Educação

USP: Moradores do CRUSP abandonados: “Me senti um nada... fiquei 6 dias sem água.”

"Toda a estrutura emana desrespeito contra o estudante pobre, isso é evidente desde as primeiras horas que eu cheguei na USP(...)"

quarta-feira 25 de março| Edição do dia

Vivemos uma pandemia da Covid-19, onde por todo o globo milhares de pessoas estão sendo infectadas e com quase 20 mil mortes. No Brasil, o atual presidente Jair Bolsonaro, segue afirmando que é apenas uma “gripinha” e continua não demonstrando para os trabalhadores qualquer solução real, pelo contrário, segue querendo atacar ainda mais a vida dos trabalhadores com a recente MP da Fome e da Morte.

Em meio a essa situação, a Reitoria da Universidade de São Paulo (USP) enviou um e-mail afirmando que a USP não iria parar, anunciando a liberação das aulas mas mantendo vários trabalhadores em suas funções, sobretudo os terceirizados e trabalhadores do Hospital Universitário. A universidade que é considerada a melhor da América do Sul possui um caráter elitista sem igual. Moradores do CRUSP passam por circunstâncias degradantes há muito tempo em seus prédios, nas aulas e na região que o campus está localizado.

Veja abaixo um relato indignante de estudante residente do CRUSP:

“É bem explícito que não somos bem vindos aqui, isso fica claro a cada dia que passa, seja na moradia, nas aulas ou em qualquer lugar que eu vá, existe sempre um tratamento diferente, mesmo que digam e repitam que não.

Esse é o meu segundo ano na USP e sinceramente eu não quero ficar mais tempo do que preciso aqui, sou nordestino e pardo mas nunca passei por coisas tão horrendas quanto as que aconteceram nesses dois anos, passar uma semana inteira sem água no ano passado e recentemente eu fiquei 6 dias sem água, tenho que me virar pra comer algo à noite nos finais de semana, vivo com medo por causa das rachaduras no meu apartamento e em todo prédio, fora a quase inexistência de cozinhas e internet.

Esse são só alguns dos problemas de morar no CRUSP, se eu tivesse condições não estaria mais aqui, não é a primeira e sei que não será a última vez que eu vou pensar em desistir do curso e voltar pra minha cidade e onde vivia dignamente, sem ninguém me ignorando e colocando o dedo na minha cara enquanto me chamava de ladrão.

Se a situação de ficar o final de semana sem jantar já é ruim, tentar comprar algo perto da moradia estudantil é pior ainda, eu já fui acusado de roubo por causa de um chocolate de menos de três reais, fui salvo por causa dos meus amigos (ambos brancos) que me defenderam e afirmaram que eu não tinha pego nada, eles foram ouvidos e tidos como educados enquanto o segurança disse que eu não tinha educação e não sabia falar direito, infelizmente esse é o único supermercado perto da USP no bairro Butantã, mas toda vez que eu preciso comprar algo em qualquer lugar os momentos de terror continuam explícitos na minha mente.

Na faculdade a situação não é diferente, faço Filosofia e já fui tratado como um nada, exatamente como um nada, algumas pessoas realmente ignoraram a minha existência, passaram a lista de presença para frente me pulando, sendo que todas as pessoas da minha fileira tinham assinado mas eu não pude, tudo isso acontecia enquanto mexiam freneticamente com os pés na minha carteira e a pessoa do lado me olhava com desprezo, mas esse tipo de situação já aconteceu, não é de agora que eu passo por certos constrangimentos, eu já vi uma pessoa rindo da forma que eu falava no meio de um seminário.

Toda a estrutura emana desrespeito contra o estudante pobre, isso é evidente desde as primeiras horas que eu cheguei na USP, olhando a estrutura dos blocos da moradia estudantil eu vi que nem a escada de incêndio chega até o chão, caso ocorra algo você vai precisar pular de uma altura de quase 3 metros e meio, o elevador não chega no térreo, é necessário subir escadas até ele, estamos aqui vivos ainda por mera sorte, caso ocorra algo dificilmente vamos sobreviver, e pelo andar das coisas, não vai demorar muito, seja um problema estrutural, seja morte por qualquer outro fator, aqui as formas de perder a vida e a sanidade são imensas.
Espero pelo menos conseguir sair daqui graduado e com o máximo de sanidade que eu conseguir, são tantas coisas que sozinhas já são horríveis, mas juntas são insuportavelmente dolorosas, e em tudo a universidade tem culpa, seja aqui na moradia estudantil, seja na faculdade, seja nos finais de semana que nós tentamos conseguir algo para comer, infelizmente na USP eu não vivo, eu sobrevivo em busca de um diploma que dará condições melhores para mim e minha família, mas nesse momento eu nem posso ficar perto deles por conta da pandemia do Covid-19, estou tentando ao máximo não perder a fé de que as coisas aqui vão melhorar, mas de tanto apanhar ela já está bem afetada.”

A situação que o CRUSP se encontra é de extrema precarização. Em quase todos os blocos condições essenciais como as suas cozinhas feitas por andares, que deveriam suportar toda a demanda de cada andar, dificilmente existe fogões que funcionem, ou água, que sempre ocorre a falta, ultimamente o bloco F do conjunto ficou 6 dias sem água, em meio a pandemia. As lavanderias não possuem máquinas de lavar roupa funcionando, todas quebradas sem nenhuma previsão de conserto. Ou até mesmo internet, que só um bloco possui internet nos apartamentos.

Nós do Esquerda Diário estamos à disposição para qualquer estudante ou trabalhador que queira denunciar suas condições de vida e de trabalho!!




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