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MÚSICA

Tropicália ou Panis et Circencis

Tropicália ou Panis et Circencis é um álbum de estúdio lançado em julho de 1968 pela Philips Records. Produzido por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Os Mutantes, Tom Zé, Nara Leão, os poetas-compositores Torquato Neto, José Carlos Capinam e o maestro e arranjador Rogério Duprat, este disco é considerado o álbum-manifesto do tropicalismo, a expressão musical deste movimento ou momento estético surgido em 1967 e brutalmente desbaratado pela Ditadura Militar Burguesa após o decreto do AI-5 em dezembro de 1968.

Fábio Nunes

Vale do Paraíba

quinta-feira 17 de dezembro de 2015| Edição do dia

Gravado sob os fortes ventos do Maio francês, Tropicália ou Panis et Circencis, sintetiza a proposta antropofágica dos tropicalistas, ou seja, sem preconceito de ordem estética, deglutiram Beatles, Oswald de Andrade, Jovem Guarda, poesia concreta, música tradicional brasileira e produziram, segundo afirmações de seus realizadores, uma ruptura na música e na cultura brasileira, uma arte nova, internacionalista e antinacionalista. Uma grande bagunça elétrica tradicional eletrônica ousada o suficiente para misturar crítica social, Vicente Celestino, Bumba Meu Boi, gasolina, margarina, as três caravelas de Colombo, Batman e o Hino ao Senhor do Bonfim.

Para o diretor de teatro Augusto Boal em seu manifesto anti tropicalista intitulado Chacrinha e Dercy de Sapato Branco, publicado na Folha da Tarde em maio de 1968, o tropicalismo é o símbolo da mais burra alienação. Para Boal, trata-se de uma manifestação artística neorromântica, tímida, gentil, importada e homeopática que pretende atacar as estruturas capitalistas, mas no fundo só arranha as aparências efêmeras da sociedade e no final acaba fazendo cócegas na burguesia.

Vamos á obra.

A capa.
Resultado de uma criação coletiva, com trabalho gráfico do artista plástico Rubens Gershman, a foto foi realizada em São Paulo na casa do fotógrafo Oliver Perroy. Com forte influência da capa do álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band dos Beatles lançado em 1967, a ideia dos tropicalistas era parodiar as tradicionais fotografias de família encomendadas pela classe média no Brasil.

Gilberto Gil, sentado no chão, segura o retrato de formatura do curso normal de Capinam; Tom Zé, de terno, segura uma mala de couro; Gal Costa e Torquato representam um típico casal recatado do interior; Rogério Duprat, segura um penico na mão como se fosse uma xícara; Caetano segura uma foto de Nara Leão e os Mutantes, ao fundo, levantam suas guitarras, instrumento atacado por alguns setores da esquerda tradicional como símbolo da colonização imperialista.

O disco.
1º faixa - Miserere Nóbis (Gilberto Gil – Capinam)
Gil abre este disco seminal com uma crítica ao país do futuro com seus famintos à espera do jantar que se limita à borda do prato. Impiedosa fome no Terceiro Mundo. A metade do pão, a cerveja, a banana, o feijão e a toalha de linho manchada de sangue no Brasil Fuzil dos generais. Tiros de canhões sufocam a música.

2º faixa - Coração Materno (Vicente Celestino)
“Rasga-lhe o peito o demônio/ Tombando a velhinha ao pé do altar”. Com arranjos inovadores de Rogério Duprat, Caetano dá voz a esta canção gravada originalmente em 1937 que conta a trágica história do camponês que mata e extirpa o coração de sua velha mãe para presentear sua amada. Considerada de mau gosto, Coração Materno é um exemplo de cafonice devorada pelos tropicalistas, rejeitada pelo seu tom mórbido, seu cenário de morte e sangue assume ares de metáfora do Brasil das torturas e assassinatos no álbum Tropicália.

3º faixa - Panis et Circencis (Caetano – Gil)
Interpretada pelo grupo Os Mutantes, Panis et Circensis fala de uma juventude que quer cantar sua canção iluminada de sol com seus tigres e os leões soltos nos quintais, uma juventude que planta folhas de sonho e mata os amores apáticos impostos pela Igreja e pelo Estado. Mas as famílias pequeno-burguesas na sala de jantar estão ocupadas em nascer e morrer no reino do Pão e Circo promovido pelo milagre econômico e pelo fortalecimento da televisão. Ouve-se vozes à mesa, ruídos de talheres, a valsa Danúbio Azul ao fundo. Vidros espatifados. Corte súbito.

4º faixa - Lindonéia (Caetano)
Nara Leão canta esta música de Caetano inspirada na obra Lindonéia ou a Gioconda do Subúrbio de Rubens Gershman. Melancólica e violenta retrata os sonhos e a dura vida de uma jovem empregada doméstica leitora de fotonovelas. Lindonéia desaparecida. Nos porões da ditadura ou nas paradas do sucesso? Cachorros atropelados. Despedaçados. Policiais vigiam. Gente morre de dor e solidão. Sangue.

5º faixa – Parque Industrial (Tom Zé)
Banda de coreto. Tom Zé canta em tom ufanista acentuando o tom de paródia. Grande festa em toda nação. Façam suas orações. O avanço industrial prometido pelo chamado milagre econômico da Ditadura vem trazer a redenção do povo explorado e oprimido. Tem garota-propaganda e ternura no cartaz. O sorriso engarrafado made in Brazil já vem pronto e tabelado. A revista de fofoca disseca o cadáver da estrela e o jornal popular é um banco de sangue encadernado.

6º faixa – Geléia Geral (Torquato-Gil)
Geléia Geral, canção-manifesto do Tropicalismo, expressa, assim como Alegria, alegria de Caetano Veloso, as propostas, o espírito e as contradições deste movimento artístico que, segundo os seus criadores é uma forma antropofágica de relação com a cultura. Uma superposição de bumba-meu-boi, Jovem Guarda, Oswald de Andrade, Frank Sinatra, Jornal do Brasil, Canecão, santo barroco baiano, miss Brasil, carnaval, TV e carne seca num caleidoscópio psicodélico. Geléia Geral de Torquato e Gil é cinema e candomblé, bossa nova e comunicação de massa. Bananas ao vento. Bananas em Transe. Araras e Chacrinha. Aqui! Oba! Le Soliel Tropical. Singela explosão.

7º faixa – Baby (Caetano)
Em pleno auge do regime militar Gal Costa diz que é preciso saber da piscina, da margarina e da gasolina. Baby, a repressão segue seu rumo e por isso, segundo Gal é preciso tomar um sorvete na lanchonete, ouvir aquela canção do Roberto Carlos e aprender inglês.
8º faixa – Três Caravelas ( E. Moreu – A. Alguero Jr.)
Interpretada por Caetano e Gil é uma canção caribenha que faz uma ode à viagem de Cristóvão Colombo que em 1492, descobriria o continente americano. Paródia tropicalista? Viva Colombo?

9º faixa – Enquanto Seu Lobo Não Vem (Caetano)
Caetano canta o passeio escondido pelas avenidas de um país sob o controle de genocidas fardados. Um passeio nas veredas dos Estados Unidos do Brasil sob os clarins da banda militar. Passear por debaixo das ruas, das bombas, das bandeiras, das botas, da lama, da cama sempre ao som dos clarins da banda militar. Repressão. Estado de exceção. Todo mundo é suspeito. Alerta geral.

10º faixa – Mamãe Coragem (Torquato - Caetano)
Gal canta a ruptura com a família, a ânsia da juventude de enfrentar e descobrir o mundo. A casa familiar, pequena demais para os sonhos, precisa ficar lá atrás. As memórias e as lágrimas são levadas na mala de couro. A vida é assim mesmo e a juventude que tem o coração fora do peito e um beijo preso na garganta precisa partir. Com jeito de quem não se espanta é preciso desbravar as capitais de concreto.

11º faixa – Bat Macumba (Gil - Caetano)
Poesia concreta e atabaques. Terreiro elétrico. Antropofagia concreta. O Batman, a macumba e o iêiêiê num universo ainda desconhecido da letra K. Ou seria a bandeira nacional a bandeira de Gotham City?

12º faixa – Hino ao Senhor do Bonfim (Petion de Vilar - João Antonio Wanderley)
O álbum encerra-se com este hino sincrético de grande popularidade religiosa. Os arranjos ousados de Duprat desagradou os setores católicos fervorosos.

A música não existe mais. É necessário criar algo novo. É preciso ter coragem de fuçar o chão do real. O disco é feito para vender? Isto assusta? Quem ouve Aracy de Almeida e o álbum Tropicália? O Brasil é o país do futuro? O tropicalismo está fora de moda? Caetano e Gil eram rebeldes e hoje são senhores comportados frente às tropas imperialistas? Eram apenas garotos-propaganda do Chacrinha? Nem ideologia e nem futuro? Caetano quer dinheiro. Gal quer dormir em paz. Gil quer dormir de pijama. Torquato, hoje muito pouco lembrado, pergunta na contracapa do disco se Câmara Cascudo vai pensar que os tropicalistas igualaram bumba-meu-boi e Jovem Guarda.




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