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FEDERAL DE JUÍZ DE FORA

UFJF: sobre violência e segregação

Nas últimas semanas vem sendo discutido entre os estudantes da UFJF a insegurança presente na universidade frente aos vários casos de assaltos e agressões.

terça-feira 20 de setembro| Edição do dia

A vulnerabilidade atinge sobretudo as mulheres, sendo que além dos assaltos, não são poucos os casos de tentativas de estupro dentro da universidade, inclusive situações envolvendo alunos e professores. É necessário discutirmos aqui de onde vem a violência e quais as possíveis soluções.

A violência, ao contrário do que dizem alguns, não tem como único fator a sua exterioridade, ela também já está presente nos vários casos de tentativa de estupro dentro do âmbito interno, seja por parte de alguns estudantes e até de alguns professores. Sendo que a maioria dos casos continua até hoje sem soluções efetivas da reitoria.

O discurso que começa a emergir dentro deste ambiente de tensão vem carregado de preconceitos, e acaba sendo um agente segregador entre a periferia e a Universidade. Um dos principais bairros vítima desse discurso carregado de estigmas, preconceitos e segregação é o bairro do Dom Bosco. Mas por que este bairro é tão tripudiado perante os demais?

O bairro do Dom Bosco é um dos lugares mais precarizados da região alta de Juiz de Fora. Nele se encontram a pobreza mais aguda da região. É um bairro formado em sua maioria por pessoas negras estigmatizadas, tanto pela especulação imobiliária ao redor, quanto pela comunidade acadêmica da UFJF. São considerados os outsiders Juiz-foranos. Tudo o que fazem ou o que dizem passa por uma achincalhação por parte de seus vizinhos. Desta forma, podemos inferir que a violência existe como fato, porém, o bode expiatório usado para canalizar as tensões da comunidade acadêmica está sendo vítima de uma pesada retaliação, que busca a entrega do espaço ocupado pelo bairro do Dom Bosco às mãos das grandes empreiteiras. A defesa de políticas higienistas para a universidade, como fechar cada vez mais o espaço acadêmico à comunidade, inclusive interditando caminhos alterativos que dão acesso ao campus, dá a tonalidade desta luta de classe entre os explorados e os exploradores.

Afinal, a polícia é a solução pra violência no campus?

A polícia que muitos enxergam como alternativa para segurança, na verdade está longe de oferecê-la. A PM no Brasil segue sendo a que mais mata, e é na periferia onde ela exerce o poder de braço armado do Estado e segue responsável pelo genocídio da juventude e dos trabalhadores negros..

A violência existe, mas ela não será sanada pelo dispositivo legalista e truculento da polícia militar, a violência só poderá ser combatida dialogando com aqueles que a sofrem, que é a classe marginalizada tanto pela sociedade quanto pelo Estado. O bairro que é vítima do preconceito urbano é o mesmo que fornece mão de obra barata e terceirizada para a Universidade. Os infra-serviços, do qual a classe média tem urticárias, são doados por livre e espontânea pressão às pessoas do Dom Bosco.

Como resolver a situação da violência no campus?

Não é de hoje que falamos dos problemas de iluminação dentro da UFJF. Trechos que são mal iluminados, principalmente nos escadões de vários institutos, que muitas vezes estão cobertos de mato pela falta de capina. É necessário que a reitoria resolva os problemas de iluminação e estabeleça uma capina regular pelo campus.

A segurança também segue sendo muito inferior em relação ao tamanho do campus, além de ser uma guarda patrimonial que só serve para garantir a “proteção” do patrimônio e não das pessoas, e que assim como ocorreu no bandejão da UFMG esse mês, pode ser a primeira a reprimir o movimento estudantil por uma suposta defesa dos “bens patrimoniais”. Defendemos uma segurança que não seja terceirizada e a necessidade de um treinamento em direitos humanos e atendimento às mulheres, para que essa mesma segurança não cumpra o papel de repressão dentro do campus como o que exerce a polícia (já que não são poucos os casos onde a segurança reprime os jovens de Dom Bosco dentro da universidade), também é fundamental que a segurança esteja sobre controle da comunidade.

Afim de apontar alternativas contra a violência dentro do campus, sem que se passe por políticas higienistas, que tratam a periferia como culpada da insegurança na universidade, defendemos que a universidade seja um espaço com cada vez mais “vida”. Que todo a população frequente a universidade, que tenha mais eventos culturais, cursos noturnos, RU aberto nos finais de semana, festas auto organizadas pelos estudantes e com a participação da comunidade, como os moradores do Bairro Dom Bosco.

Por fim, apenas com uma universidade mais aberta e onde todo a população tenha de fato o direito de estar estudando e frequentando estes espaços, é que poderemos falar num ambiente verdadeiramente seguro.




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