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USP: Conselho de Centros Acadêmicos e as perspectivas de organização do movimento estudantil

No último sábado aconteceu o conselho de centros acadêmicos (CCA) da USP, um importante espaço que reuniu cerca de 70 estudantes de mais de 30 CA’s, expressando uma disposição e politização de muitos estudantes frente ao governo Bolsonaro, cujo centro foi a discussão de como se organizar, debatendo as perspectivas que o movimento estudantil pode se colocar frente a essa conjuntura.

sexta-feira 3 de maio| Edição do dia

Esse foi somente o segundo CCA que aconteceu no ano, sendo que o primeiro foi em janeiro antes do início das aulas. A reunião debateu quatro temas centrais, uma campanha proposta pelo DCE da USP em defesa das universidades públicas, a necessidade de uma assembleia geral que ainda não aconteceu esse ano, o CONUNE (Congresso da UNE, entidade que representa os estudantes de todo o país) e a importância de termos um congresso de estudantes da USP que não acontece desde 2015.

O DCE livre da USP, composto pela gestão Nossa Voz (Levante e UJS) apresentou uma proposta de campanha em defesa das universidades públicas e sobre essa discussão a estudante Odete Cristina, estudante de Ciências Sociais da USP , militante da faísca, declarou que “É muito importante que nesse momento se faça uma campanha unificada do movimento estudantil, inclusive convocando e chamando os companheiros trabalhadores e professores da universidade para construírem conosco essa campanha contra os ataques que a universidade vem sofrendo. Vemos como Bolsonaro declarou que quer acabar com a sociologia e a filosofia para avançar em diferentes projetos de privatização que é o projeto da extrema direita de Bolsonaro alinhada cada vez mais com o conhecimento técnico e uma produção mercadológica, além desse, há um outro projeto de privatização que era o que já vinha sendo implementado pelo PSDB há muitos anos no governo estadual e agora Dória quer seguir avançando, projeto esse impulsionado pelo deputado Wellington Moura (PRB), vice líder do governo Doria. Isso nos mostra o quão importante é que façamos uma discussão profunda contra essa CPI das estaduais paulistas. Nossa tarefa é fazer uma grande campanha que consiga enterrar essa CPI e defender a nossa universidade porque o objetivo fundamental deles é avançar não apenas na privatização que segue na lógica de colocar toda produção universitária a serviço das grandes empresas, mas também de atacar a liberdade de produção de conhecimento, as pesquisas, ou seja, ideologicamente modificar os nossos currículos para que eles fiquem cada vez menos voltados para os interesses da população. Por isso é importante discutir qual é a universidade pública que nós queremos, a que temos hoje é imensamente elitista, afastada dos interesses da maioria da população, inclusive essa é justamente uma das justificativas que a direita usa para se atacar a universidade hoje. O fato de que as universidades não servem aos interesses da população, não retorna o conhecimento produzido aqui dentro, usando isso de moeda de troca para justificar que se possa avançar sobre muitas outras coisas abrindo caminho para a privatização. Devemos lutar para que a universidade estejam a serviço da classe trabalhadora e de toda a população, e para isso precisamos questionar o que é a estrutura de poder que hoje mantém a universidade elitizada e afastada da população e o que representa o conselho universitário no qual são representados federações de comércio, grandes empresas, uma casca de burocratas que colocam as empresas terceirizadas que atuam dentro da universidade, e ao mesmo tempo os estudantes que tem a ampla maioria representa uma parcela mínima de representantes que não chega a 10%, no caso dos trabalhadores é pior ainda, são apenas 3 representantes e até os professores que dão aulas e pesquisas são sub representados. Por isso questionamos a existência desse conselho universitário e do reitor, que é escolhida pelo Governador de São Paulo para levar adiante os ataques a universidade, a mesma reitoria que proibiu o congresso de trabalhadores da USP de acontecer, tentando evitar que pudessem debater enquanto categoria como iriam se colocar diante desses 4 primeiros meses do governo Bolsonaro. Achamos fundamental que o movimento estudantil possa debater que projeto de universidade queremos e que questionemos essa estrutura de poder, defendendo uma estatuinte livre e soberana que discuta uma governo tripartite onde os estudantes que são a ampla maioria, trabalhadores e professores possam gerir a universidade proporcionalmente a quantidade de cada categoria, para que possamos seguir avançando em relação a qual currículo nós queremos ter, e como esse currículo vai estar a serviço de uma relação profunda com a sociedade que não é o que o Bolsonarismo e próprio PSDB entendem como uma relação não com as empresas, mas sim com a população e a classe trabalhadora, é esse tipo de universidade que nós defendemos, e é por isso que precisamos de uma forte campanha pelo fim do vestibular, em defesa das cotas étnico- raciais e pela estatização das universidade privadas”.

Outro debate polêmico do CCA foi a questão de um congresso dos estudantes da USP. Sobre isso, Mariana Duarte, estudante da letras e também militante da juventude Faísca declarou que “É absurdo que nosso DCE fale no espaço como o CCA que os estudantes não querem um congresso. Nós da faìsca viemos discutindo desde o começo a necessidade de um congresso dos estudantes da USP, já que o mesmo não ocorre desde 2015. Ocorreu um golpe no país, Lula foi preso, aconteceu uma importante greve geral contra a reforma da previdência em 2017, Marielle foi brutalmente executada. Estamos já com 4 meses de governo Bolsonaro, uma série de ataques em andamento. O movimento estudantil precisa se reamar diante destes novos tempos. Todos os estudantes com os quais conversamos entenderam a necessidade deste espaço, no qual devemos reorganizar o movimento estudantil que se encontra num refluxo. Enquanto os apologistas de Bolsonaro debatem sobre “marxismo cultural”, que as entidades estudantis são ninhos de ratos e drogas, não podemos ficar estáticos e passivos, é tempo de debater as grandes ideias e tirar novas diretrizes contra os ataques de Bolsonaro. Contudo, parece que para a atual gestão do DCE importa mais ser um freio contrário à disposição de organização dos estudantes, que desejam o debate franco e aberto de como entender e enfrentar este governo. Não há espaço mais legítimo para isso do que um congresso. Neste sentido, nós da Faísca defendemos que no segundo semestre o DCE prepare a realização do Congresso de estudantes da USP. Se levarmos em conta que a direção majoritária da UNE impôs uma política burocrática absurda de adiamento da data do CONUNE (congresso nacional da UNE) para os dias 3 a 7 de julho, no fim do semestre e início das férias em muitas universidades, quando a maioria dos dias serão úteis, logo, a ampla maioria da juventude pobre e trabalhadora que estuda nas universidades privadas ou que são excluídas até mesmo do ensino superior pago, não poderão comparecer ao CONUNE. Concretamente essa mudança de data é uma grande política de esvaziamento que tem como consequência a exclusão de milhares de jovens e estudantes do debate Congresso da UNE. O que frente aos ataques que estão sendo anunciados, como o corte de 30% das verbas de todas as universidade e institutos federais se torna ainda mais absurdo.”

Diferente do que a gestão do DCE e também setores da oposição colocam, não há oposição nenhuma entre a participação dos estudantes da USP no CONUNE, mesmo com essa política de esvaziamento, com a construção de um Congresso de estudantes da USP. Mil desculpas foram dadas, também opuseram a construção do Congresso a uma campanha em defesa das universidades públicas. Pelo contrário, são importantes espaços que complementam-se e potencializam a capacidade dos estudantes de organizarem-se para debater, tirar diretrizes e preparar um plano de luta contra os ataques de Bolsonaro.

Os capitalistas não estão dispostos nem a aceitar o atual ensino público superior que sabemos ser elitista e excludente, querem destruir o pouco que há de produção científica e qualquer forma de pensamento crítico nas universidades para facilitar seu plano de barbaridades que visam aumentar nossa opressão e exploração, como o ataques às ciências humanas e os cortes destinados à pesquisa, não aceitam a possibilidade que do movimento estudantil e das universidades possa surgir uma resistência contra os ataques. Bolsonaro e seus lacaios estão organizando-se e nos oferecem uma enxurrada de ataques, diante disso, a resposta da gestão Nossa Voz é a paralisia completa, política que Balaio, Levante e UJS tiveram a inspiração à partir das burocracias da CUT e CTB que mantêm a classe trabalhadora estática para que o controle desta sirva de moeda de troca nos acordos parlamentares.

Realizar um Congresso de estudantes da USP é ser consequente com a defesa da universidade pública, já que se trata da maior instância de deliberação dos estudantes da USP. Não se trata de um debate de simples método, até porque os métodos do movimento estudantil não estão separados da política e atuação. Num momento em que avança o Escola Sem Partido, o autoritarismo e a censura e perseguição de professores, a gestão Nossa Voz vai continuar a negar-se de construir o espaço mais democrático do movimento estudantil para o debate e confrontação de diferentes estratégias e programas. Passa da hora de sair da passividade, por isso nós da Faísca defendemos assembleias de base, reuniões de curso, a retomada de nossas C.A (Centros Acadêmicos) como espaço e ferramenta de organização.

A gestão do CAELL, C.A do maior curso da América Latina com 5.000 estudantes, dirigida pelo Balaio e Levante, mal apareceu na reunião e atualmente age como um fantasma na Letras, além de deixar de organizar o próprio curso, não dá a menor satisfação, sendo que foram eleitos para representar os estudantes. Nós da Faísca colocamos que é necessário debater como vamos nos organizar para retomar este C.A como uma ferramenta que pode cumprir um papel muito importante. Tendo isso em vista, construímos com outros estudantes uma festa para que, além da integração e diversão, se coloque a discussão de ocupar os espaços estudantis, e festas como esta demonstram um claro caráter político contra os ataques de Bolsonaro à Ciências Humanas e a proposta de Janaína Paschoal que tem como objetivo criminalizar as festas e espaços de socialização dos estudantes.

Infelizmente, os Centros Acadêmicos dirigidos pela esquerda (PSOL, PCB e VS) como o CEUPES, CAHIS e o CAPPF, vem fazendo uma oposição meramente formal a gestão Nossa Voz, secundarizando também o Congresso de Estudantes da USP enquanto já focam todas as forças na formação de chapas e eleições para o CONUNE, como se iso estivesse em oposição a fazer as exigências e críticas necessárias a gestão Nossa Voz em nome de uma suposta unidade em defesa da democracia no congresso, de mãos dadas com o PT, PCdoB, junto com Ciro Gomes, Marina Silva, etc. Enquanto o movimento estudantil continua no marasmo.

A posição da gestão Nossa Voz, e a adaptação da esquerda em relação ao Congresso de Estudantes da USP, tem o seu reflexo no fato de que já estamos a caminho do final do semestre e o DCE somente agora chamou uma assembléia geral. Motivos não faltam e muitos estudantes questionam essa paralisia. Além dos fatos nacionais que transbordam, como a reforma da previdência, declarações de Bolsonaro e do Ministro da Educação visando ataques à Filosofia e Sociologia, à professores estudantes, o pacote “anti-crime” de Moro, etc., temos também problemas locais. Diante deste questionamento, durante a reunião de Centros Acadêmicos, o DCE deixou clara sua indisposição em organizar uma assembléia, contudo foi imposto pela base dos estudantes que se chamasse uma para o dia 9 de Maio, a qual deve ser construída, convocada e divulgada, com toda a capacidade que o DCE têm, que suas centenas de diretores passem em salas de aula, panfletagens e cumpram com o que foi aprovado no CCA.

Qual política o movimento deve adotar, em qual estratégia apoiar-se, que medidas e ações pode organizar diante dos ataques, além da questão da retomada de nossas entidades e de nossos espaços, é um debate que desejamos fazer com o conjunto dos estudantes. Tanto a preparação para o CONUNE, como para o Congresso dos Estudantes da USP, precisa vincular-se a um grande debate político sem o qual o movimento estudantil deixará de cumprir um importante papel nacional na luta pelos nossos direitos. Precisamos nos preparar diante do tremendo desafio que o governo Bolsonaro nos coloca, o Congresso pode servir como espaço na luta contra a reforma da previdência, por justiça à Marielle e todos os ataques à educação, como é a CPI das universidades estaduais paulistas. Este é o chamado que nós da Faísca fazemos ao conjunto dos estudantes. Por isso, estaremos na linha de frente da construção da assembleia geral dos estudantes, aprovada no CCA para o próximo dia 9 de maio, que deve debater também como os estudantes da USP irão se organizar rumo ao 15M, frente ao chamado de uma paralisação nacional em defesa da educação pública. Convidamos a todos os estudantes que possuem acordo com essas ideias, para dar essa batalha conosco, cobrando que nossos centros acadêmicos se coloquem na linha de frente de organizar esse plano de lutas desde a base de cada curso da nossa universidade.




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