Teoria

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Trotski e a luta das mulheres

Para enxergar a vida com o olhar das mulheres é o título do prefácio de Diana Assunção do livro "Trotski e a luta das mulheres". Esta publicação, de março deste ano, conta com o texto inédito "14 perguntas sobre a vida e a moral na União Soviética". Reproduzimos na íntegra o prefácio.

Diana Assunção

São Paulo | @dianaassuncaoED

sábado 8 de agosto de 2015| Edição do dia

As Edições Centelha e Edições ISKRA, em nova parceria, trazem ao público uma compilação de textos do revolucionário russo Leon Trotski, dirigente da Revolução Russa de 1917 e presidente do Soviete de Petrogrado, acerca da luta revolucionária contra a opressão as mulheres. Esta compilação, intitulada “Leon Trotski e a luta das mulheres” se soma a outros títulos que compõem a Coleção ISKRA Mulher [1].

Quando se completam 98 anos da Revolução Russa, continua extremamente atual conhecer os escritos, discursos e cartas de Trotski sobre a questão da mulher, da família e da moral revolucionária. Nesta compilação o leitor encontrará também um texto inédito no Brasil chamado “14 perguntas sobre a vida e a moral na União Soviética” – entrevista dada por Trotski à Revista Liberty nos Estados Unidos em 1933.

O marxismo revolucionário, que no século XX teve sua continuidade através da ação de grandes dirigentes revolucionários que estiveram à frente do Partido Bolchevique, defende com a maior energia a luta pela verdadeira emancipação das mulheres. Justamente por isso, defende uma visão totalmente vinculada à luta de classes e à leitura marxista da realidade, que parte de entender a sociedade dividida em classes e a necessidade de acabar com ela como condição necessária para abrir espaço ao fim de qualquer forma de opressão.

São estes fundamentos que encerram uma premissa científica para definir qual é a classe capaz de revolucionar a sociedade: somente aquela que detém o poder de paralisar e controlar os meios de produção. Essa é a classe operária, com todas as suas derrotas, com todas as suas divisões e também com todos os seus preconceitos. Como em 1917, será essa a classe dirigente, capaz de acaudilhar amplos setores das massas oprimidas da sociedade rumo a uma revolução socialista.

Esta compilação ajudará o leitor a visualizar debates teóricos e práticos sobre como esse processo se estabeleceu no curso da Revolução Russa e depois dele, bem como visualizar limites da própria época que o marxismo revolucionário de hoje pode atualizar. Defender e proteger os setores mais oprimidos da sociedade era um dever revolucionário tanto para Trotski quanto para Lenin, e segundo eles esse processo no Estado operário se daria tanto “por cima” – com as leis, com a socialização das tarefas domésticas – quanto “por baixo” com o exercício comunitário das famílias operárias.

Como Trotski já defendeu amplamente em seu texto a Teoria da Revolução Permanente, uma revolução necessariamente passaria por um processo de metamorfose interno, uma vez que os aspectos mais difíceis de transformar são aqueles preconceitos e hábitos inculcados pela exploração capitalista e no caso da Rússia, um país atrasado, majoritariamente camponês e feudal, essa tarefa de transformação se tornava ainda mais difícil. É por isso que Trotski, ao longo dos textos, dá enorme centralidade para essa mudança “por baixo”. Da mesma forma que Lenin, era um fervoroso defensor das leis e políticas para livrar as mulheres do trabalho doméstico e garantir a igualdade perante os homens, mas considerava que isso não era suficiente. A possibilidade de que no transcurso da construção do Estado operário – rumo ao socialismo internacionalmente – famílias proletárias buscassem exercer métodos comunitários de criação das crianças, de alimentação e lavagem das roupas, era também parte de exercer um poder desde a base da classe operária russa envolvendo os operários e camponeses homens neste combate cotidiano pela igualdade das mulheres.

No discurso de 1925 “A proteção das mães e a luta pela cultura” Trotski demonstra de forma contundente como os preconceitos ocupam lugar destacado entre as camadas mais privilegiadas da classe operária. Cita Lenin, que buscava avaliar os partidos da classe operária de acordo com a sua atitude com relação às nações oprimidas, para concluir

“Se tomamos, por exemplo, o operário inglês, será relativamente fácil despertar nele a solidariedade para com o proletariado de seu próprio país; participará das greves e estará inclusive disposto a fazer a revolução. Porém será muito mais difícil que se sinta solidário com um coolie chinês, que o trate como um irmão explorado, já que isso implica em que rompa com a carapaça de arrogância nacional, solidificada durante séculos”

Trotski utilizou este exemplo para dizer que da mesma forma encontra-se solidificado durante milênios, e não durante séculos, a carapaça dos preconceitos do chefe de família frente à mulher e à criança. Trotski dizia que a mulher é o coolie (trabalhador chinês) da família. Por isso, neste discurso às mulheres operárias, completou
“Vocês devem ser a força moral que arrasará com este conservadorismo enraizado na nossa velha natureza asiática, na escravidão, nos preconceitos burgueses e nos da própria classe operária, que neste sentido, arrasta o pior das tradições camponesas. E todo revolucionário consciente, todo comunista, todo operário e camponês progressista, se sentirá obrigado a vos apoiar com todas as forças”.

Para Lenin e Trotski a planificação da economia era a condição material da libertação das mulheres, porém insuficiente. Para além das leis que o Estado operário promulgou – considerado por ambos como extremamente avançadas – era preciso se chocar também com o atrasado que ainda existia em amplos setores de massas. O Estado operário, portanto, tinha uma série de elementos de “transição”, que buscavam lidar com costumes e questões do modo de vida que ainda eram predominantes em uma sociedade capitalista, ainda que feudal como a Rússia, mas que não poderiam ser destruídos do dia para a noite, como a própria organização familiar.

Em “Para construir o socialismo é preciso emancipar a mulher e proteger a maternidade” Trotski diz que a profundidade do problema da mulher está dada pelo fato de que ela é, em essência, o elemento vivente no qual se entrecruzam todos os fios decisivos do trabalho econômico e cultural. É nisto que reside os esforços para libertar a mulher economicamente do jugo do homem, com leis que protegessem a maternidade, mas também libertar as mulheres das tarefas domésticas permitindo um novo horizonte, inclusive com o esforço empreendido por Lenin para que as mulheres passassem a ocupar postos de direção nos sovietes e no próprio Estado operário.
Esta definição, bem como a experiência prática, arrebenta com todas as teorias que consideram que a luta contra a opressão a mulher não é uma luta revolucionária, ou até mesmo teorias que buscam igualar o problema de classe e o problema de gênero, na ingenuidade intencional de contrapor ou equalizar, quando se trata de problematizar a relação dialética entre ambas. A Revolução Russa é a expressão da máxima dialética entre ambas, como podemos ver nesta citação de Trotski do mesmo texto

“Assim como era impossível construir o Estado soviético sem libertar ao campesinato dos laços da servidão, também será impossível construir o socialismo sem libertar à mulher operária e camponesa dos grilhões do trabalho com a família e o lar. (...) A liberação da mulher significa cortar o cordão umbilical que ainda une o povo ao obscurantismo e às superstições do passado.”

Ao mesmo tempo, se destaca nesta compilação a presença de dois textos primorosos de Trotski, praticamente do mesmo período que demonstram a forma com que Trotski encarava a situação de burocratização da União Soviética. Enquanto defendia a revolução socialista diante das perguntas da Revista Liberty no texto “14 perguntas sobre a vida e a moral na União Soviética” de 1933 era também capaz de dilacerar o cerne da burocratização stalinista do Estado operário no excelente texto “Termidor no lar”, que integra sua importante obra “A Revolução Traída”. Trata-se de uma visão objetiva do caráter do Estado operário, da situação da burocracia stalinista e da necessidade de uma revolução política que defendesse as conquistas da revolução e recolocasse no poder a classe operária russa na luta pela revolução internacional como única forma de avançar ao socialismo.

O inédito texto “14 perguntas sobre a vida e a moral na União Soviética” se destaca pela perspicácia de Trotski em suas respostas a Revista Liberty que por deboche ou senso comum chega a perguntar se na União Soviética os homens viraram robôs ou se o socialismo tirava a alegria das crianças. Quanto a esta segunda pergunta, Trotski respondeu com tranquilidade

“A propaganda soviética tira a alegria da infância? Por que razão e de que forma? As crianças soviéticas brincam, cantam, bailam e gritam como toda criança. A preocupação acima do comum do Estado soviético por conta das crianças já foi admitida até pelos observadores pior intencionados. Em comparação com o velho regime, a mortalidade infantil foi reduzida pela metade”.

A pergunta seguinte, acerca da situação da família no Estado operário, resume de forma bastante contundente o que Trotski já havia desenvolvido em dois dos textos que também compõe essa compilação “Da velha à nova família” e “A família e os rituais”, ambos textos são parte do livro “Questões do Modo de Vida”, aonde defende a tese de que a família é uma pequena empresa [por suas tarefas domésticas] que aprisiona a mulher atrofiando sua mente e impedindo qualquer tipo de liberdade, e que portanto é tarefa do Estado operário libertar a mulher das tarefas domésticas. À pergunta sobre se o socialismo destrói a família, Trotski responde

“Se alguém entende por ‘família’ uma união compulsória baseada no contrato matrimonial, na benção eclesiástica, propriedade de direitos e o passaporte comum, então o bolchevismo destruiu completamente esta família. Se alguém entende por ‘família’ o domínio ilimitado dos pais sobre os filhos e a ausência de direitos legais para a esposa, então, o bolchevismo desafortunadamente não pôde acabar por completo com este resíduo da barbárie social. Se alguém entende por ‘família’ à monogamia ’ideal’, em seu sentido real e não legal, então os bolcheviques não podem destruir algo que não existe e nem existiu, salvo em afortunadas exceções”.

Ao mesmo tempo em que Trotski também respondia acidamente contra qualquer tipo de hipocrisia em relação a questão da sexualidade de homens e mulheres, atacando também os benefícios da prostituição para os homens e a enorme opressão para as mulheres, também terminava corroborando com um certo espírito de época que se encontrava preso a forma heteronormativa de relacionamentos. A própria Revolução Russa avançou, como demonstra Wendy Goldman em seu brilhante estudo “Mulher, Estado e Revolução”, para formas amplas de pensamento rumo ao amor livre que não pré-determinavam um tipo ideal de matrimônio ou relação. É essa visão ainda estreita, necessária que seja atualizada pelo marxismo revolucionário atual, que guardava pouco peso para o combate pela liberdade sexual e todas as formas de sexualidade.

Esta leitura se apresenta no marco do amplo reconhecimento do que significou a Revolução Russa na luta dos homossexuais já que foi o primeiro estado no mundo inteiro a colocar fim a qualquer perseguição a homossexualidade. Em 1921, quando o médico Magnus Hirschfeld organizou um Encontro Internacional para a Reforma Sexual, com cientistas do mundo todo que viam com preocupação a criminalização dos homossexuais, foi colocado como exemplo a legislação da Rússia soviética onde a revolução proletária havia eliminado as leis repressoras da homossexualidade por serem “contraditórias com a consciência e a legalidade revolucionária”.

Toda esta visão e esta experiência expressas nestes textos, tem seu coroamento com o texto “Termidor no lar” uma verdadeira arma de combate do stalinismo. Trotski vai demonstrar a traição levada a cabo pelo stalinismo, e particularmente como este verdadeiro termidor se expressa no retrocesso em relação a luta das mulheres. A crítica mais feroz de Trotski neste âmbito é o retrocesso em relação ao direito ao aborto

“Um dos membros do Tribunal supremo soviético, Soltz, especialista em questões relacionadas ao casamento, justifica a próxima interdição do aborto dizendo que, não conhecendo a sociedade socialista o desemprego, ela, a mulher, não pode ter o direito de rejeitar as ‘alegrias da maternidade’. Filosofia de padre, ainda por cima dispondo por acréscimo do punho do policial”.

Era a burocracia agindo no mais profundo da revolução, com altos magistrados dizendo que no país “onde é bom viver” os abortos devem ser punidos com prisão, exatamente como nos países capitalistas onde é triste viver, segundo Trotski.
“’Temos necessidade de homens’, acrescenta Soltz, fechando os olhos às crianças abandonadas. Milhões de trabalhadoras, se a burocracia não tivesse posto nos seus lábios o selo do silêncio, poderiam responder-lhe: ‘Façam vocês próprios as crianças!’. Eles esqueceram visivelmente que o socialismo deveria eliminar as causas que levam a mulher ao aborto e não fazer intervir a polícia na vida íntima da mulher para lhe impor as alegrias da maternidade’’.

Estas citações trazem um panorama do que o leitor irá desbravar nestes textos, tão atuais e necessários na luta revolucionária para a questão das mulheres – e que hoje podem contribuir para avançar em uma elaboração firme na defesa de todos os setores denominados LGBT na luta pela liberdade sexual. Para completar, recorro também a outro grande revolucionário russo, Lenin, que dentre todos foi dos maiores combatentes do trabalho doméstico jogado nas costas das mulheres. No texto “O poder soviético e a posição da mulher”, que o leitor também poderá conhecer no apêndice desta publicação, Lênin aborda as diferenças entre a democracia burguesa e a democracia soviética no que tange a luta das mulheres

“A democracia burguesa promete de palavra a liberdade e a igualdade. Mas na prática nenhuma república burguesa, nem a mais avançada, concedeu à mulher (metade do gênero humano) plena igualdade de direitos com os homens, diante da lei, nem libertou a mulher da dependência e opressão dos homens. (...) A democracia burguesa é a democracia das frases pomposas, das palavras solenes, das promessas liberais, das consignas grandiloquentes sobre a liberdade e a igualdade, mas na prática, tudo isto oculta a falta de liberdade e a desigualdade da mulher, a falta da liberdade e a desigualdade dos trabalhadores e explorados. (...) A República Soviética, a república dos operários e camponeses, destruiu com um golpe essas leis e não deixou de pé nenhuma pedra da torre de mentiras burguesas e sua hipocrisia. Abaixo essas mentiras! Abaixo os mentirosos que falam de liberdade e igualdade para todos enquanto existe um sexo oprimido, enquanto existam classes opressoras, enquanto existe a propriedade privada do capital, enquanto existe gente rica que utiliza seus excedentes de cereais para escravizar o morto de fome! Nada de liberdade para todos, nada de igualdade para todos, mas sim luta contra os opressores e os exploradores, eliminação de toda a possibilidade de oprimir e explorar! Essa é nossa consigna!”

Hoje essa também é nossa consigna. No combate as ideologias radicais que tão rapidamente foram cooptadas pelo Estado “democrático de direitos”, dos movimentos de setores oprimidos que tão rapidamente se institucionalizaram passando a fazer parte da “agenda” estatal em colaboração com os governos, o horizonte revolucionário permanece vivo nas lições da Revolução Russa. Por isso Leon Trotski, o autor destes textos, alertava a todos os militantes e operários: para ser um revolucionário é preciso enxergar a vida com o olhar das mulheres. Hoje, no mundo todo e em nosso país, para ser um revolucionário é preciso enxergar a vida com o olhar das mulheres, mas em especial o olhar das mulheres negras, imigrantes e indígenas, que de forma mais cruel sentem o feroz deleite capitalista sobre seus corpos e vidas.

Atualmente, o trotskismo é ainda a corrente que guarda de forma mais profunda estas lições, entrelaçando de forma vital a luta das mulheres com a luta de classes, depositando na classe operária enquanto sujeito social a possibilidade de transformação desta sociedade, mas também alentando de forma viva e verdadeira a organização e luta de todos os setores oprimidos. É porque Trotski deixou cravado nas bandeiras de fundação da IV Internacional a consigna de passagem à mulher trabalhadora, porque viu com os próprios olhos, no grito, na vontade e persistência da classe operária feminina russa, e também das camponesas pobres e oprimidas, que os que lutam com mais vontade pelo novo são os que mais sofreram com o velho. O velho é esta sociedade capitalista, e por isso, nós mulheres precisamos lutar pelo novo.




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