TURQUIA

Turquia leva a julgamento sete mulheres por realizarem a performance “Um estuprador no seu caminho”

Sete mulheres foram detidas em Istambul por interpretarem a icônica performance “Um estuprador em seu caminho”. Agora a promotoria do estado pede penas de até dois anos de prisão.

quinta-feira 12 de dezembro de 2019| Edição do dia

No domingo passado, dia 8 de dezembro, pelo menos 300 mulheres se concentraram na praça Kadıköy na Turquia, convocadas pelo coletivo turco “Vamos acabar com o feminicídio” para interpretar “Um estuprador em seu caminho”, a famosa coreografia criada pelo grupo chileno “Las Tesis”. No entanto, a polícia anti-disturbio turca reprimiu violentamente para dispersar as manifestantes, resultando na prisão de sete ativistas.

O motivo alegado pelas autoridades é que “o grupo cantava consignas com as expressões: são os policiais, são os juízes, o presidente, o Estado opressor é um estuprador”, que estariam cometendo o crime de “ofender o presidente e as instituições do Estado” disse o governador de Istambul. Além disso, duas ativistas presas foram torturadas.

“Num momento em que os feminicídio crescem no nosso país – disseram nesta segunda-feira a Ordem de Advogados da Turquia – condenamos a intervenção das forças de segurança contra uma manifestação pacífica. É inadmissível que uma coreografia que se converteu em um símbolo contra a violência às mulheres em todo o mundo seja reprimida usando a violência contra as mulheres”

“Não esperávamos algo desse tipo. Nossa performance foi um ato em protesto aos assassinatos de mulheres no mundo todo. A letra não se referem a nenhum presidente nem instituição específica”, declarou a BBC Turquia, Esim Yesilirmak, uma das advogadas do coletivo. “A polícia também atuou sem respeitar os procedimentos estabelecidos para dispersar manifestações. Não fizeram o chamado 3 vezes, não esperaram 15 minutos e encurralaram as manifestantes nas ruas” declarou Tuba Torum, também advogada.

O gabinete do governador de Istambul, ligado ao Ministério do Interior, confirmou em um comunicado que as ativistas serão julgadas com base no artigo 301 do Código Penal da Turquia que estabelece que a degradação pública da nação turca e suas instituições pode levar a penas de seis meses a dois anos de cadeia. Mas os coletivos de mulheres turcas já estão convocando um ato no tribunal onde as sete ativistas permanecem presas desde o domingo.

Uma das coordenadoras do grupo, a feminista Ipek Bozkurt , escreveu no twitter as ativistas detidas tiveram que declarar que não se tratava de slogans e sim de uma letra de uma música que os policiais admitiram desconhecer.

A Turquia também é um exemplo de violência contra a mulher

A Turquia atualmente vive um clima de tensão com um número enorme de casos de violência de gênero e assassinatos de mulheres por seus companheiros e ex-companheiros. Segundo relatório da ONU de 2014, uma em cada quatro mulheres na Turquia está exposta a violência sexual ou física, mas somente uma em cada 10 delas buscam ajuda. O Estado não fornece números, mas segundo vários grupos, no ano de 2018 440 mulheres morreram vítimas de feminicídio.

Lembremos também o antecedente ocorrido no 8 de março deste ano no país governado pelo presidente Recep Tayyip Erdogan, quando a polícia turca reprimiu com bombas de gás e balas de borracha uma massiva manifestação pelo Dia Internacional de Luta das Mulheres na mesma cidade de Istambul.

A União da Ordem dos Advogados da Turquia condenou hoje as detenções das ativistas e exigiram das autoridades que lutem contra “a violência de gênero e não contra as mulheres”.




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