Educação

OPINIÃO

Um equívoco EXTRA da mídia tradicional, só pra variar

No último dia 23 de maio, o Jornal Extra publicou uma matéria em sua mídia digital falando sobre alguns dos que seriam os atuais principais problemas do Colégio Estadual Visconde De Cairu, no Méier. A mesma provocou bastante repercussão, ainda mais no que desrespeita a comunidade escolar envolvida.

quinta-feira 25 de maio| Edição do dia

A matéria em questão diz que o Conselho Escolar alega em um dossiê que entre os principais problemas do colégio estariam o uso de drogas lícitas e ilícitas, sexo nas dependências do colégio e brigas constantes, por fim a matéria apresenta relato de um professor e conclui-se com o mesmo discurso leviano da SEEDUC que alega que os problemas descritos são “inerentes à direção da escola e, portanto, devem ser resolvidos dentro do próprio ambiente escolar e informados à Diretoria Regional Metropolitana III” (apesar da mesma ser responsável por garantir que haja funcionários terceirizados como inspetores e porteiros).

É importante destacar também o problema que os terceirizados já vinham passando por uma série de abusos, uma verdadeira escravidão, já que muitos passaram meses trabalhando sem receber (bom ressaltar que a maior parte das terceirizadas eram majoritariamente mulheres negras).

A princípio a matéria pode ser vista por um ângulo de denúncia com objetivo de oferecer um espaço mais seguro para os alunos do colégio estadual. Mas não é preciso ir muito longe para observar o serviço tendencioso que a matéria presta, quando na capa da mesma temos uma foto a fachada do colégio, ainda com a faixa dos movimentos de ocupação do ano passado. A “coincidências” não param por aí…

No trecho que abre a matéria temos a nítida tentativa do jornal de criar uma ideia de causa e efeito, relacionando de forma velada os problemas atuais do colégio com o movimento de ocupações do ano passado (uma forma de responsabilizar e até mesmo deslegitimar o movimento).

Podemos ver isso no seguinte trecho que o jornal começa dizendo:

“O Conselho Escolar do Colégio estadual Visconde de Cairú, no Méier, Zona Norte do Rio, formulou um dossiê reunindo os principais problemas na unidade, protagonista em 2016 no movimento de ocupações…”

Gerar uma discussão em torno dos alunos usuários de drogas é uma das muitas formas de desviar a atenção da negligência por parte da SEEDUC. Dar foco ao fato de que a escola esteve entre as escolas que protagonizaram os movimentos de ocupação do ano passado é só uma das formas de culpabilizar as ocupações pelo caos atual, que vem se arrastando a anos, isto é muito antes das ocupações.

Culpabilizar ações inadequadas nas dependências do colégio por parte dos alunos, enquanto temos uma Secretária omissa, que finge não ver os problemas relacionados com a falta de segurança, e a negligência de uma direção que em nada representa os alunos.

Deslegitimar esse movimento é o mesmo que desmerecer o aprendizado da maioria que estava na ocupação do Visconde de Cairu, ninguém que participa de um movimento como esse de tamanha comoção e proporção sai o mesmo depois dos meses que se passaram. O aprendizado que os alunos de qualquer colégio ocupado tiveram acesso provavelmente nunca seria alcançado em uma aula tradicional, desse sistema pedagógico que se apresenta para nós, alunos e professores, como uma ferramenta do estado para sufocar e suprimir o aluno, sendo totalmente desmotivacional para o mesmo, com um sistema que é obsoleto em todos os níveis acadêmicos, por isso em massa continuamos formando professores com a mesma visão pedagógica ultrapassada que os foi anteriormente imposta.

As ocupações ressignificam o sentido de cidadania na mente dos alunos, por mais que todo impacto não seja muito agradável de início, justamente por ter a intenção de mexer com a zona de conforto de uma sociedade que é patriarcal, racista, classista e misógina, por mais que tudo isso ainda assuste alguns que foram relutantes contra o movimento, é primordial que por mais divergências que possamos ter com qualquer movimento como esse (isso é natural), devemos ter em mente que nunca será justo desmerecer ou violar o valor do esforço dos alunos que participaram.

Esse foi o papel subliminar da matéria do Jornal Extra. Esperar diferente de uma mídia tradicional que trabalha em favor do patrão é o mesmo que esperar o dia que os ricos e poderosos irão escolher alguém que represente a classe trabalhadora nos âmbitos políticos.

Ter um Conselho Escolar na escola que não dialoga quase em nada com a comunidade escolar é o mesmo que não ter um Conselho Escolar, se o mesmo não for preparado para ouvir o que os alunos (esses que estão envolvidos com mais profundidade que qualquer um com a realidade do colégio) em nada do que será proposto vamos se quer ver a possibilidade de melhoras reais e não paliativos, igual já vinha sendo feito no Visconde de Cairu.

Se nós enquanto alunos, se eu enquanto aluno não me sinto contemplado não somente com o conteúdo da matéria mas também com a abordagem do Jornal, então é mais do que coerente que devemos questionar sim o valor de uma matéria como a do Jornal Extra. Mídia por nós ou contra nós? Não é preciso de muito para ter essa resposta na ponta da língua.

Certamente a matéria se trata de mais um equívoco de uma mídia que tem um compromisso que passa longe de retratar a realidade de um estudante negro, LGBT, favelado e de escola pública.




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