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USP é nº1 na produção de pesquisas científicas sobre cosméticos

A Universidade de São Paulo é a instituição que mais produz pesquisas científicas sobre cosméticos ao redor do mundo, e produziu cerca de 180 artigos científicos nesta área de 2005 a 2015. Mas qual deveria ser a prioridade da produção acadêmica e das pesquisas financiadas com o dinheiro público nas universidades?

quarta-feira 15 de fevereiro| Edição do dia

De acordo com o Jornal do Campus da USP, o número de artigos é superior ao de instituições como Food and Drug Administration, órgão estadunidense responsável por controlar alimentos e medicamentos na maior potência imperialista do globo.
A fundação, há 20 anos, do Núcleo de Estudos Avançados em Tecnologia e Cosméticos (Neatec), na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, em Ribeirão Preto, fez com que as pesquisas aumentassem significativamente.

A Fapesp, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, instituição pública de fomento à pesquisa acadêmica ligada à Secretaria de Ensino Superior do Governo do Estado de São Paulo, tem sido não só a instituição pública que tem dado o maior suporte financeiro a esse tipo de pesquisa como também chega a mediar a relação entre a USP e as empresas privadas de cosméticos, financiando projetos de pesquisas que visam a “inovação tecnológica” em produtos de estética.

Há uma rede de instituições públicas brasileiras e até internacionais, com centenas de pesquisadores financiados com o dinheiro público para se debruçar em estudos e pesquisas com destaque recente para o estudo sobre alisantes capilares, produtos anti-celulite e máscaras faciais argilosas que “retardam o envelhecimento” da pele.
O fato por si só talvez possa não soar tão estranho assim à primeira vista para um leitor pouco crítico. No entanto, é preciso entender qual o interesse da Universidade de São Paulo e da Fapesp em gastar tanto dinheiro público, incentivar tantos profissionais e dedicar tantos esforços em conquistar o primeiro lugar no pódio de produtores mundiais de artigos científicos sobre cosméticos.

Pra que(m) serve o conhecimento produzido nas universidades?

Por que ter o centro da produção acadêmica voltada para o estudo e fabricação de cosméticos? De onde surgiu essa urgência? Não há outros problemas de urgência social que exigem estudos com financiamentos públicos ou mesmo privados que poderiam evitar a morte de milhares de pessoas todos os anos?

É preciso questionar qual o papel das instituições públicas, erguidas com o dinheiro público, e qual o papel das fundações que colocam recursos na universidade com fins privados, movimentando milhões, que servem à indústria da estética, direta ou indiretamente colocando à venda centenas de mercadorias que apenas uma elite muito restrita poderá ter acesso. Esses financiamentos colocam em discussão qual é o papel da produção acadêmica e das pesquisas científicas feitas na universidade pública, a que(m) elas servem e quais seus objetivos, principalmente em um cenário nacional em que a população pobre e periférica ainda sofre com problemas milenares como doenças parasitárias, bacterianas ou viroses que ainda carecem de pesquisas acadêmicas que resultem em produção de medicamentos ou vacinas; ainda sofre e morre com a falta de tratamentos acessíveis que curem diversos tipos de câncer ou doenças como microcefalia, dengue, chikungunya, febre amarela e tantas outras que ainda em pleno 2017 matam em todos os cantos do país.

O papel da universidade pública deveria ser em primeiro lugar solucionar os problemas sociais de toda a população, colocando seu potencial à serviço de produzir conhecimento que seja capaz de criar soluções e revertê-los. Deveria ter o seu centro da produção acadêmica voltada para solucionar os problemas de saúde pública, de habitação, desemprego, poluição, educação.

A USP vem dizendo há anos que vive uma “crise orçamentária”, com escassos recursos, cortando bolsas, fechando cursos, creches, restaurantes universitários, demitindo funcionários, não reajustando salários de acordo com a inflação, sem contratação de professores e privatizando serviços básicos. Entretanto, as notícias mostram que em 2016 a produção acadêmica com foco em cosméticos segue em alta e continua batendo records mundiais.

Isso mostra a necessidade e a urgência da luta para que a produção acadêmica esteja voltada àqueles que a financiam a existência universidade pública, e que a única saída é que o conhecimento produzido ali deve estar à serviço dos trabalhadores, das mulheres, dos negros, lgbts, jovens e todos aqueles que mantém a universidade de pé, e batalhar para que ela seja verdadeiramente pública, gratuita e da população.




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