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ORIENTE MÉDIO

Turquia lança operação terrestre na Síria

Embora o exército turco diga que está lutando contra o ISIS para legitimar a invasão, o seu verdadeiro objetivo é deter o avanço da milícia curda, a única força progressista no território.

quinta-feira 25 de agosto| Edição do dia

Em um desenvolvimento crítico da guerra civil na Síria, o exército turco e aliados iniciaram uma incursão terrestre até a cidade fronteiriça de Jarablus, Síria, na manhã de 24 de Agosto. A artilharia e aviões turcos, com o apoio de conselheiros militares, aviões de guerras e drones dos EUA, começaram a atacar alvos do ISIS, por volta das 4h00 (hora local). Isso foi seguido por uma operação por terra, às 11h00, pelas forças turcas especiais e tanques de guerra, bem como 1.500 combatentes islâmicos radicais da Síria. Estes combatentes, de acordo com a BBC turca, foram trazidos da Província de Idlib, há alguns dias, por oficiais turcos e foram agrupados no lado turco da fronteira.

Enquanto esta nota é elaborada, as forças invasoras estão avançando com uma rapidez surpreendente e estão conquistando uma vila atrás da outra, e, assim, já ocupou Jarablus, por volta das 19h00 (hora local), fazendo uma vítima. De fato, fontes curdas argumentam que esta é uma luta simulada, já que o ISIS está evacuando suas tropas da cidade de Jarablus, que se tornou um fardo após a perda de Manbij.

Embora o exército turco esteja agora prometendo "eliminar completamente" o ISIS, o objetivo real da operação é antecipar-se a um ataque da milícia curda em direção a Jarablus. Depois das vitórias recentes contra o ISIS, que culminaram na liberação da cidade de Manbij, em 12 de agosto, o YPG curdo (Unidade de Defesa Popular) e aliados controlam grande parte do norte da Síria, com exceção da faixa de terra entre Jarablus e Marea. Os Estados Unidos da América queriam que marchassem em direção à base principal do ISIS, em Raqqa, no entanto, os curdos anunciaram a criação de conselhos militares para libertar Jarablus e Al-Bab, a fim de unir suas aldeias no norte.

Turquia versus ISIS?

Apesar de toda sua retórica, o governo turco realmente não vê o ISIS como um inimigo. O ISIS tem controlado Jarablus desde julho de 2013, e até agora nunca havia ocorrido à Turquia lançar uma operação militar. Pelo contrário, a Turquia percebe o ISIS como um baluarte contra a milícia curda. Numerosos jornalistas regionais e ocidentais têm indicado que a Turquia fornece armas e materiais para o ISIS, e compra petróleo curdo do grupo para ser processado nas refinarias estatais. A Turquia também apoia outros grupos islâmicos radicais que fazem parte do chamado Exército da Conquista, que agora controla a província de Idlib e o sul de Aleppo. As forças terrestres que agora entram em Jarablus vêm destes radicais islâmicos, como a Legião do Sham e o Movimento Noureddin Zenki, que decapitaram uma criança no mês passado (gravando em vídeo). Embora eles sejam descritos como "Exército Sírio Livre" a sua existência tem sido discutida por muitos.

A Turquia quer simplesmente substituir um grupo islâmico radical, incapaz de parar as forças curdas, por outro que esteja sob seu controle direto. Não é uma operação contra os terroristas, mas simplesmente uma manobra para bloquear o avanço da força mais progressiva na Síria, a milícia curda.

De fato, o líder curdo sírio Saleh Muslim escreveu em sua conta no Twitter, "A Turquia está agora no pântano da Síria, e serão derrotados como o ISIS." Em resposta, o Chanceler turco lançou uma ameaça de que os curdos têm que abandonar Manbij e retirar-se para o leste do rio Eufrates, ou do contrário "enfrentar a nossa resposta ’esmagadora’."

União sagrada contra os curdos

Na verdade, não só a Turquia, mas as principais forças que intervêm na Síria parecem ter virado as costas para os curdos, após suas vitórias recentes.

O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, chegou à Turquia na quarta-feira e declarou que os EUA apoia a posição deste país, exigindo que as forças curdas abandonem Manbij. Até agora, aviões norte-americanos haviam apoiado a milícia curda, a única força capaz de parar o ISIS na região. No entanto, Os EUA também estão cientes de que o avanço curdo poderia afastar o seu aliado da OTAN, a Turquia. De fato, após o fracasso do golpe de 15 de Julho contra o governo turco, o Presidente Erdogan havia dado a entender que os EUA poderiam estar por trás do golpe, e que as relações entre os dois países haviam se deteriorado. Pode-se argumentar que os EUA decidiram permitir que a Turquia invadisse Jarablus antes dos curdos, a fim de evitar um pivô turco em relação ao Irã e a Rússia (e também para testar o poder dos curdos).

Mesmo antes do golpe de Estado fracassado, a Turquia havia começado a se dar bem com a Rússia e o Irã, desculpando-se pela derrubada de um avião russo em novembro de 2015. Logo após a tentativa de golpe afundar, os diplomatas iranianos chamaram Erdogan para anunciar seu total apoio, mesmo enquanto seus colegas americanos e europeus esperavam para ver que lado iria prevalecer. Os experientes diplomatas iranianos estão cientes de que as forças terrestres de Assad estão esgotadas, como pode ser visto em Hasakah ou Aleppo – e que finalmente eles têm que chegar a um acordo com a Turquia, um dos principais apoiadores de radicais islâmicos na Síria.

Irã e Turquia também compartilham uma hostilidade comum contra a crescente influência dos curdos sírios, o que poderia incentivar os seus próprios cidadãos curdos. Por outro lado, alguns jornalistas sugerem que a Rússia não quer que Assad prevaleça totalmente contra a oposição islâmica, uma vez que a continuidade de um conflito de baixa intensidade daria aos russos o pretexto perfeito para manter sua presença militar na Síria - como na região do Cáucaso. Como resultado, a Rússia e o Irã podem ter dado luz verde a uma incursão turca limitada, embora tenham declarado oficialmente as suas preocupações sobre a operação terrestre da Turquia.

Houve uma intensa diplomacia itinerante entre Turquia, Irã e Rússia nas últimas semanas, durante as quais o governo turco deu a entender que agora poderia aceitar uma transição com Assad. Isto foi seguido por ataques das forças aéreas e terrestres da Síria (que falharam amargamente) na cidade controlada pelos curdos, Hasakah – o primeiro grande ataque contra os curdos desde o início do conflito. Enquanto isso, o ISIS organizou um ataque suicida na cidade de Gaziantep, na Turquia, matando 54 pessoas em uma cerimônia de casamento curda. A Inteligência turca sabia sobre os planos para um ataque deste tipo, no entanto, não tomou nenhuma medida para evitá-lo.

O bloco nacionalista de Erdogan

A guerra contra os curdos também serve aos propósitos da política interna de Erdogan. Apesar da extensa purga no aparelho de Estado, após a tentativa de golpe, Erdogan disse que ele ainda não tem plena confiança em alguns setores do Estado Maior e do Serviço Nacional de Inteligência.

Precisamente por este motivo, Erdogan escolheu, para melhorar as suas relações com a oposição burguesa (centro-esquerda CHP e ultranacionalista MHP), criar um bloco nacionalista que culminou em uma demonstração que foi assistida por um milhão de pessoas em Istambul. Muitos membros do parlamento da oposição, longe de criticar o estado de emergência declarado por Erdogan, empregam seus argumentos para acusar os golpistas de todos os problemas na Turquia.

Como tal, uma manobra militar em direção às províncias curdas da Síria também é uma ótima maneira para Erdogan reforçar esse bloco nacionalista no país, e pavimentar o caminho para a transição constitucional de um sistema presidencial autoritário. Como era de se esperar, os líderes do CHP e MHP expressaram seu total apoio à invasão militar.

No entanto, uma participação militar direta na guerra civil síria traz grandes riscos, embora a Turquia pense que pode facilmente conseguir isso à sua maneira. Já existe uma forte presença de grupos radicais islâmicos no lado turco da fronteira. A invasão do Curdistão sírio impulsionará ainda mais a ira dos curdos da Turquia em direção ao Estado. Como tal, o caminho parece estar aberto para uma escalada da tensão entre grupos étnicos e também dos conflitos dentro da Turquia.




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