, nossas condições de trabalho beiram o absurdo. O SARA (sistema de atendimento) está sempre lento e induz a erros. A climatização nem sempre existe e muitas vezes falha. Isso falando de atendentes. Os carteiros lidam com peso e percurso excessivo, bolsas remendadas. Os OTTs muitas vezes não têm materiais de trabalho, empilhadeiras, containers.

Acho que existem muitos trabalhadores que já lutaram bastante e estão desiludidos. Porque as direções sindicais traíram. Porque a luta não foi até o final contra os descontos e punições. Outros nunca participaram, e acham que isso não tem a ver com eles, que é coisa de grevista, de sindicalista. Outros são mais novos e não sabem quais podem ser as consequências. Todas essas inseguranças são legítimas, e os sindicatos tem bastante responsabilidade nisso. Alguns são dirigidos por burocracias, como da CUT e CTB, que em certos momentos chamam a greve mas saem dela sem nenhuma vitória, apenas porque acordaram com a empresa e o governo, fazem várias manobras pra dividir a categoria, mentem o resultado das assembleias. Outros sindicatos não são vendidos e se colocam em luta, mas acho que também cometem muitos erros. Poucas vezes impulsionam reuniões em todas as unidades, ou espaços de auto-organização onde os trabalhadores possam realmente dirigir a greve. Muitas vezes estão acomodados e colocam pouca organização e energia nos piquetes, não tomam iniciativas criativas e de visibilidade. Muitos ficam reproduzindo a divisão entre “guerreiros e pelegos”.

Mas onde eu quero chegar? É que tudo isso pode ser superado com uma greve forte como essa. Com participação de todos os setores. Com reuniões dos trabalhadores em suas unidades que discutam conjuntamente os próximos passos e medidas pra greve aparecer. Com participação ativa nos atos como será o ato estadual unificado na quinta-feira em São Paulo. Com uma preocupação em buscar apoio da população.
Acho que o que não dá é pra achar que as coisas mudam sozinhas. Ou que adianta discutir e criticar tudo que estamos vendo acontecendo contra nós e nossas famílias, seja pelas mãos do governo Dilma com seus cortes nos serviços públicos e direitos trabalhistas, seja pelas mãos dos políticos corruptos que fazem oposição na mídia, mas defendem a mesma lógica, seja pelas mãos da direção da empresa que sucateia o serviço e ataca nossas condições de vida. Temos que nos organizar e fazer a luta, e essa é a hora, e é isso que estamos fazendo nessa greve. Estamos no mesmo barco e só a força da nossa mobilização pode mudar a realidade. Vem pra luta também!




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