Teoria

Trotsky e uma política para derrotar o fascismo

No meio do fervor reacionário e xenofóbico no Brasil por causa da votação entre o candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro e o candidato do PT Fernando Haddad, revisamos aqui os escritos de Trotsky, o revolucionário russo que propõe a única maneira de enfrentar a direita, com o melhor método: o da luta de classes.

quarta-feira 31 de outubro| Edição do dia

Muitos falam de Bolsonaro como um "fascista". A verdade é que o fascismo como tal é muito pior que isso. O nazismo na Alemanha, às portas da Segunda Guerra Mundial, é o arquétipo desse fenômeno aberrante e desprezível. Aqui nós revisamos brevemente os escritos de Leon Trotsky reunidos no volume "A Luta Contra o Fascismo na Alemanha". O líder da Revolução Russa de 1917 junto com Lenin, além de fundador do Exército Vermelho, nos deixou escritou não só análises, mas proposições uma linha política de combate, através da luta de classes, para derrotar o fascismo que estão reunidos no volue de Obras Escolhidas citado acima editado pelo CEIP (Centro de Estudos e Investigações de Publicações Leon Trostky) pela Casa Museu "Leon Trotsky’.

O que é fascismo?

Os textos que compõem este volume incluem inúmeras lições de tática e estratégia, bem como vários conceitos teóricos e lições programáticas de um novo fenômeno da época: o fascismo.

Mas o que é fascismo ou melhor, o que era o nacional-socialismo alemão? Vamos ver: "a chegada ao poder dos nazistas significa acima de tudo, o extermínio da flor de nata do proletariado alemão, a destruição de suas organizações [...] o trabalho infernal do fascismo italiano parecerá provavelmente como um experimento pálido e quase humanitário em comparação com o trabalho do nacional-socialismo alemão"(p. 89), advertiu o revolucionário russo um ano e meio antes da tomada de poder por Hitler em 1933.

O capitalismo imperialista alemão havia chegado tarde no cenário internacional, porque o mundo já havia sido distribuído em colônias e mercados nas mãos de outras potências imperialistas da Europa. Assim, uma corrida desenfreada para superar este atraso somado com a derrota militar sofrida na Primeira Guerra Mundial, foi um impulso sem precedentes do capitalismo alemão para se tornar o mais próspero de todo o continente europeu. Esse dinamismo econômico e seu confronto com as consequências da derrota alemã na guerra, expressa no Tratado de Versalhes (que impôs o pagamento de reparações de guerra que vinculados capitalismo alemão), foi o que causou convulsões violentas no entre guerras na Alemanha.

"O capitalismo russo [no início do século XX, N. da R.] acabou por ser o elo fraco da cadeia imperialista, devido ao atraso extremo. O capitalismo alemão aparece na situação atual como o elo mais fraco pela razão oposta: é o capitalismo mais avançado de uma Europa que está em uma situação sem saída "(p.106).

O crescente domínio dos EUA na economia mundial contrasta com o declínio da Europa. A pauperização da pequena burguesia, a degeneração de setores da classe operária em lunpenproletário será o terreno fértil para as crescentes forças do fascismo alemão. A Social-democracia alemã levou o proletariado, o mais numeroso e organizado, ao extermínio da Primeira Guerra Mundial. Além disso continuou sua missão não numa administração reformista dos planos capitalistas que buscaria reformas que beneficiassem o proletariado, mas sim entregando abertamente as antigas conquistas históricas do proletariado. No entanto, mesmo com tal situação, as forças do capitalismo alemão foram insuficientes para remover o seu “colete salva-vidas” (a social-democracia) que faz a contenção de suas necessidades de expansão.

"É assim que a missão histórica do fascismo começa. Ele mobiliza os estratos sociais imediatamente acima do proletariado que tem medo de ser jogado em suas fileiras; a organiza e as militarizada com recursos do capital financeiro, sob a cobertura oficial do Estado organizado, orientado-as para a destruição das organizações operárias [...] O fascismo não é apenas um sistema de repressão, violência e terror policial. O fascismo é um sistema estatal particular baseado na extirpação de todos os elementos da democracia proletária na sociedade burguesa. A tarefa do fascismo não é apenas destruir a vanguarda comunista, mas também manter toda a classe em uma situação de atomização forçada "(p.108).

A traição do Partido Comunista Alemão (KPD) e da Terceira Internacional (ou Internacional Comunista), que se recusou à frente única dos trabalhadores, dará origem ao sucesso do fascismo; e a consequência não será, é claro, o desempenho das ilusões pequeno-burguesas, mas a concentração de poder em uma enorme força reacionária para a realização do programa dos monopólios imperialistas, ou seja, o caminho para uma nova guerra, que só poderia ser evitada se impôs a revolução socialista.

Frente Única Operária: Como quebrar as cabeças dos nazistas?

Talvez seja assim que se resuma a política delineada por Trotsky para o Partido Comunista Alemão levar uma luta séria (inclusive uma luta física) até o fim contra a ascensão de Hitler e os nazistas ao poder.

Embora o partido nazista tenha sua origem no início da década de 1920, será apenas a partir de 1929 que crescerá, com o impacto da crise global levou milhões de pessoas à miséria da noite para o dia. A hiperinflação agia como um ácido corrosivo sobre as economias da pequena burguesia, isso para não mencionar os magros salários dos trabalhadores e camponeses pobres. Naquele fermento, o desespero das classes médias, o partido nazista se fortaleceu e Hitler era cada vez mais visto como um salvador, com seus desejos imperialistas e xenófobos.

Nesta situação, Leon Trotsky levantava uma linha política que já tinha sido formulada nos quatro primeiros congressos da Internacional Comunista, liderado por ele e Lenin, a "Frente Única Operária". Política que só conhecia um método, o da luta de classes.

Vejamos como ele colocou a questão: "O Partido Comunista deve pedir a defesa das posições materiais e morais que a classe trabalhadora conseguiu conquistar no Estado alemão. Refiro-me diretamente ao destino das organizações políticas dos trabalhadores, sindicatos, jornais, impressas, clubes, bibliotecas, etc. Os trabalhadores comunistas devem dizer aos seus camaradas social-democratas: “As políticas de nossos partidos são irreconciliavelmente opostas; mas se os fascistas vierem hoje à noite para destruir as instalações de sua organização, viremos correndo, com as armas na mão, para ajudá-los. Vocês prometem que, se a nossa organização estiver ameaçada, correrão para nos ajudar? Essa é a quintessência da política do período atual. Temos que afinar assim toda a nossa agitação "(p 45).

No entanto, a capitulação covarde do stalinismo na Alemanha foi responsável por inventar uma "teoria" para cobrir sua política e entregar as posições conquistadas sem lutar. Essa falsa teoria dizia que a social-democracia alemã se tornara "social-fascista", colocando um sinal de igualdade entre o reformismo e o fascismo. Trotsky explica a linha stalinista: "Eles reduzem todo o problema para saber se é melhor morrer de fome com Brüning ou Hitler. Nós não apresentamos o problema de como e em que condições é melhor morrer, mas como lutar e ganhar [...] é necessário lançar-se ao combate geral antes da ditadura burocrática Brüning ser substituída pelo regime fascista, ou seja, antes que as organizações operárias sejam esmagadas!" (pp. 123-124).

Longe disso, a social-democracia era o partido majoritário entre o proletariado industrial alemão e um dos mais importantes da Europa, já que desde a segunda metade do século XIX, Marx e Engels vinham através dele educando gerações de trabalhadores com ideias socialistas. Portanto, a luta proposta Trotsky pela frente única dos trabalhadores era para que, através de sua própria experiência, as massas trabalhadoras percebessem que, por um lado, seu partido tradicional não excederia os limites da democracia capitalista, que afogava a classe trabalhadora através da crise econômica, e que, por outro lado, ele não não seria uma direção séria para fazer um enfrentamento a altura do ascenso do fascismo.

Mas lutar juntos contra o fascismo significa subordinar-se politicamente aos reformistas? Trotsky responde claramente a essa pergunta: "Nenhuma plataforma comum com a social-democracia ou os líderes dos sindicatos alemães, nenhuma publicação, nenhuma bandeira, nenhum sinal comum! Marchar separados, golpear juntos! Por se de acordos apenas em como golpear, em quem golpear e quando golpear! Pode-se ainda fazer acordos com o próprio diabo, com sua avó e até mesmo Noske e Grzesinsky, com a única condição de não atar-se as mãos". Mais tarde ele ainda acrescenta que "cada fábrica deve ser transformada em uma fortaleza antifascista com seu próprio comando e seus destacamentos de combate. É necessário ter um mapa dos quartéis e todos os outros redutos fascistas em cada cidade, em cada distrito. Os fascistas tentarão sitiar os bastiões revolucionários. O sitiante deve ser sitiado". (p.102) Como vemos, a política de Trotsky estava muito longe do pacifismo charlatão imposto pela liderança do Partido Comunista Alemão, liderado diretamente por Stalin da URSS.

No entanto, o Partido Comunista Alemão queria evitar o combate e Trotsky argumentou que "desde setembro de 1930, ou seja, um ano e três meses atrás, levantei que devia ter sido proposto um programa prático de acordos com os trabalhadores social-democratas, o que foi feito a esse respeito? Quase nada. O CC do KPD cuidava de tudo, exceto o que constituía sua tarefa central" (p.103).

Mesmo assim, Trotsky, por meio de cartas e artigos, tinha a esperança de enfrentar e vencer o fascismo e afirmou que a vitória tinha que ser desejada. Essa esperança não era "romântica", mas foi baseada na experiência da Revolução Russa de 1917, quando, pela frente única dos trabalhadores, se impediu Kornilov de esmagar os sovietes, e após a vitória sobre o inimigo reacionário comum, a locomotiva da revolução se pôs em movimento destinada à tomada do poder em outubro e depois a vitória foi definitiva.

O tempo passou e a previsão de Trotsky estava lentamente se cumprindo. Lá ele disse: "Trabalhadores comunistas: vocês são centenas de milhares, milhões, que não têm para onde ir, não haverá passaportes suficientes para vocês. Se o fascismo chegar ao poder, ele passará como um tanque temível sobre seus crânios e espinhos. Sua salvação está em uma luta sem quartel. Somente uma luta unitária com os trabalhadores social-democratas pode alcançar a vitória. Depressa, trabalhadores comunistas, porque há pouco tempo de sobra para vocês!"(P.105).

Em 1933, a ascensão ao poder de Hitler, sem luta ou resistência por parte das massas foi um fato. Lentamente a máquina de guerra foi posta em movimento para a carnificina humana conhecida como Segunda Guerra Mundial.

Em termos de política para com os comunistas, a lição que Trotsky extrai da Alemanha não deixa dúvidas quanto à incapacidade da Internacional Comunista como uma liderança capaz de lutar contra os agentes do capital financeiro, sejam eles fascistas ou "democráticos". Não havia mais o que fazer dentro da Terceira Internacional fundada por ele por Lenin e um punhado de revolucionários que naquela época já estavam ou no exílio pelo mundo, em um planeta sem serem vistos, ou mortos em campos de concentração Stalinistas

Diante de tal traição na Alemanha, Trotsky e seus camaradas começaram a trabalhar para a construção de uma nova internacional revolucionária, a Quarta Internacional.

Hoje, no século XXI, quando a situação mundial é atravessada hoje por muitas contradições, disputas comerciais, o crescimento dos nacionalismos direita e xenofobia de um lado, e pelo neo-reformismo do outro, os escritos reunidos no volume tratado aqui são de leitura indispensável para a formação e reflexão sobre os problemas de candentes que os trabalhadores enfrentarão. Eles ainda não manifestaram suas dimensões como quando os textos deste livro foram escritos, mas suas reflexões e lições programáticas são uma herança indispensáveis para os revolucionários se prepararem para situações de grandes convulsões políticas, que vai explodir mais cedo ou mais tarde cedo diante dos nossos olhos.

É reivindicando a tradição e o legado deixado pelo revolucionário russo Leon Trotsky, que nós do MRT e da Fração Trotskysta - Quarta Internacional, buscamos construir um partido revolucionário que seja uma força material a altura da tarefa histórica de enfrentar o capitalismo e todos os seus lacaios desprezíveis, como o reacionário e recém eleito presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.

“A vida é bela. Que as gerações futuras a limpem de todo o mal, de toda a opressão, de toda a violência, e possam gozá-la plenamente”

Texto original: http://www.laizquierdadiario.com/Trotsky-y-una-politica-para-vencer-al-fascismo
Ilustração: Angela Irene
Tradução: Gabriel Soares




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