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Um debate relevante

Christian Castillo

Um debate relevante

Christian Castillo

Na última sexta-feira, 21 de agosto, ocorreu o debate em homenagem a Trótski, aos 80 anos de seu assassinato, convocada pela Frente de Esquerda e dos Trabalhadores - Unidade, da Argentina. Apresentamos neste artigo algumas conclusões acerca do debate.

No dia 21 de agosto, sexta-feira, foi realizada uma conversa-debate em homenagem a Trótski, aos 80 anos de seu assassinato, convocada pela Frente de Esquerda e dos Trabalhadores - Unidade, da Argentina (FIT-U, na sigla em espanhol). Esta atividade foi realizada no contexto da Conferência Latino-Americana e dos EUA, que ocorreu três semanas antes. Para além dos elementos formais que poderiam ser aprimorados (incluir o direito a breves réplicas para responder aos oradores ou pontuar mais precisamente os eixos do debate, por exemplo), cremos que debates desse tipo são de extrema importância para os militantes e simpatizantes da esquerda. Permitem esclarecer posições e discutir temas estratégicos centrais.

Tanto na Conferência como neste debate, a FIT-U demonstrou sua capacidade de realizar discussões francas e não diplomáticas, sem que isto signifique não seguir atuando conjuntamente nos pontos sobre os quais há acordo. Assim, estas iniciativas ganharam reconhecimento de distintos setores da esquerda internacional, ao mesmo tempo em que as diferenças constatadas seguem sendo relevantes, como apontamos em “Um primeiro balanço da Conferência Latino-Americana e dos EUA convocada pela FIT-U”.

Entre os participantes, todos coincidiram em reivindicar o papel histórico de Trótski. As diferenças se deram em torno do que é preciso para o movimento trotskista do pós-guerra e na política para desenvolver hoje e avançar na construção de partidos revolucionários nos distintos países e, assim, a reconstrução da IV Internacional.

Novamente, sobre o NPA na França

No debate, o Partido Obrero insistiu em apresentar como iguais fenômenos de naturezas diferentes, como a Frente Ampla peruana (similar ao que foi o “Proyeto Sul” na Argentina), o PSOL no Brasil e o NPA na França. Para quem não faz parte de nenhuma tendência internacional, basta grosseiramente identificar todos como “farinha do mesmo saco”.

Talvez, agora que o PO está em discussão com uma das correntes internas da esquerda do NPA, a L’Etincelle, mais conhecida como Fraction de Lutte Ouvrière (FLO), agora entenda que o NPA na França não é equivalente ao Podemos – este sim sendo comparável ao partido encabeçado por Jean-Luc Mélenchon, La France Insoumise. A FLO foi uma fração pública aceita no Lutte Ouvrière entre 1996 e 2008, quando se somou à fundação do Novo Partido Anticapitalista (NPA).

Já no debate de 21 de agosto, indicamos a Rafael Santos a falsa visão que apresenta do momento no qual surgiu o NPA, que expressou um fenômeno contraditório. Por um lado, expressava na direção da antiga Liga Comunista Revolucionária (LCR) um giro à direita da mesma na direção de um partido “anticapitalista” sem definição estratégica, para tratar de capitalizar a simpatia que havia gerado a candidatura de Olivier Besancenot nas eleições presidenciais de 2007. Aí obteve 1.498.581 votos no primeiro turno, 4,08% do total, sendo o candidato à esquerda mais votado, fora o Partido Socialista, ultrapassando José Bové, o Partido Comunista Francês, Nathalie Artaud da LO e Daniel Gluckstein do PT francês (lambertista) [1]. Ao permitir o ingresso tanto de novos membros independentes, como de tendências organizadas, o NPA teve uma explosão militante inicial, ultrapassando os 3 mil, aproximadamente, que tinha a LCR naquele momento, e chegando a mais de 9 mil membros, que buscavam uma saída “à esquerda da esquerda” do PS e do PCF.

Os companheiros simpatizantes da FT-CI na França, naquele momento, logo organizaram com outros militantes da atual Corrente Comunista Revolucionária (CCR) e se incorporaram ao NPA, criticando desde o início as bases programáticas fundacionais do partido, indicando que tinha que ser um partido revolucionários de trabalhadores, sem ambiguidade estratégica, e defendendo o direito a uma publicação própria para batalhar por esta perspectiva.

Logo antes da fundação do novo partido, o projeto da maioria da antiga LCR se chocou com o surgimento do bloco no Front de Gauche (FG) entre Mélenchon e o PCF, que ocupou o espaço que no Estado Espanhol levou ao surgimento do Podemos e, na Grécia, do Syriza. Isto provocou uma saída do NPA em direção ao FG, em várias levas, de boa parte dos dirigentes e militantes que vinham da ala majoritária da LCR. Houve também uma série de importantes derrotas na luta de classes, tanto no governo Sarkozy como no governo socialista liberal de Hollande que o sucedeu, que explicam o retrocesso militante. Nestes anos, o NPA teve o mérito de manter-se independente de Mélenchon, por batalha persistente da ala à esquerda do partido que, ao contrário, o empurrou a um bloco com o LO, o que esta organização negou sistematicamente.

Nos últimos anos, a situação da luta de classes começou a mudar. Primeiro, em 2016, com a “nuit debout” (ainda no governo Hollande); logo, já com Macron na presidência, a ascensão dos “coletes amarelos”, primeiro, e finalmente a grande luta operária contra a reforma da previdência. Em todos estes processos, nossos camaradas da CCR, que editam o Révolution Permanente, tiveram um papel muito ativo e alcançaram um importante fortalecimento militante e em influência política. Outras tendências da esquerda do NPA também se fortaleceram, enquanto o setor majoritário se debilitou.

A ameaça de ruptura da atual majoritária é uma resposta direta à nova correlação de forças interna, causada não por um processo eleitoral, mas como resultado direto da intervenção na luta de classes. Para qualquer um que tente construir um partido revolucionário na França, tudo isto ganha relevância central, como atualmente agrupar forças entre as tendências da esquerda do partido para enfrentar a linha de ruptura da maioria, que poderia levar à explosão e dispersão de uma organização que inclui uma das principais tradições que hoje são referências do trotskismo na França.

Para quem se limita a falar do outro lado do Atlântico sem responsabilidade alguma, nada disso, porém, parece relevante. Os companheiros da L’Etincelle fariam mal ao escutar aos “conselhos” do PO, que não se diferenciam em nada do que diz Altamira sobre o NPA, e que temos criticado.

Por fim, Santos defendeu o método com o qual se construiu a CRCI (Corrente Revolucionária - Quarta Internacional), afirmando, inclusive, que a Terceira Internacional foi fundada com base em dois pontos (?) e não em um programa. No entanto, seus esforços em refutar a crítica ao PO por seu “nacional trotskismo” foram infundados. Seguiu sem colocar um único argumento que explique o completo fracasso da CRCI ou os motivos pelos quais o PO praticamente não conte com sócios ou aliados no terreno internacional.

Tática e estratégia

Outra discussão é com os companheiros do MST e da LIS. Diante das críticas recebidas na Conferência e no curso do debate aberto pela sua participação passada no “Proyeto Sul” na Argentina, de Pino Solanas e do partido de Luis Juez em Córdoba, assim como internacionalmente em projetos neorreformistas como o Syriza e o Podemos, tendo feito parte também do PSUV que governou a Venezuela e marchado junto à Sociedad Rural e à Mesa de Enlace durante o conflito pelas retenções agrárias na Argentina em 2008, Alejandro Bodart reivindicou estas intervenções como “táticas” em função do que seria a estratégia da “construção do partido revolucionário”. De acordo com sua interpretação particular, toda tática seria válida se permite um fortalecimento da organização [2].

Essa posição, para Bodart, se baseava na aplicação do que Nahuel Moreno havia popularizado como os dois problemas estratégicos em função dos quais deveria avaliar-se toda tática: mobilizar as massas e construir o partido. Se a posição de Moreno já era de uma simplificação que abria espaço para qualquer “tática”, a de Bodart mostra que, para além do movimento progressivo de unir-se à Frente de Esquerda na Argentina, o MST segue defendendo posições preocupantes, não por um balanço do passado, mas em direção ao futuro.

Nem toda tática é válida para construir partido revolucionário. Há táticas principistas e táticas oportunistas. Trótski, por exemplo, não opinava que era correto participar das “frentes populares”. E isto sem dizer que, em seu tempo, milhões de trabalhadores eram dirigidas por elas. A assinatura do Partido Obrero de Unificación Marxista (POUM) no “Pacto Eleitoral” da Frente Popular na Espanha foi, para Trótski, uma capitulação que o levou a romper com Andrés Nin e seus seguidores. A integração à Frente Popular implicava ao POUM assinar um programa de colaboração de classes, o que Trótski considerava inadmissível. Se fosse Bodart, Nin poderia ter dito que sua participação era “tática” e tinha como objetivo “construir partido”. Trótski não teve acordo, no entanto, o POUM se fortaleceu enquanto organização inicialmente, ao ponto de contar com cerca de 10 mil milicianos [3] no início da guerra civil, tendo pagado o preço caro de sua estratégia centrista.

Para Trótski, a tática de participar da Frente Popular ia na contramão da estratégia de construir partidos revolucionários. Opinou o mesmo sobre a posterior entrada de Andrés Nin como Conselheiro de Justiça no governo da Generalitat. E isto dizia quem, anos antes, havia batalhado pela frente única dos partidos operários contra o fascismo e, pouco antes, havia incentivado o “entrismo” nos partidos socialistas (o chamado “giro francês”), quando entravam operários radicalizados em suas fileiras (França, Espanha) ou para se ter uma localização que favorece a batalha contra o estalinismo (Estados Unidos). Ou seja, alguém que, longe de qualquer sectarismo, mais de uma vez defendeu a seus seguidores que era preciso encontrar um caminho para ligar-se às massas.

“Ter política” para os fenômenos que emergem não implica ter que incorporar-se aos mesmos, como defende o MST. Isto depende, primeiramente, do tipo de fenômeno do qual estamos falando. Para nós, a participação em partidos que não sejam diretamente revolucionários pode ser admissível em determinadas circunstâncias, por exemplo, se trata-se de algum tipo de partido de massas da classe operária ou, tratando-se de um fenômeno de vanguarda, tem uma delimitação programática socialista ou anticapitalista. Não é o caso, pelo contrário, se trata-se de um movimento “cidadão” sem referência de classe, com um programa centro-esquerdista, ou de dirigentes circunstancialmente desprendidos dos partidos tradicionais que gozam de certo reconhecimento eleitoral transitório.

Para além do conteúdo político e social do partido ou movimento em questão, a tática depende da força com a qual contamos, de sua relação com a vanguarda e as massas operárias, das condições para nos somarmos a estas forças, entre outros. Ou seja, da análise concreta da situação concreta, como apontava Lênin. Há todo um arsenal tático desenvolvido pelo marxismo revolucionário que podemos considerar em cada caso, partindo de que um ponto central para explorar essa possibilidade é se aumenta o nível de confiança da classe trabalhadora em suas próprias forças.

Em relação aos companheiros do MST, cremos que o balanço é claro, independente da defesa que façam de suas escolhas políticas. O que contribuiu mais para a luta pela independência de classe na Argentina? A participação no “Proyeto Sul” e com o partido de Luis Juez, ou a formação da FIT? A resposta é tão clara e contundente que o MST teve que se somar à Frente de Esquerda no ano passado (algo que, insistimos, nós comemoramos), depois de tentar vários atalhos que não mostraram resultado.

Em seu encerramento, Bodart colocou que, entre as quatro forças participantes do debate, enquanto o MST defende que sempre deveria se entrar de alguma maneira nos fenômenos em desenvolvimento e o PO supostamente dizia que “nunca”, o PTS e a Izquierda Socialista diziam “depende”. Para além do fato de que isto não seja realidade em todos os casos (o PO apoiou o “entrismo” do Partido da Causa Operária no PT do Brasil durante onze anos, e a participação do atual PCL de Grisolía e Ferrando na Refundação Comunista na Itália, enquanto esta foi parte da coalizão governamental na Câmara de Deputados), metodologicamente a resposta é “depende”, mesmo quando estejam colocadas as condições mínimas que citamos antes. Ou seja, a análise concreta de situações concretas da qual falávamos anteriormente, que não é outra coisa senão a arte da política revolucionária.

Em sua atuação internacional, o MST também sustenta uma visão organizativa, de que a questão é não ser “partidos-mães” e “respeitar as distintas tradições”. No entanto, qualquer um que conheça a tradição dos bolcheviques na Terceira Internacional verá que não atuavam desta forma, mas discutindo aberta e calorosamente as políticas dos partidos comunistas nos Congressos e reuniões. Uma visão destes debates sobre a política dos PCs alemão, francês e italiano pode ser vista em Os cinco primeiros anos da Internacional Comunista de Trótski [4].

Por sua vez, a fundação da IV Internacional foi fruto de uma luta política de Trótski para estabelecer um programa não de pontos genéricos, mas que expressasse as lições revolucionárias fundamentais da luta de classes. O Programa de Transição é justamente o documento que sintetiza essas batalhas. Esta luta incluía a tentativa de atrair a esse objetivo organizações que Trótski considerava “centristas” (ou seja, oscilantes entre a reforma e a revolução) e que por diferentes circunstâncias poderiam adotar um sentido progressivo, como foi a tentativa com o “Bloco dos Quatro”. Mas isto não significava deixar de utilizar a categoria de “centrismo”, como defende Bodart, nem se esquivar dos debates programáticos, estratégicos e políticos com a desculpa de que “pertencemos a tradições distintas”.

Do nosso ponto de vista, colocar de pé um empreendimento como a Rede Internacional La Izquierda Diario, presente em 7 idiomas e em 14 países, é um instrumento de extrema importância para evitar qualquer atuação como “partido-mãe”, e sim para expressar a política de cada organização. Apenas o LID na Argentina publica cerca de 2 mil artigos mensais, elaborados por centenas de militantes e simpatizantes do PTS. O suplemento teórico do LID na Argentina, Ideas de Izquierda, publicou 500 artigos apenas desde o começo deste ano. Multipliquem estes número para toda rede de diários.

O mesmo que permite o desenvolvimento de quadros e dirigentes é o que impede de atuar como “mãe” de ninguém, projetando as publicações e a política desta ou daquela organização. Pelo contrário, a rede de diários permite que a política de cada organização não esteja disponível apenas para um grupo de experientes ou especialistas, mas para todo e qualquer militante ou leitor das publicações. A informação é sempre a primeira condição da democracia partidária. Isto não impede, obviamente, debater e construir acordos entre as seções integrantes da FT-CI em orientações comuns e nas respostas necessárias frente aos fatos ilustres da luta de classes. A FT se apoia em tirar lições programáticas comuns da luta de classe, e este é o método com o qual nos propomos a impulsionar um Movimento por uma Internacional da Revolução Socialista - Quarta Internacional (MIRS-QI).

Por fim, neste ponto, temos consciência de que os acessos num diário digital, como nos colocou o MST na Conferência, não significa adesão política e automática ao nosso programa. Mas tampouco isto ocorria com a venda de um jornal impresso. E os 13 milhões de acessos em nossa rede (o PO comemorava quando alcançou os 10 mil jornais vendidos há muitos anos...) é uma base excelente para lutar para alcançar essa adesão política, muito mais do que não a ter. É um ponto de partida e um grande exercício de aprendizado político para quando os processos de radicalização nos permitam lutar para alcançar influência política de massas.

O exemplo do Brasil

Nos termos colocados tanto pelo MST quanto pelo PO neste debate e nas demais discussões que realizamos, a encruzilhada política se reduziria a um problema essencialmente organizacional: participar ou não de determinada organização. Por exemplo, no debate sobre o PSOL no Brasil, qualquer análise dos acontecimentos dos últimos anos mostra que essa abordagem é esquemática e não serve para fazer nenhuma política.

Os dois pedidos de ingresso no PSOL do MRT foram feitos em momentos políticos específicos. Em primeiro lugar, após a eleição presidencial em que Dilma Rousseff foi reeleita, a candidata do PSOL Luciana Genro, na época expressando a esquerda do partido, havia recebido o apoio dos setores que se opunham ao governo do PT na esquerda após as importantíssimas mobilizações de 2013. Nosso pedido de entrada buscou influenciar aqueles que cada vez mais viam no PSOL a referência à esquerda do governo do PT que, assim que foi reeleito, iniciou um grande ajuste contra os trabalhadores, mesmo além da política oportunista de sua liderança majoritária.

A segunda vez foi depois do golpe institucional contra Dilma. Quando isso ocorreu, tanto o PSTU quanto os setores que estavam à esquerda dentro do PSOL (como o MES, então aliado do MST, bem como a CST) tiveram uma posição de se recusar a enfrentar o golpe, se opor a defini-lo como tal e até flertar com a Operação Lava Jato promovido por Sergio Moro de mãos dadas com o imperialismo ianque (algo que hoje não se tem dúvida), a tal ponto que alguns levantaram o slogan “Lava Jato até o final”.

Apesar disso, a maioria do PSOL (assim como a grande maioria de sua base eleitoral) se opôs ao golpe. Nossa proposta era entrar para acompanhar a experiência de quem queria se opor ao golpe, mas ao mesmo tempo criticava o PT por seus ajustes. Em ambas as ocasiões, buscamos influenciar os rumos do partido como um todo e/ou colaborar na construção de uma esquerda que possibilitasse uma política revolucionária vinculada à luta de classes e aos fenômenos políticos do país.

A resposta ao golpe institucional marcou a esquerda no Brasil. O PSTU teve uma cisão que tomou entre 40% e 50% do partido, que logo evoluiu para o acompanhamento do PT e para a ala majoritária do PSOL. O Partido da Causa Operária (PCO) tornou-se um pequeno apêndice do PT. O grupo que hoje está na LIS junto com o MST, a Alternativa Socialista, se separou do MES, embora as razões políticas dessa ruptura não nos sejam conhecidas nos termos da política brasileira (mas sim em termos de consideração tática ou estratégica em relação aos partidos amplos, a partir de uma maior integração do MES na SU).

A CST também se dividiu, uma ruptura que continua até hoje e leva a duas organizações da UIT-CI no Brasil, uma como seção oficial e outra como apoiadora. Para o PO, nenhum desses eventos foi relevante para propor táticas diferentes, algo central para um grupo de algumas centenas de militantes como o MRT, embora com uma imprensa que ganhou uma influência muito importante, chegando a 7 milhões de lançamentos mensais durante o golpe contra Dilma. Influência que, a nosso ver, é a razão de a direção do PSOL ter negado nossa filiação, pois sabiam que a usaríamos para defender intransigentemente a independência de classe, contra a política de seguir o PT ou formar coalizões locais com partidos burgueses.

No que se refere à intervenção eleitoral, o MRT não tem legalidade própria, devido ao caráter restritivo do ordenamento jurídico brasileiro (o PSTU e o Partido da Causa Operária, apesar de seus resultados escassos, mantêm-na em decorrência de lei anterior). Isso estabeleceu uma espécie de tradição onde as forças de esquerda que têm legalidade permitem em certos casos candidaturas democráticas de outras organizações.

Nossos colegas tentaram fazer essas candidaturas democráticas, sem sucesso, em um certo momento, juntamente do PSTU e do PCO. Mas quando o PSTU fez parte do bloco golpista, isso perdia todo o sentido e por isso recorremos a levantar candidaturas democráticas dentro do PSOL, com exceção dos estados em que participava de coligações com partidos de centro-esquerda ou burgueses ou onde tinha candidatos de sindicatos policiais.

O sistema eleitoral no Brasil também permite o voto por cada candidato, o que dá uma autonomia à campanha que o sistema eleitoral argentino não permite, levantando nossas próprias bandeiras. Acreditamos que esta é uma tática totalmente baseada em princípios para tentar contornar os obstáculos do regime eleitoral reacionário.

Hoje, o cenário político é diferente. A direção majoritária do PSOL vem na linha de seguidismo do PT, que por sua vez incentivou a formação de um bloco com os partidos burgueses de oposição ao Bolsonaro, o que acabou fortalecendo este último apesar da política desastrosa e criminosa diante da pandemia. Setores dentro do PSOL se opõem a essa política. O PSTU também. Em ambos os casos, em nossa opinião, cedendo porém à política de “impeachment” e sem propor uma política que no seu conjunto permita opor uma estratégia e um programa de enfrentamento a todo o regime e a todo o bloco golpista. Acreditamos que se sintetiza na proposta de “Fora Bolsonaro e Mourão, por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana”. Viemos convocando para discussões as forças da esquerda socialista e anticapitalista dentro e fora do PSOL para unir forças e lutar juntos, para além das fortes divergências que tivemos durante o golpe institucional ou diante da prisão de Lula.
Novamente, análise concreta de uma situação concreta.

Erros circunstanciais ou uma lógica

Com os companheiros da IS e da UIT, no debate, tivemos duas discussões. Uma, sobre a Frente Ampla no Peru, onde insistem em defender sua participação na mesma, embora seja evidente sua semelhança com o que foi o Proyecto Sur na Argentina. A IS crítica, como nós, o MST por ter participado dessa experiência e na época afirmaram que seu limite de alianças “era a centro-esquerda”. Não diríamos, como Bodart, que comparado com a FA peruana “Pino Solanas é Che Guevara”, mas o caráter centro-esquerdista e de colaboração de classe de seu programa está fora de dúvida, como tem demonstrado nossos companheiros da CST peruana.

Ademais, os companheiros da IS insistiram em defender que a CST peruana havia proposto ter candidatos dentro da FA, um ato completamente falso que esperamos uma retificação. Pelo contrário, a CST provém de uma ruptura com a FA, assim quando esta chamou voto em Pedro Pablo Kuczynski (um neoliberal ao estilo Macri) no segundo turno das eleições presidenciais.

Ao mesmo tempo, diante de nossa defesa de que Nahuel Moreno não estivesse isento de embelezar a liderança da revolução cubana de outras correntes do trotskismo no processo de constituição do Secretariado Unificado em 1963, Mercedes Petit argumentou que tomamos as citações fora de contexto. Mas em 1964, em Dois métodos contra a revolução latino-americana, Moreno declarou:

“Fidel e o Che tem demonstrado nos fatos e tem popularizado várias questões políticas e teóricas de fundamental importância, com as quais fazem de que, acerca deles, se possa dizer, parafraseando o que Sartre disse da filosofia de Marx, ‘que não há outra corrente revolucionária na América-Latina senão o castrismo’”.

E isso em um momento em que se intensificava a perseguição aos trotskistas cubanos. É verdade que este texto contém muitas críticas corretas à estratégia guevarista, embora a crítica do “guerrilheirismo” (isto é, a transformação do método da guerrilha em estratégia) seja feita de forma pragmática, dependendo das condições de cada país, e não se diferenciando da insurreição proletária. E isso também é feito contrastando o guevarismo com o "método de Lenin, Trotsky e Fidel Castro, que dirigiram a grande revolução cubana" [5]. Essas definições não eram inócuas e meros exageros. Como Ernesto González corretamente assinala: "As posições então ocupadas pelo SWP e pela Palabra Obrera os levaram a não propor a construção de um partido trotskista em Cuba" [6]. Mais tarde, Moreno ainda flertaria mais com o guerrilheirismo, até que mais tarde, com a dissolução do PRT, passou a criticá-lo corretamente.

Nahuel Moreno

Este é apenas um exemplo da discussão mais geral da tradição morenista. Mercedes sempre responde a cada crítica de que "foram pequenos erros dentro de uma oposição revolucionária à rendição da tradição de Pablo e Mandel". Mas era mesmo assim? Ou os ziguezagues de Moreno expressavam que além de certas batalhas corretas, que consideramos revolucionários “fios de continuidade”, ele compartilhava as características mais gerais do que chamamos de “trotskismo de Yalta” e não apresentava uma alternativa revolucionária como um todo? Em nosso entendimento, o morenismo, como todas as tradições do trotskismo no período pós-guerra, deve ser superado dialeticamente.

Também em relação à nossa crítica à revisão de Moreno da teoria da revolução permanente no início dos anos 1980, ela nos diz que forçamos citações e interpretações. Mas a verdade é que a chamada "teoria da revolução democrática" foi uma virada teórica oportunista do morenismo que teve inúmeras consequências práticas, tanto na Argentina como internacionalmente, como já apontamos há muitos anos.

Um revisionismo que, em nosso entendimento, foi parte de uma adaptação mais geral em grande parte do movimento trotskista à estratégia de "reação democrática" do início dos anos 1980. Uma teoria errônea que, após a morte de Moreno, explica em grande parte a subsequente implosão do MAS e da LIT, que responderam erroneamente aos levantes antiburocráticos de 1989 na Europa Oriental e na antiga União Soviética (limitando-se apenas a levantar um programa democrático como o no caso da unificação alemã) e os fatos da luta de classes em face da investida privatizante do menemismo na arena nacional, com a chamada "Plaza del NO" e suas cadeiras vazias para Ubaldini e Storani inclusive, e a formação anterior de Izquierda Unida seguindo um programa de democratização junto ao Partido Comunista.

Os companheiros certamente não concordam com o que indicamos. Mas, até onde sabemos, eles não elaboraram uma explicação abrangente sobre os motivos que levaram à crise do MAS e da LIT no início dos anos 1990.

Como continuar?

Como apontamos no início, para nós os debates entre as correntes da FIT-U sobre questões estratégicas são de primeira ordem. Estamos na antípoda daqueles que desprezam essas discussões. Sabemos que não vamos concordar em tudo e não exigimos de ninguém uma autocrítica do seu passado para dar passos comuns. Mas isso não significa que as diferentes posições não devam ser colocadas o branco sobre o preto e ver se um entendimento comum pode ser alcançado. E, caso isso não aconteça, que se esclareça os pontos de diferença.

Portanto, ao mesmo tempo que nos mobilizamos para os lugares símbolos do poder ianque nesta quinta-feira, 27 de agosto e sexta-feira, 28 de agosto, em diversos países, cumprindo com o que foi deliberado na Conferência Virtual da América Latina e dos Estados Unidos, queremos insistir na proposta de continuar as discussões por meio de um Boletim de discussão editado em comum e publicado nos sites das diferentes organizações. Neste dia 21 de agosto, desde a FIT-U, prestamos homenagem a Trótski nesse sentido, debatendo questões cruciais entre aqueles de nós que nos reivindicamos parte de sua tradição.

Assista abaixo o debate completo:

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FOOTNOTES

[1Em 2002, a mais votada nas forças de “extrema esquerda” tinha sido Arlette Laguiller da LO com 1.630.045 (5,72%), embora Besancenot, que se apresentava pela primeira vez em nome da LCR, tivesse obtido um resultado muito bom com 1.210.562 (4,25%). Daniel Gluckstein, do PT, obteve apenas 132.686 votos (0,47%). Essa soma de quase 11% dos votos em uma eleição presidencial para as forças trotskistas foi uma expressão do descontentamento da esquerda com o governo de Lionel Jospin e a “esquerda plural”.

[2E mesmo do ponto de vista da lógica do MST, não se poderia dizer que essas "táticas" permitiram que ele se fortalecesse...

[3Este é o número dado pelo historiador Reiner Tosdtorff enquanto George Orwell diz que eles estavam entre 8.000 e 10.000, concentrados centralmente na Catalunha. Se tomarmos como referência os números do historiador Gonzalo Berger a respeito da soma dos milicianos de todas as tendências na Catalunha teria sido de 60.000, o POUM teria 13% e 16% deles. O mesmo historiador aponta que a CNT tinha 43% da milícia e o PSUC 23%.

[4León Trotsky, Los primeros cinco años de la Internacional Comunista, Ediciones IPS-CEIP-Museo Casa León Trotsky, Buenos Aires, 2016.

[5Nahuel Moreno, Dos métodos frente a la Revolución Latinoamericana, en “Che Guevara, héroe y mártir”, Cuadernos Socialistas, 1996, p. 39. Tradução nossa.

[6Ernesto González, El trotskismo obrero e internacionalista en la Argentina, Tomo 3, Bs. As., Antídoto, 1999, p. 58. Tradução nossa.
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Christian Castillo

Dirigente do PTS, sociólogo e professor universitário
Dirigente do PTS, sociólogo e professor universitário
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