Sociedade

UM ANO DE MARIANA

Um ano da tragédia de Mariana (MG): os problemas das vítimas só aumentam

Beirando um ano do rompimento da Barragem de Fundão, da mineradora Samarco, uma joint-venture da companhia Vale do Rio Doce e da anglo-australiana BHP, as vítimas continuam a sofrer com as consequências da tragédia e os verdadeiros culpados continuam soltos.

Rafaella Lafraia

São Paulo

domingo 30 de outubro| Edição do dia

Foto: Fred Loureiro/ Secom ES (13/11/2015)

No próximo dia 05 de novembro, a tragédia de Mariana (MG) completará um ano. O rompimento da Barragem de Fundão, da mineradora Samarco, uma joint-venture da companhia Vale do Rio Doce e da anglo-australiana BHP, é considerado como maior desastre socioambiental do país, causando a morte de 19 pessoas e deixou mais de 1.500 desabrigados, além das consequências ambientais apresentadas aqui e aqui. De acordo com dados a lama da barragem continua a atingir o Rio Gualaxo do Norte, que deságua no Rio do Carmo e segue para o Doce, o que continua a contaminar a água da região e, como apresentado aqui, o consumo desta água pode causar doenças degenerativas e neurológicas na população que a consome.

Desde a tragédia, pouco foi feito para as vítimas, em contrapartida, a Vale do Rio Doce, tentou manipular o grau de contaminação da água e o âmbito da tragédia, para tentar diminuir o valor da multa que a empresa deve pagar pelo ocorrido. E, apesar de vinte e um integrantes da cúpula da Samarco e representantes da Vale e da BHP Billiton terem sido denunciados pelo Ministério Público Federal (MPF) por homicídio qualificado com dolo eventual, o governo de Pimentel em Minas Gerais autorizou a Samarco a construir um dique, no município de Bento Rodrigues (MG), que segundo a empresa pode ajudar a conter os rejeitos tóxicos para que no período chuvoso, mas que alagará parte deste município.

Vale relembrar que em abril deste ano, manifestantes do MST e outros movimentos sociais, realizaram um protesto, em diversos pontos próximos a sede da empresa, contra a impunidade das empresas Vale e Samarco, e foram recebidos com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha pela polícia militar. Além deste protesto, várias outras figuras internacionais se manifestaram em solidariedade as vítimas da tragédia como músicos e figuras políticas.

Em matéria do Estadão, publicada ontem, mais um peso para as vítimas da tragédia é reportado: os moradores do subdistrito de Bento Rodrigues, em Mariana, Minas Gerais, são discriminados como se fossem eles a causa da tragédia que atingiu o município. Segundo relatado pela matéria, crianças de distritos devastados pelo rompimento da barragem são chamadas de ‘pé de lama’ na escola, enquanto seus pais são vistos como ‘aproveitadores’ por quem dependia da mineração para viver.

A atitude dos moradores da região somente comprova a necessidade de uma apuração independente, organizada pelo sindicato e organizações de base dos trabalhadores e moradores, de forma independente, com punição para os responsáveis e com atendimento a população, familiares e remediação das regiões afetadas, pois, como feita até o momento, os culpados não serão punidos e os problemas resultantes não serão sanados. Além disso, sem esta ação, o descaso e a manipulação da empresa entre os moradores locais e de outras partes do mundo, através do esquecimento e/ou culpabilização das vítimas pelo ocorrido e pela necessidade do auxílio para se manterem, se perpetuará e as mesmas sofreram mais do que a perda de seus bens.

É necessário um novo modelo de gestão, que supere os modelos de interesses de um punhado de empresários. Os que mais conhecem da produção, os trabalhadores, junto à população que sofre com a precarização da vida nas cidades em que as mineradoras arrasam as nascentes, o solo e mantêm populações na extrema precarização são os que devem gerir e controlar a empresa e colocar sua produção a serviço do povo. Devemos lutar pela expropriação sem indenização aos antigos donos e a reestatização de mineradoras como a Vale, sob controle dos trabalhadores. O controle operário de uma Vale, caso estatizada, significaria arrancar das mãos de um punhado de capitalistas e altos executivos o funcionamento da empresa para colocar sua produção a serviço de quem mais interessa: os trabalhadores e o povo. Essa é a única forma de acabar com a corrupção, tragédias como essa, além de garantir que as condições de trabalho, a riqueza natural e o meio ambiente sejam fonte de riquezas que garantam boa qualidade de vida e não meros detalhes na gestão de um dos principais ramos da economia do país.




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