EDUCAÇÃO - TEORIA

Trotski e a educação II: a questão do modo de vida

Mauro Sala

Campinas

quinta-feira 26 de novembro de 2015| Edição do dia

Num artigo publicado aqui, apresentei a posição que Trotski defendeu em relação à cultura burguesa e sua apropriação pela classe trabalhadora na construção da sociedade socialista. Concluímos este artigo com uma citação do Trotski que dizia que “a tarefa principal da intelligentsia proletária para o futuro imediato não está na abstração de uma nova cultura – cuja base ainda falta -, e sim no trabalho cultural mais concreto: ajudar de forma sistemática, planificada e crítica as massas atrasadas a assimilar os elementos culturais da cultura já existente”.

Dessa forma, defendi que a posição de Trotski afasta-se do idealismo e dos discursos sobre a formação do “novo homem”: trata-se de “formar os homens concretos de nossa época” pela socialização da cultura existente para as massas de trabalhadores.

Entretanto, na construção do socialismo e do domínio político da classe trabalhadora, muitas transformações se impõem. Nesse artigo, irei explorar algumas formulações que o revolucionário bolchevique faz em seu interessante ensaio intitulado “Questões do modo de vida”, publicado em 1923, buscando dialogar com a perspectiva da educação.

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Diferentemente do livro Literatura e Revolução que apresentamos no artigo anterior, esse ensaio não se debruça sobre a cultura mais ou menos formalizada em obras, seja da arte ou da ciência. Esse ensaio se centra antes sobre o “modo de vida”, isto é, o meio ambiente e os hábitos cotidianos que elaboram-se “nas costas das pessoas”. Assim, o modo de vida é antes a “soma das experiências desorganizadas dos indivíduos” que transforma-se de “maneira espontânea sob a influência da técnica ou das lutas revolucionárias”, mas que, no total, “reflete antes o passado da sociedade do que o seu presente”.

Num interessantíssimo texto publicado no Esquerda Diário sobre o ritual materialista e a distração, Thyago Villela nos chama a atenção de que esse artigo de Trotski não tem nada que o assemelha a uma “espécie de manual para escoteiros bolcheviques sobre como não jogar lixo na rua e outros “detalhes” absolutamente tediosos”. Tenho acordo. Embora quando refletimos a relação entre os hábitos cotidianos e a educação a atenção a esses detalhes seja algo fundamental.

Trotski nos diz que “pedir para que não se cuspa no chão ou que não lance pontas de cigarro nas escadas e corredores é um “pequeno nada”, uma exigência mínima, mas que no entanto tem um significado educativo e econômico enorme”. E isso não apenas pelos traços de “má educação” que esse gesto contem, mas pelos hábitos servis que ele reproduz: “Jogar pontas de cigarro no chão é desdenhar do trabalho alheio”.

“É preciso - complementa Trotski - combater incansável e impiedosamente essa leviandade, essa falta de educação, essa negligência, combatê-la explicando, dando o exemplo, fazendo propaganda, exortando as pessoas e levando-as a se tornarem responsáveis. Aquele que, sem tecer comentários, sobe uma escada emporcalhada ou atravessa um pátio sujo, é um mal cidadão e um construtor sem consciência”.

Não a toa, no desenvolvimento de uma educação afinada com a construção do socialismo, Pistrak, Shulgin e outros tenham dispensado tanta atenção para a ideia de “trabalho socialmente útil”, ampliando a relação entre trabalho e educação para além do trabalho diretamente produtivo, pensando também a importância pedagógica do trabalho reprodutivo, necessário para a manutenção da sociedade e para a educação das novas gerações.

Assim, quando damos atenção a “esse pequeno nada” e combatemos esse “hábito espontâneo”, estamos ensinando os trabalhadores e a juventude a reconhecer e valorizar o trabalho alheio; sobretudo esse trabalho “invisível” que tantas trabalhadoras dispensam todos os dias em nossas escolas e outros lugares: o trabalho de limpeza e de manutenção.

Uma educação que não incida sobre esses detalhes não combate a mentalidade herdada do nosso passado servil, que educou até mesmo as massas trabalhadoras a desvalorizarem esse “trabalho socialmente útil”, tido como “trabalho improdutivo” na sociedade capitalista. Não se trata de escotismo, mas de se fazer reconhecer a importância social desse trabalho “invisível”, e marcadamente precário, em nossa sociedade atual.

Mas não é só esse trabalho que precisa ser valorizado: “A jovem geração deve, antes de tudo, ser uma geração de operários altamente especializados, altamente qualificados, amantes do seu trabalho”.

É claro que não se trata de amar a exploração do trabalho da sociedade capitalista, mas de, naquele momento histórico preciso, ter a consciência de que “a produção serve ao mesmo tempo ao socialismo”. Assim, devemos incutir na juventude um desejo de adquirir uma alta qualificação técnica, dispensando atenção à sua aprendizagem.

Mas que não se pense que se trata de uma repaginação socialista da ética capitalista do trabalho!

Não. Trotski saúda a redução da jornada de trabalho para oito horas diárias como uma das conquistas mais importantes da revolução, que imprime sua marca no modo de vida operário. Diz Trotski:

“Em si mesmo, esse fato provoca uma mudança fundamental da vida do operário ao liberá-lo de dois terços da jornada de trabalho. Cria-se assim uma base para transformações radicais do modo de vida, para melhorar a forma de viver, desenvolver a educação coletiva etc., mas se trata apenas de uma base. Quanto mais o tempo de trabalho seja utilizado com consciência, mais a vida do operário se organizará de forma completa e inteligente. É precisamente nisso que consiste, como já se disse, o sentido fundamental da convulsão de outubro: os êxitos econômicos de cada operário conduzem automaticamente a uma elevação material e cultural da classe operária em seu conjunto. “Oito horas de trabalho, oito horas de repouso, oito horas de liberdade”- proclama a velha fórmula do movimento operário. Nas atuais condições, essa fórmula adquire um conteúdo de todo novo: quanto mais as oito horas de trabalho forem produtivas, mais as oito horas de repouso serão reparadoras e higiênicas, e mais as oito horas de liberdade serão culturais e enriquecedoras”.

É claro que, dado o desenvolvimento das forças produtivas, hoje poderíamos ter uma jornada de trabalho ainda inferior às oito horas diárias implementada pela revolução de 1917. O aumento da produtividade do trabalho o permite, desde que libertado das relações capitalistas de exploração. Assim, a luta pela redução da jornada de trabalho segue sendo a base de uma política educacional para a classe trabalhadora.

A questão do tempo livre é fundamental para pensarmos a questão educacional. E isso não apenas para podermos pensar a ampliação das atividades diretas de ensino, mas também para pensar as possibilidades contidas no lazer.

“Um Estado operário não é uma ordem espiritual, nem um convento. (…). O desejo de distração, de entretenimento, de diversão e de riso, é um desejo legítimo da natureza humana. Podemos e devemos proporcionar-lhe satisfações cada vez mais artísticas e, ao mesmo tempo, devemos fazer do divertimento um instrumento de educação coletiva, sem constrangimento ou dirigismo inoportuno”.

Para Trotski, só com a tomada do poder pela classe operária é que criam-se as condições para uma verdadeira e radical transformação do modo de vida. “Não se pode racionalizar o modo de vida, isto é, transformá-lo segundo as exigências da razão, se não se racionalizar a produção, visto que o modo de vida tem suas raízes na economia”, ou seja, sem assumir a tarefa de “encarar racionalmente e de submeter à razão a atividade econômica do homem”, sem “submeter a um controle e direção conscientes a base econômica das relações humanas”.

Não se trata nem da “anarquia da produção capitalista”, nem tampouco da direção burocrática estalinista: trata-se de êxitos que, permitindo elevar o nível cultural do operário e da operária, alargam imediatamente as possibilidades de uma racionalização da economia. Como diz Trotski que trata-se de uma “dependência dialética”: o fator histórico principal é a economia, mas não podemos agir sobre ela a não ser por intermédio da classe operária, continuamente “elevando a qualificação técnica e cultural de seus elementos constitutivos”.

Trotski combate qualquer forma de “intervenção constrangedora, vinda de cima”, isto é, de uma “burocratização dos novos fenômenos do modo de vida”, afinal, o socialismo só se pode construir com base na iniciativa criadora das massas. Para ele, “é preciso desde já é por todos os meios ajudar no desenvolvimento desse processo criativo, sem regulamentá-lo”.

Mas para ajudar nesse processo criativo é necessário conhecer profundamente o material vivo que se dispõe.

“Não se pode, porém, inventar, em todas as suas peças, um novo modo de vida. Pode-se construí-lo a partir de elementos reais e capazes de se desenvolver. Por isso, antes de construir, é preciso conhecer aquilo de que se dispõe. O que é necessário não só para agir sobre o modo de vida, mas em geral para toda a atividade humana consciente. Para poder participar da elaboração do modo de vida, precisa-se conhecer o que existe e quais são as transformações possíveis do material de que se dispõe”.




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