Juventude

ENTREVISTA

Um espanhol explica: quem é Felipe Gonzalez que vai palestrar na EACH/USP?

Nessa terça-feira (02), o Observatório Interdisciplinar de Políticas Públicas (OIPP) realizará na EACH/USP (Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo) uma conferência com Felipe González, ex-presidente do Estado Espanhol. Solicitamos um artigo para Santiago Lupe, da Rede Esquerda Diário na Espanha, para esclarecer ao público brasileiro quem é Felipe Gonzalez, que longe de uma figura que deve ser apresentado e aceito como uma referência, é um inimigo dos trabalhadores, trabalhadoras e da juventude espanhola, além de peça importante do imperialismo até os dias de hoje

domingo 31 de julho de 2016| Edição do dia

(NA FOTO, FELIPE GONZALEZ COM FHC)

Felipe González foi presidente da Espanha pelo Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) entre 1982 e 1996. Atualmente segue muito ativo na política internacional em defesa do imperialismo espanhol.

Felipe González aplicou políticas neoliberais, atacou conquistas dos trabalhadores, apoiou as guerras imperialistas e esteve por trás da organização dos GAL, comandos paramilitares que organizaram sequestros e assassinatos nos anos 80. Hoje está muito ativo na política internacional, defendendo os interesses das multinacionais espanholas e levando adiante uma campanha intervencionista ofensiva contra o governo da Venezuela, enquanto mantém boas relações com ditadores africanos e monarquias árabes.

Dirigente dos jovens do PSOE “do interior” nos anos 70, no Congresso de Suresnes em 1974 seu grupo alcançou o controle do partido. Alguns compararam este momento com a ascensão do Podemos na atualidade.

O PSOE desses anos na saída da ditadura aparecia diante dos olhos de milhões de trabalhadores como uma esquerda “fresca” e “renovada”, diferentemente do Partido Comunista Espanhol desse momento, que era visto como um “partido da ordem” devido ao seu compromisso com a transição, o regime e a monarquia.

Felipe González consegue que o PSOE se pronuncie pelo abandono do marxismo em 1979, caminhando para um giro profundo rumo a uma política neoliberal. Nesses mesmos anos, o PS assegura aos empresários capitalistas que não vão mudar o status quo e que serão bons “gestores” capitalistas para garantir seus negócios.
Daquela época podemos destacar sua relação com o SPD (partido social-democrata) alemão, que o financia com milhares e milhares de marcos (moeda alemã de então), uma operação política conjunta do imperialismo alemão e da embaixada norte-americana para fazer emergir o PSOE contra o partido comunista e formar um partido social-democrata dócil na Espanha. Isso está muito bem documentado no livro da jornalista espanhola Pilar Urbano.

Em 1982 o governo socialista de Felipe González assume o governo com promessas de “mudança”, de “acabar com o desemprego” que havia alcançado uma cifra muito alta próxima de 20%, mas tudo que aplica são as primeiras medidas de ajuste contra os trabalhadores, levando adiante as políticas de “reconversão industrial” que lhe exige a União Europeia para poder ser parte (terminará ingressando em 1986). Isso implicou fechamento de empresas e fábricas, um ajuste brutal nos setores mais concentrados da classe trabalhadora, como a metalurgia, a mineração, os estaleiros, etc. e centenas de milhares de demissões. É um pouco o equivalente ao que Thatcher fez na Inglaterra, um golpe nos setores mais organizados sindicalmente.
Pode se considerar também que Felipe González foi o pai das primeiras políticas neoliberais ou de precariedade do trabalho, que tentou aplicar no fim dos anos 80, com uma reforma trabalhista que afetava principalmente a juventude, uma reforma que foi impedida por uma greve geral em 14 de dezembro de 1988. Mas González voltou para a ofensiva e entre 1991 e 1994 aprovou algumas reformas trabalhistas, em especial a de 1994 que abriu caminho para contratos temporários, precarização, etc.

Mas o que mais marcou seu governo foi a “guerra suja”, sendo González o pai dos GAL, que são crimes de Estado que passaram com total impunidade até o dia de hoje. Os Grupos Antiterroristas de Libertação (GAL) eram agrupações paramilitares que levaram adiante uma prática de terrorismo de Estado ou “guerra suja” contra a organização Euskadi Ta Askatasuna (ETA) e seus simpatizantes. Os GAL, financiados pelo Ministério do Interior e com a aprovação de Felipe González, praticaram sequestros, torturas, assassinatos e atentados com bombas. Houve somente uns poucos condenados, mas Felipe González sempre apoiou os condenados, inclusive visitando-os no cárcere nos poucos anos em que estiveram presos.

Sua defesa dos interesses imperialistas se mostra com o ingresso da Espanha na OTAN em 1986 e o apoio à Guerra do Golfo em 1991 encabeçada por Bush pai. Ele tinha se apresentado nas eleições de 1982 dizendo “Na OTAN de princípio, não”, e quando assume o poder muda de posição e termina apoiando a entrada.
Sua última etapa de governo foi muito afetada pelos escândalos de corrupção que surgem por toda parte, os escândalos por ter montado os GAL e finalmente em 1996 ganha as eleições José Maria Aznar do Partido Popular, os conservadores espanhóis.
Em seu período como ex-presidente se transforma em um representante pleno do que se conhece como “portas giratórias”, ou seja, a entrada da casta de políticos capitalistas como assessores de grandes empresários, como Carlos Slim do México, conselheiro da empresa Gas Natural, etc.

Além disso, Felipe González tem muitas relações com ditadores africanos, com a ditadura marroquina, tem uma casa em Tanger que é um verdadeiro palácio, iates e outras propriedades, usufruindo da mesma vida dos espanhóis ricos.

Nos últimos anos se transformou em um ativo político a nível internacional, encabeçando uma campanha intervencionista contra o governo da Venezuela, com um cínico discurso de “defesa da democracia”, quando ao mesmo tempo mantém boas relações com ditaduras da África, com o Egito e com monarquias árabes.

Felipe González é, em síntese, um bom representante do imperialismo espanhol e das empresas multinacionais.




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