Internacional

Eleições EUA

Trump não se compromete com uma "transferência pacífica" do poder se perder as eleições

A afirmação do presidente parece ter ido longe demais e causado um "motim" entre os senadores republicanos que se apressaram em nega-la. A disputa pela presidência esquenta na reta final e coincide com a eleição da sucessora da ministra Ruth Bader Ginsburg, do Corte Suprema.

Juan Andrés Gallardo

Buenos Aires | @juanagallardo1

sexta-feira 25 de setembro| Edição do dia

Não é a primeira vez que Trump flerta com a ideia de não reconhecer os resultados das eleições. Ele já havia feito uma declaração menos explosiva durante um comício de campanha, após sugerir uma possível fraude em uma votação via correio. Desta vez, foi além do “equilíbrio de forças” do que os próprios republicanos parecem estar dispostos a suportar, além de ocorrer em meio ao debate sobre a composição do Corte Suprema (equivalente ao Supremo Tribunal Federal no Brasil), que pode acabar decidindo a eleição.

Em uma coletiva de imprensa na quarta-feira, Trump disse: "Veremos o que acontece", quando questionado se ele estava se comprometendo com uma "transferência pacífica" do poder. "Você sabe que tenho reclamado muito alto sobre as cédulas e elas são um desastre." Referia-se ao voto pelo correio, que já havia anunciado que poderia ser fraudulenta, apesar de sua administração ser a que tem subfinanciado e fechado centros postais em todo o país, o que gerou um caos na entrega de correspondência através do correio estatal.

As afirmações de Trump desta vez cruzaram a linha imaginária daquilo que os próprios parlamentares parecem dispostos a tolerar. Em geral, e na ausência de uma figura alternativa dentro do partido, os parlamentares têm apoiado Trump, embora em alguns casos isso significasse a possibilidade de perder suas cadeiras nos estados que representam. No entanto, desta vez a crítica não tardou.

Vários senadores republicanos se distanciaram dos comentários de Trump, começando com o líder da maioria Mitch McConnell. Em um tweet, ele escreveu: "O vencedor da eleição de 3 de novembro tomará posse como presidente em 20 de janeiro. Haverá uma transição ordeira, como tem ocorrido a cada quatro anos desde 1792."

Marco Rubio, senador republicano pela Flórida, também aproveitou o Twitter para deixar claro que tem certeza de que as eleições serão "legítimas e justas", e que embora "demore mais tempo para saber o resultado, será válido" e aquele quem for eleito "fará um juramento pacífico diante do cargo" em 20 de janeiro.
A senadora Lindsey Graham, uma das mais próximas de Trump, disse em entrevista à Fox News: “Posso ter uma posição sobre quem deveria ser eleito, mas o Tribunal (Supremo) Eleitoral decidirá, e caso nós, Republicanos, perdermos, vamos aceitar este resultado. "

A declaração de Graham lança alguma luz sobre a diferença entre um movimento pensado diante de um possível resultado negativo e as bravatas de Trump. E a chave para esse truque está na eleição da sucessora da ministra Ruth Bader Ginsburg para definir a nova composição da Suprema Corte.

Nisso Graham é clara. Ela diz que não tem problema em aceitar a decisão da Supremo Corte, que é quem define o vencedor das eleições presidenciais em caso de quaisquer irregularidades. A recente morte da juíza Ginsburg acaba de deixar à maioria republicana do Senado (que é quem vota os membros da Corte), a possibilidade de ter uma maioria conservadora nessa instância, o que não só lhes permite avançar em suas “conquistas” , mas também tem a possibilidade de coroar Trump de forma "legal", em caso de fechamento apertado, como aconteceu em 2000, quando Bush Jr. foi definido como vencedor perante o democrata Al Gore, que conquistou a maioria do voto popular.

Após a reação dos senadores republicanos, Trump qualificou suas declarações na quinta-feira e, em linha com o conselho de Graham, disse que "concordaria" com uma potencial decisão da Suprema Corte que não o certificaria como vencedor, mas disse que "ainda resta muito até então ”, visto que ainda não está claro que o processo eleitoral para a vaga na Corte seja rápida e livre de questionamentos.
Os democratas, por sua vez, não perderam a oportunidade de reposicionar o conservador Biden como o mal menor em face de um segundo mandato de Trump.
As declarações de Trump, que obscurecem ainda mais o cenário político americano, ocorrem em meio a manifestações históricas contra o racismo institucional, pelo qual tanto republicanos quanto democratas são responsáveis, e o incentivo do presidente aos movimentos supremacistas de extrema-direita, preso ao discurso da "lei e ordem".

Como apontamos em um artigo recente: “A estratégia eleitoral de Trump é se apresentar como alternativa ao ’caos’ e tentar evitar que a eleição de 3 de novembro se transforme em um referendo de seus últimos meses de sua presidência, dominados pela devastação do coronavírus, a recessão econômica e as mobilizações contra o racismo e a violência policial (...) Se Trump perder por uma margem menor do que a prevista nas pesquisas, não se pode descartar que não aceitará reconhecer o resultado. Sobre a fraude e a tentativa de impedir o voto via correio alimentam esse cenário hipotético, que poria em causa a legitimidade do próximo governo - nada menos que na principal potência imperialista - e, se vencer, um segundo mandato de Trump teria potencial para aprofundar as tendências à radicalização política ".




Tópicos relacionados

Imperialismo   /    Donald Trump   /    Eleições Estados Unidos   /    Internacional

Comentários

Comentar