Mundo Operário

ACIDENTES DE TRABALHO

Um amigo preso entre as máquinas

“Corre! Seu amigo está preso na maquina! Seu amigo ta preso na maquina!”. Não parecia real, mas não perdi tempo pensando enquanto corria o mais rápido que podia para dentro do galpão.

quinta-feira 28 de abril de 2016| Edição do dia

Estava em meu horário de janta, eu e o operador das extrusoras do galpão de cima. Ele sempre dorme no seu horário de descanso, como a maioria dos trabalhadores do terceiro turno. Eu ouvia musica com fones de ouvido e lia algo pelo celular. Já passava da meia noite quando o empilhadeirista correndo acordou o operador, não pude ouvir a conversa, mas aparentava ser algum problema com a maquina. O operador saiu às pressas ainda se recuperando do sono. Poucos minutos depois um colega do meu galpão correu até mim desesperado e gritou para que eu pudesse ouvir por cima da musica em meus ouvidos. “Corre! Seu amigo está preso na maquina! Seu amigo ta preso na maquina!”. Não parecia real, mas não perdi tempo pensando enquanto corria o mais rápido que podia para dentro do galpão.

O impacto da cena paralisa todos os pensamentos. A máquina já estava parada com o braço de meu amigo exprimido entre dois eixos. Há sangue e parte do interior de sua musculatura esta amostra. Sua expressão é de um firme desespero. Impressiona-me estar ainda tão consciente mesmo que claramente abalado. Ele não chora e não grita de dor. Sou tomado pela emergência em ajuda-lo, mas como? Há muitas pessoas a volta. Sou tomado pela frustrante impotência. Mas uma coisa é clara, os eixos devem ser desmontados para libertar seu braço. Mas com minha inexperiência mal saberia por onde começar, estou neste trabalho a poucos meses.

Corro para o lado do meu amigo que com uma das mãos segura um pedaço de metal entre os eixos, como uma alavanca, para aliviar a pressão. Tomo o cano de suas mãos e puxo utilizando toda força que meu corpo permite naquele momento. Estou lado a lado com ele. Ele me olha e sua expressão muda por um breve momento para o pavor de quem pede socorro. “Cara! Estou com medo de perdeu meu braço, cara!”. Só eu escuto.

O encarregado chegou com uma caixa de ferramenta, trancada por um cadeado sem chaves para abri-lo. Ele serra o cadeado, retira as ferramentas e rapidamente desmontam os eixos. Ele esta solto e agora temos que correr. Não esperamos a emergência, pegamos tudo que o desespero nos permite e corremos rumo ao estacionamento. Meu amigo permanece consciente, me orienta a pegar coisas de que precisa. “Aconteça o que acontecer, você vem comigo, não importa como”. Eu não tinha outra intenção se não esta. Rumo aos carros que usaríamos para leva-lo ao hospital, novamente a sós voltou sua expressão amedrontada “Estou com medo de perder meu braço”. Com as mãos em volta de seus ombros dizia com a confiança, “Não vai perder! Não vai perder! Vai ficar tudo bem!”. Seu braço aberto, como se uma grande mordida lhe tivesse arrancado um pedaço, estava envolto não por gaze, nem pano, mas por aquilo que sobra nesta fabrica, aquilo que produzimos inesgotavelmente, plástico!

Com o carro seguimos rapidamente para um posto de atendimento de primeiros socorros, onde recebeu os primeiros atendimentos, ainda sem nenhum diagnostico. O estado era grave e só um cirurgião poderia avaliar. Foi transferido para um hospital maior, onde já esperavam na porta sua companheira e um familiar. Esperei ate que ele chegasse e pudesse vê-lo rapidamente sendo levado para dentro com o braço já enfaixado. Seus entes mais próximos assumiram o acompanhamento dali. Não seria possível mais vê-lo até que estivesse estabilizado. Resolvi voltar para a fábrica na esperança de encontrar a comoção e revolta entre os trabalhadores...
... Mas a produção não parou.

A fabrica estava vazia pois era domingo. E os poucos trabalhadores ali continuavam trabalhando. Apenas a maquina onde ocorreu o acidente estava parada. Estava indignado. Conversei com alguns trabalhadores do meu galpão em busca de indignação, mas era a apatia que reinava. Alguns se sensibilizavam mais, outros menos. Mas nenhum via algo que poderia ser feito. Acidentes graves já faz parte da tradição desta fabrica. Aos poucos foram me contando os acidentes que cada um já havia sofrido, assim, como uma casualidade inevitável.

Eram trabalhadores mais velhos, há muito tempo neste emprego. Um deles chegou a dizer “Se machucar faz parte do trabalho. Se não quer se machucar, não trabalhe!”. Mas tentavam me acalmar dizendo que não havia com que se preocupar pois a empresa pagaria por tudo, como sempre fez. “Pagaria um outro braço? Pagaria por uma vida?” eu questionava indignado. Mas antes que pudesse questionar mais, este mesmo colega “Se eu fosse você ficaria de bico calado”, e fez um “ziiiiiiip” com a mão na boca, “ou vai acabar sobrando pra você”.

A verdade é que todos já estavam acostumados com os acidentes, foram educados a se machucar e serem gratos pela empresa bancar as despesas, aprenderam a ter gratidão pelo responsável de suas cicatrizes! A única coisa nova e inesperada ali era alguém como eu, indignado, inconformado e revoltado. Isto sim foi impactante. Subi para o outro galpão, onde estava o encarregado, que é também, ironicamente, o cipeiro. Exigi que abrisse uma ocorrência, que fizesse algo! Não podíamos simplesmente confiar na empresa. Mas ele se recusou justificando que ele não podia fazer nada, estava tudo nas mãos da empresa. Acredito que nem ao mesmo saiba a função e as responsabilidades de um cipeiro. Inconformado, fiz o que pude, com o celular tirei fotos de todos os ângulos da onde havia sido o acidente, com a máquina já limpa do sangue, mas ainda desmontada.

O encarregado assistiu a tudo espantado, como se eu estivesse cometendo algum crime, como se meu comportamento fosse estimulado pelo mero abalo emocional de ver meu amigo ferido. Ao nosso lado o operador que trabalhava nesta maquina junto com meu amigo assistiu ao escândalo. Estava claramente muito abalado... Rendido, mas abalado. Sem a presença do encarregado chegou a dizer que eu tinha razão.
Voltei a trabalhar com profundo desgosto, raiva e tristeza. Mas o mais chocante era sentir a apatia presente no meu próprio trabalho. Parece ser difícil trabalhar após ver uma cena como essa... Mas a verdade, cruel e deprimente, é que é fácil.

Os movimentos mecânicos, repetitivos e rotineiros afastam pensamentos, elhienam e estranham. Esta sensação me despertava verdadeiro ódio. Alimentei este ódio contra a apatia. Desejei quebrar cada uma das maquinas em que eu tivesse que tocar, compreendendo a espontaneidade mais instintiva da revolta da classe trabalhadora.
Mas minha tentativa de chacoalhar a mente dos meus colegas ainda estava para ser assimilada, ainda que aos poucos, por eles. Neste mesmo dia alguns chegaram a comentar algo como “Não era para este acidente ter acontecido. Era pra ter uma tela de segurança que não permite com que toquemos nos eixos. Mas as telas foram retiradas das maquinas e estão encostadas nas paredes, para que possamos colocar a mão e resolver qualquer problema sem ter que parar a produção”. E de fato todos nós fazemos isso. A máquina não para. A produção é constante, e todos os dias nos expomos a esses riscos, colocamos nossas mãos nos eixos enquanto ainda giram, correndo o risco de ter nossos braços devorados.

Praticamente todos os trabalhadores desta fábrica já sofreram acidentes deste tipo. Não tão grades quanto de meu amigo, mas já tiveram dedos, mãos e braços prensados. Um outro trabalhador me alertou, ouvindo de um outro trabalhador de um outro turno “Essa maquina é uma armadilha”. Percebi então que é só uma questão de tempo para que eu mesmo sofra um acidente similar.

As maquinas não recebem manutenção, talvez uma por ano. Estão cheias de defeitos e funcionam a base de “gatos”, como dizem, improvisos e gambiarras. Todos os dias eixos se soltam atravessando as maquinas, ainda girando, e com nossas mãos nuas os colocamos de volta. Batemos com barras de metal seus braços para que os eixos se encaixem, alguns vão literamente na base da bicuda. Recentemente a fabrica recebeu uma visita de inspeção e metade das maquina estão interditadas por falta de segurança. E as que funcionam são por pura vista grossa. Os equipamentos de segurança que permanecem instalados não são usados ou são inúteis. E há alguns equipamentos oferecem ainda mais risco do que se não estivessem lá.

A fábrica não conta com nenhum corpo de enfermeiros de plantão. Lembro-me de ter visto em algum canto uma pequena caixa de primeiros socorros, que com certeza não teria faixa suficiente para cobrir o ferimento de meu amigo. Existe uma maca que fica abandonada em uma sala do RH onde recebemos nossas cestas básicas. Nossa integração não contou com nenhum tipo de treinamento, tanto para nossas tarefas quanto para nossa segurança, apenas um discurso breve e geral do técnico de segurança do trabalho.

No outro dia, ao chegar no trabalho o clima foi, finalmente de solidariedade. Havia comoção, espanto e curiosidade. Os mais jovens me cercavam querendo saber do ocorrido e perguntavam sobre meu amigo ferido. Alguns trabalhadores mais velhos assimilaram o acontecimento e também se solidarizaram. Envolto desta solidariedade e com esperanças renovadas, voltei a mais um dia trabalho, numa angustia que mistura tristeza e revolta.

Em uma das maquinas em que trabalho, sempre reparo, uma placa desgastada pela falta de cuidados e manutenção, marcada em seu corpo de metal, uma mensagem carregada da ironia mais cruel e desumana da qual a burguesia é capaz:

“AENTEÇÃO: Não existe serviço tão importante, ou trabalho tão urgente, que não possa ser feito em segurança!”

Enquanto nossos corpos forem bonecos a serem quebrados e remendados, cortados e costurados, admitidos e descartados, para produzir a riqueza e o conforto de uma minoria; enquanto as maquinas não forem uma extensão de nossas mãos e braços, e seguirem sendo um instrumento de mutilação medieval, sempre haverá uma fagulha para a revolta, um motivo para se lutar!

Trabalhador anônimo de uma fabrica produtora de embalagens plásticas.




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