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ESTADOS UNIDOS CHINA

Trump aplica tarifas de US$60 bilhões à China: rumo a uma guerra comercial global?

André Augusto

Natal | @AcierAndy

sexta-feira 23 de março| Edição do dia

Ilustração: Ingram Pinn

Depois de 14 meses na presidência dos Estados Unidos, Donald Trump – que havia causado tumulto internacional com a proposta de tributação de 25% sobre a importação de aço e 10% de alumínio – está entregando sua promessa de medidas severas contra as “práticas comerciais injustas” da China. A Casa Branca anunciou que estabelecerá novas tarifas à importação de produtos chineses no valor de US$60 bilhões, em função do roubo à propriedade intelectual do país.

Trata-se de uma medida inédita em décadas nas relações sino-estadunidenses, e coloca em rota de colisão comercial as duas maiores economias do mundo. O receio de uma guerra comercial entre a maior potência imperialista e o gigante asiático, que envolveria todo o mundo pelo peso das economias, já está sobre a mesa: a China anunciou que oferecerá retaliações sobre 128 produtos norte-americanos, como a soja, automóveis e maquinário industrial.

Pretendemos impor tarifas sobre determinadas importações dos EUA para equilibrar as perdas causadas aos interesses chineses pelas tarifas norte-americanas sobre aço e alumínio importados”, diz o comunicado do governo de Pequim.

As tarifas bilionárias aos produtos chineses fizeram as bolsas de Nova York despencarem nesta quinta-feira (22), junto com as Bolsas asiáticas. O Dow Jones, índice das ações mais negociadas de Nova York, fechou com queda de 2,93%. O S&P 500 caiu 2,52%, a maior queda desde 8 de fevereiro, e o Nasdaq, 2,43%. O anúncio contaminou também a Europa, com a Bolsa de Londres fechando em baixa de 1,23%, a de Frankfurt caindo 1,7% e Paris recuando 1,38%.

Poucas horas depois do anúncio das tributações sobre a China, Trump anunciou a demissão do atual secretario de segurança nacional, o general HR McMaster, e sua substituição pelo “falcão” John Bolton, defensor agressivo do nacionalismo econômico, da destruição do acordo com o Irã e do “bombardeio preventivo” da Coréia do Norte. Além de McMaster, Trump já havia demitido Rex Tillerson do cargo de secretário de estado (substituído pelo “falcão” Mike Pompeo, islamófobo ex-chefe da CIA), e a rara avis Democrata na Casa Branca, o globalista Gary Cohn, como chefe do Conselho de Economia Nacional. A ala moderada defensora da “Pax Americana” vai empalidecendo num gabinete mais beligerante ao estilo “America First”.

A retirada de um general moderador difere das demais demissões, pois fragiliza a relação com o Pentágono e causa fricções com o secretário de Defesa, o general James Mattis. Além de McMaster, já há indícios de que Trump removerá o general John Kelly do cargo de chefe de gabinete.

A modificação do gabinete presidencial, agora preenchido com figuras do nacionalismo protecionista contrários aos “jogos da diplomacia”, se encaixa com a nova fase beligerante de Trump contra parceiros tradicionais da aliança atlântica, e especialmente com a China.

Nacionalismo econômico com objetivos estratégicos de contenção

As medidas comerciais punitivas de Trump não devem ser confundidas com uma rajada de balas sem destino sobre Pequim. Os três principais produtos que os Estados Unidos importa da China (telefones celulares e utensílios domésticos, computadores e equipamentos de telecomunicação) não são o alvo principal (de fato, o governo já isentou a importação dos iPhones produzidos). Isso porque boa parte das importações norte-americanas oriundas da China é de empresas nacionais que exploram maõ-de-obra chinesa.

Uma leitura cuidadosa do documento que anuncia a taxação no valor de US$60 bilhões mostra que Washington quer atingir um dos pilares estratégicos do projeto nacional de Xi Jinping, o presidente-imperador chinês: o “Made in China 2025”.

Segundo o projeto, a China deveria alcançar o posto de competidora ou dominadora em ramos industriais de alta tecnologia na metade da próxima década, alterando o padrão econômico de plataforma de exportação de produtos com baixo valor agregado para competidora dos grandes nichos de investimento de capital e exportação de produtos com alto valor agregado.

Os 10 setores identificados como alvos das novas tributações bilionárias são: produtos de avançados de tecnologia da informação; ferramentas automotizadas e robótica; equipamento aeroespacial e aeronáutico; equipamentos para trilhos modernos; veículos elétricos e de “novas energias”; equipamento para geração de energia; equipamentos agrícolas; semicondutores; produtos médicos e biofarmacêuticos.

O projeto “Made in China 2025” está ao lado da “Nova Rota da Seda” (Belt and Road Initiative, que busca conquistar aliados econômicos e diplomáticos ligando 64 países da Ásia, África e Europa por meio de projetos de infraestrutura) como as joias da coroa da planificação do PC Chinês sob comando de Xi Jinping, para acelerar o desenvolvimento econômico e militar chineses.

Para dificultar o acesso da China aos segredos tecnológicos estadunidenses, Trump deu ordem ao Tesouro norte-americano de identificar em 60 dias como criar um regime que limite investimentos chineses em setores estratégicos da economia. A exigência para a entrada de investimentos chineses nestes setores será a mesma abertura de Pequim para a entrada de capital estadunidense em seus setores estratégicos.

Choque de grandes empresas com a política de Trump

A tarifação proposta, em toda a sua magnitude histórica, não está isenta de contradições, mesmo com um gabinete de falcões.

Diversos grandes monopólios se manifestaram contrários à proposta de novos tributos à China, ainda que compartilhem o objetivo de frear a “competição injusta” e o alegado “roubo da propriedade intelectual”. Exportadores que tem peso de direção na economia estadunidense, como a Boeing e a Caterpillar, seriam pesadamente impactadas por medidas retaliatórias de Pequim. As ações da Boeing, ao tempo do anúncio, caíram 5.2%, e as da Caterpillar perderam 5.7% de seu valor. Arconic, empresa que fabrica componentes aeroespaciais para exportação, viu suas ações despencarem 6.1%.

O Conselho da Indústria de Tecnologia da Informação (ITIC) se opôs à proposta de Trump, advertindo que a taxação contra a China “seria um ataque contra as condições dos trabalhadores, das empresas e do crescimento econômico norte-americanos”. Liderando um grupo de 46 empresas dos ramos industrial e comercial, ameaçaram a abertura de uma “reação em cadeia negativa para o futuro dos Estados Unidos”.

Estes setores monopólicos norte-americanos se preocupam pela redução das taxas de lucro em base à redução de exportação de produtos à China, mas também ao encarecimento das importações daquilo que produzem em território chinês. Em 2017, a Boeing iniciou a construção de sua primeira planta na China, para a produção de 100 aviões Boeing 737 na província de Zhoushan.

Além da desaprovação dos monopólios internos, outra enorme dificuldade para Trump é o volume comercial sino-estadunidense, que em 2017 atingiu o recorde de US$635 bilhões. Uma retaliação da China significaria degradar as exportações de produtos agrícolas como a soja (que perde espaço para a soja brasileira) e outros produtos que contabilizam US$130 bilhões em vendas.

Guerras comerciais contra o novo competidor estratégico do Oriente

Uma eventual guerra comercial entre Estados Unidos e China envolveria o mundo inteiro, significando um terremoto nas capitais financeiras globais. Nada está assegurado neste desencadeamento proposto, uma vez que poderosos fatores econômicos de poder divergem da opção de Trump. Entretanto, é evidente que a administração em 2018 está muito mais próxima do nacionalismo agressivo da campanha eleitoral de Trump, do que esteve em 2017.

As transformações no governo atendem a uma linha de promoção agressiva dos interesses nacionais dos Estados Unidos, relegando a diplomacia com países como Irã e Coréia do Norte a segundo plano. Mas o centro da disputa estratégica é a necessidade de contenção da China. Ainda que todas as ameaças de tarifações e retaliações comerciais sejam desativadas, o estrago está feito e envenena a atmosfera das grandes potências.

É possível que as fissuras entre Oriente e Ocidente comecem a se reabrir com investidas diretas dos EUA em seu “pivô para a Ásia”. Guerras comerciais prenunciam a ruptura do equilíbrio dinâmico do capitalismo em outras áreas, tanto conflagrações mais graves na arena militar (ainda que não estejam no horizonte próximo), quanto na arena da luta de classes internacional, no décimo ano da crise mundial. De todo modo, os Estados Unidos de Trump começam a traduzir literalmente a máxima do ultimo documento de Defesa Nacional e a afirmação da China como “competidor estratégico”.




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