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Trótski e o “homem novo”

Gilson Dantas

Trótski e o “homem novo”

Gilson Dantas

Muito já se discutiu sobre o “homem novo”, pelo qual os revolucionários lutamos. São conhecidas as formulações de Che a respeito [1]. E é igualmente comum que quando os socialistas se organizam na luta por uma nova sociedade, entendam, quase intuitivamente, que estamos lutando por um “homem novo”. E que às gerações revolucionárias atuais se sucederão, no socialismo e no comunismo, futuras gerações revolucionárias.

Com a imprescindível ajuda de Trótski – e como parte das homenagens do Esquerda Diário nos 80 anos do seu assassinato por Stálin – problematizemos um pouco essas questões que são parte da luta pelo comunismo.

O revolucionário do nosso tempo tem, sim, uma psicologia própria, em sintonia com seu tempo histórico e também socialmente determinada. Mas nem a psicologia nem a classe social são elementos abstratos. São historicamente concretos.

O revolucionário sincero, ao se fundir à causa da revolução contemporânea, de natureza proletária, vai construir um movimento, revolucionário, o qual, ao mesmo tempo o constrói, naquela dialética do educador sendo educado [2].

Ele vai encarnar e encarar o desafio de sua autoconstrução como militante social, revolucionário, em um processo que será atravessado pela luta de classes, pela construção da sua própria têmpera e consciência revolucionárias.

Sendo fiel a Trótski, irá adotar um norte estratégico para cada movimento prático, tático. A teoria que guia a ação revolucionária é estratégica [aponta e luta, em cada tática, por um governo dos trabalhadores contra o capitalismo].

Esse ativista sincero e consciente do marxismo revolucionário será um comunista pelos seus objetivos, um revolucionário por suas tarefas práticas atuais. Tudo isso é um tanto auto evidente. Mas em que medida – é o nosso tema aqui – ele pode ser entendido como um exemplo do “homem novo”? Em que medida os revolucionários comunistas são expressão ou espécimes do “homem novo”, comunista?

Não são e rigorosamente não podem ser. E por uma razão historicamente bem concreta: estamos lutando pelas condições nas quais, uma vez instaladas e concretizadas, em escala global, aí sim, tende a se desenvolver outra psicologia, outro tipo de homem, agora mais próximo do gênero humano como tal [sem as peias da era da propriedade privada e sua cultura hegemônica].

Não é possível pular etapas históricas. Não é possível confundir psicologias, a do revolucionário que luta, com o uso da força, contra os poderes materiais e políticos da opressão capitalista, e o “homem novo”, do futuro, que já não terá necessidade de ser revolucionário, e nem será revolucionário. Não no sentido estrito e historicamente determinado ao qual nos referimos.

A classe social à qual se prende o revolucionário do nosso tempo vive escravizada, seu trabalho é forçado, oprimida e explorada cotidianamente nas fábricas por uma classe patronal que não vai renunciar pacificamente ao seu papel – nem ao seu Estado – de opressão e violência de classe. Não cessará a guerra de classe se não foi varrida pelas lutas do proletariado. E se este não controla, nesse mesmo movimento, a produção.

Por aqui já se define um elemento incontornável da psicologia do revolucionário proletário. Ele se põe de pé para eliminar, à força, o obstáculo da classe burguesa, dona dos meios de produção. Neste sentido, muito claramente, não há “homem novo” algum: vai recorrer aos velhos métodos da luta de classes – a violência – para acabar com as classes em geral. E também neste sentido não se pode imaginar a psicologia do futuro “homem novo” com base nesse traço ou matriz psicológica.

A geração revolucionária assenta as bases históricas para aquela psicologia, mas não a encarna.

É neste sentido que não se pode pensar no revolucionário como o homem comunista, nascido e forjado em uma sociedade sem classes e sem qualquer necessidade da violência de classe. Ele não tem que revolucionar a sociedade. É neste sentido estrito que o revolucionário – o mais revolucionário dos revolucionários – do nosso tempo não encarna, ainda, o “homem novo”. Não pode. Estamos lutando para criar as condições para a emergência do homem comunista. Do futuro espécime de uma sociedade onde o obstáculo social ao progresso não mais existirá.

O revolucionário trabalha nessa direção. Recorre à guerra de classe para abolir as condições materiais, históricas, que engendram, a partir do local de trabalho, da posse dos meios de produção, a violência entre os homens.

Sua segurança não vem de qualquer visão supra-histórica e nem muito menos mística ou transcendental, de qualquer natureza. Ela é histórica, materialista histórica.

Isto é, deriva de uma ampla visão da história que entende que viemos do reino animal, de um tempo ancestral, antes do primeiro hominídeo, quando cada espécie lutava por espaço vital, e competia uma contra a outra, até que através do surgimento de um ancestral com que se autoconstrói pelo trabalho, pela cooperação, e que, ao desenvolver forças produtivas ainda primitivas, em ritmo aquém das necessidades, deu passagem à estratificação social, à propriedade privada, à luta de classes, ao desenvolvimento da civilização da opressão e da exploração. E, dessa forma, à história movida pela luta de classes. Até que, desenvolvidos os meios para a abundância, o proletariado organizado suprime a classe dominante para instaurar o reino da liberdade. E da comuna, da psicologia da cooperação, da relação comunista finalmente.

A classe trabalhadora se lança na guerra de classe para construir outra sociedade, sem exploração. Controlada pelos produtores associados, na linguagem de Marx.
O “homem novo” concebido por Che é uma utopia no seu tempo. Primeiro porque ainda estamos, e Cuba estava, na velha sociedade, em transição, com os pés nas relações antigas, na velha psicologia. E, segundo, porque Che imaginava a possibilidade da transição – e criação do homem novo – sem sovietes, sem o controle da economia e da vida pela massa trabalhadora e camponesa. Desse ponto de vista, errava duplamente.

Em Trótski, o objetivo da classe trabalhadora, paras ser criativo, deve ser destrutivo. Só pode ser criativa, como classe, destruindo a velha ordem, toda ela e tornando-se o protagonista do processo de transição.

É nesses termos que a discussão do “homem novo”, em Trótski, perde seu caráter abstrato. A classe trabalhadora se desprende desta sociedade, emerge dela com todas as suas contradições, para a tarefa revolucionária. E através dela. E guiada pela moral das relações revolucionárias.

Empoderada como gestor da sociedade sem burguesia, revoluciona tudo, da economia à cultura, pela via da política, e cria as condições para que brote, no futuro, aí sim, o “novo homem”. Já aí, sem o Estado, sem a política. E que ali, no futuro, criadas as novas condições, não tem que revolucionar, destruir, mas apenas desenvolver a vida e a cultura de uma sociedade finalmente consciente de si. Reencontrada com sua humanidade.

No fino argumento de Trótski:

A noção de “revolucionário” está imbuída do mais alto ideal e da moral mais elevada que tenhamos podido herdar de toda a época anterior de evolução cultural. Portanto, pode parecer que caluniamos a nossa posteridade quando não a vemos revolucionária. Mas não devemos esquecer que o revolucionário é produto de condições históricas determinadas, um produto da sociedade de classes.

O revolucionário não é uma abstração psicológica. A revolução em si não é um princípio abstrato mas um fato histórico material e seu nascimento brota dos antagonismos de classe, da dominação violenta de uma classe sobre outra. Dessa forma, o revolucionário é um tipo histórico concreto, e em consequência, temporal. Estamos orgulhosos de pertencer a este tipo de homens.

Mas com nosso trabalho, criamos as condições de uma ordem social onde não haverá então antagonismos de classe, nem revoluções e, portanto, não haverá revolucionários.

É verdade que podemos ampliar o sentido da palavra “revolucionário” até englobar toda a atividade consciente do homem tensionado entre a dominação da natureza e a extensão das conquistas técnicas e culturais. Mas nada nos autoriza a operar semelhante abstração, semelhante ampliação sem limites da concepção do “revolucionário”, já que não cumprimos para nada com nossa tarefa histórica revolucionária concreta: o derrocamento da sociedade de classes.

Consequentemente, estamos longe da tarefa de educação do harmonioso cidadão da comuna, e que consiste em formá-lo através de um cuidadoso trabalho de laboratório no curso de um estado transitório da sociedade muito pouco harmoniosa. Tal empresa seria uma utopia de uma infantilidade lamentável. O que queremos fazer são lutadores, revolucionários, que herdarão e completarão nossas tradições históricas que ainda não levamos até o fim [TRÓTSKI, 1922, p 120]. [3]

E será esse homem novo que irá das profundezas do cosmos, dos mares até a mais profunda reconstrução da alma, da psique, agora sem travas nem introjeções psíquicas opressivas/depressivas.

Ou, como argumenta Trótski:

Nossos pulmões revolucionários aspiram os ares elevados que o desenvolvimento anterior do pensamento humano desenvolveu. Por isso, nós estamos profundamente convencidos de que o futuro é nosso [TRÓTSKI, 1922,p.124].

Ainda estamos forjando homens e mulheres para o combate. Para a guerra de classes, para as escolas de guerra, para abater a iniquidade de classe, as forças materiais da burguesia. Não estamos educando, ainda o homem comunista, não estão criadas as condições para isso, a nossa tarefa é, precisamente, criá-las.

Nossa tarefa atual, desgraçadamente, não pode consistir em educar ao ser humano do futuro. O ponto de vista utópico e psicologicamente humanitário é o de que o novo homem primeiro deve ser formado e aí então ele criará as novas condições. Não podemos acreditar nisso. Sabemos que o homem é o produto das condições sociais. Mas também sabemos que entre os seres humanos e as condições existe uma relação mútua, complicada e operante.

O próprio homem é produto desse desenvolvimento histórico e não o menor deles. E nesta complicada interação histórica das condições experimentadas por seres humanos ativos, não criamos o cidadão abstratamente harmonioso e perfeito da comuna; formamos os seres humanos concretos de nossa época, que ainda são obrigados a lutar pelas condições capazes de fazer surgir ao cidadão harmonioso da comuna. Isto é algo bem diferente, certamente, pela simples razão de que nosso bisneto, o cidadão da comuna, não é revolucionário [TRÓTSKI, 1922, p.118].

E levamos essa tarefa adiante com a mais plena convicção – e lutando contra toda trava da subjetividade, interior nossa – de que não há outro caminho para superar a iniquidade, inclusive psíquica, de relações humanas, nas quais estamos imersos. E também tratamos de submeter nossa força e vontade à razão revolucionária.

Como diz Trótski, nós “apenas levantamos a tampa do poço, com S. Freud”, e nosso pensamento consciente é a menor parte das nossas “obscuras forças psíquicas”. E no marco de tempos onde predominam as forças anárquicas da sociedade de classe, não temos ainda, como seres humanos, como “submeter à razão e à vontade as forças motrizes e misteriosas da alma”.

Somente criadas aquelas condições históricas, tarefa estratégica da geração de revolucionários – dentre os quais nos incluímos – “o homem de hoje, esmagado sob o peso de contradições e sem harmonia, abrirá o caminho a uma nova espécie mais feliz”.

Referências:

TRÓTSKI, Leon, 2011. Três concepções sobre a Revolução Russa. SP: Belacop, p. 47.

TRÓTSKI, Leon, 1922. As tarefas da educação comunista. In MARX, Karl, ENGELS, Friederich, 2016. Educação, ensino e marxismo. SP: Edições Iskra.

SILVA, N. Ferreira, 2011. O pensamento de Che Guevara: um homem novo, trabalho e consciência na Revolução Cubana. 2011. 152 f. Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Filosofia e Ciências de Marília, 2011. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/88726/silva_nf_me_mar.pdf?sequence=1&isAllowed=y

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FOOTNOTES

[1Che escreveu sobre o “homem novo” e acreditava estar construindo esse novo homem, comunista, em Cuba. Tese de mestrado sobre o tema, de SILVA [2011] menciona o seguinte: “Um ‘novo homem’ era imprescindível para a Revolução, de acordo com Che, porque somente seres humanos desprovidos do ranço do individualismo típico da civilização capitalista poderiam construir uma verdadeira nova sociedade.
Os novos valores se sintetizariam, portanto, nesse novo tipo de ser humano, denominado por Che como ‘homem novo’, o principal e mais importante fruto proveniente de uma verdadeira revolução socialista, da ‘nova sociedade, na qual os homens terão características diferentes: a sociedade do homem comunista’. (GUEVARA, 2004d, p.256)
[...] é preciso dedicar-se a investigar todas as características primordiais deste período antes de elaborar uma teoria econômica e política de maior alcance. A teoria resultante dará maior importância aos dois pilares da construção: a formação do homem novo e o desenvolvimento da técnica. (GUEVARA, 2004d, p.259)
A necessidade de erigir-se um homem novo, proveniente de uma nova sociedade, de uma nova civilização, sempre foi muito cara a Che. A sua postura pessoal talvez indicasse, na prática e na realidade, como seria esse homem do futuro, desalienado e livre. Na verdade, esses seres humanos conscientes nunca poderiam ser, na concepção guevarista, somente o resultado de tal processo revolucionário, deveriam já participar conscientemente da construção dessa nova sociedade, dessa nova civilização. Conforme afirmou F. Fernandes (1979, p.149, grifos do autor): ‘O homem novo e a sociedade nova não constituem produtos finais. São o ponto de partida do verdadeiro desenvolvimento do socialismo e da superação deste pelo comunismo: a garantia de que a revolução permanente persistirá e se fará na direção certa’.
Sobre o trabalhador da Cuba pós-revolução, Che afirmou: “Ainda lhe falta conseguir a plena recriação espiritual diante de sua obra, sem a pressão direta do meio social, mas ligado a ele pelos novos hábitos. Isto será o comunismo.” (GUEVARA, 2004d, p.259). O pensamento de Che Guevara: um homem novo, trabalho e consciência na Revolução Cubana. Newton Ferreira da Silva. 2011. Disponível em: [https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/88726/silva_nf_me_mar.pdf?sequence=1&isAllowed=y].
No entanto, a debilidade do pensamento de Che aflorava em outras reflexões dele próprio, quando exigia sacrifícios e lamentava que o povo não era consciente para isso; e, também quando ficava claro o caráter burocrático do novo regime, que substituía a iniciativa das massas. Zero chance de estimular relações conscientes e coletivas em regimes burocráticos.
Vejamos reflexões de Che, citadas no trabalho acima, que revelam a debilidade teórica do seu pensamento:
“Se olharmos as coisas de um ponto de vista superficial, pode parecer que aqueles que falam de subordinação do indivíduo ao Estado têm razão; [...] A iniciativa parte geralmente de Fidel ou do alto comando da revolução, é explicada ao povo, que a acata como sendo sua. [...] utilizamos por enquanto o método quase intuitivo de auscultar as reações gerais face aos problemas colocados”. (GUEVARA, 2004d, p. 250)
Assim asseverou Che: “É aí que temos de trabalhar, para formar novas gerações que tenham o máximo interesse em trabalhar e saibam encontrar no trabalho uma fonte permanente e constantemente geradora de novas emoções. Fazer do trabalho algo criador, algo novo.” (GUEVARA, 2004c, p.273-4). “[...] há uma falta de compreensão das necessidades da Revolução [...] falta ainda à classe operária fazer mais esforço, sinceramente falta um esforço maior. (GUEVARA, 1982a, p.51). Ou seja, não tinha consciência até o final – embora fosse dos mais conscientes – da trava que significa a burocratização da revolução cubana para o desenvolvimento de relações superiores.

[2Tese n.3 de Marx, 1845, em Teses sobre Feuerbach: “A doutrina materialista de que os seres humanos são produtos das circunstâncias e da educação, [de que] seres humanos transformados são, portanto, produtos de outras circunstâncias e de uma educação mudada, esquece que as circunstâncias são transformadas precisamente pelos seres humanos e que o educador tem ele próprio de ser educado. Ela acaba, por isso, necessariamente, por separar a sociedade em duas partes, uma das quais fica elevada acima da sociedade (por exemplo, em Robert Owen). A coincidência do mudar das circunstâncias e da atividade humana só pode ser tomada e racionalmente entendida como práxis revolucionante”.

[3Um dos seguidores de Trótski do pós-II Guerra Mundial, J. Posadas, para nada inspirado em Trótski, via o mundo contemporâneo maduro para o comunismo e se dava à tarefa de criar seres comunistas hoje, através do partido.
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