Teoria

LITERATURA E PROLETARIADO

Trocando ideias com um possível escritor proletário

Afonso Machado

Campinas

segunda-feira 17 de setembro| Edição do dia

Você que está ferrado de grana, que se considera perdedor por não ter imagens que expressam formas de ostentação nas redes sociais, representa uma ameaça política para aqueles que tem grana e ostentam o poder econômico através de imagens. Você que mora num bairro pobre, que é mal pago e vive esgotado, que está proibido de entrar nas colunas sociais, está muito longe de ser um personagem apagado nas cidades brasileiras: você faz parte da classe trabalhadora, quer dizer, a esmagadora maioria que produz e não se beneficia das riquezas produzidas. Quem sente vergonha de ser proletário é porque ainda não descobriu (ou não sacou) que são precisamente os trabalhadores da era capitalista que podem libertar o país e a humanidade de todo sofrimento, de toda exploração. A moral da história deste nosso café é que o proletário não pode ser secundário nas narrativas.

Você que é trabalhador deve ter muitas histórias para contar. Aposto que são histórias mais interessantes, vivas e sinceras do que aquelas narrativas luxuosas que a classe dominante dissemina por aí. Quando você se levanta de madrugada para ir trabalhar(ou chega em casa, se o trampo for noturno) quais são as imagens e os personagens que atravessam o seu olhar? Aquelas pessoas em andrajos cheirando a cachaça, os incontáveis dependentes químicos popularmente taxados de “ nóias “, os trabalhadores que vem e vão apressados, como todos eles são vistos/sentidos por você? Como é o olhar dessas pessoas? O que elas falam e como elas falam? Dentro do busão ou do metrô, no espaço de trabalho ou nas poucas horas de lazer, existem muitos personagens trabalhadores. Do que eles estão rindo ou como expressam sua indiferença em relação à dor alheia ? Quais livros ou textos eles trazem em mãos e quais músicas silenciosas se escondem nos fones de ouvido? Como eles rezam, como eles expressam sua visão política, sua paixão pelo time de futebol? O que eles comem e bebem? Quais vídeos e textos prendem a atenção no celular? Como eles paqueram ou namoram, como a atração sexual é expressa em falas e gestos?

Todas estas perguntas, que exigem a observação crítica do escritor, são colocadas no texto literário através de uma deformação artística. A situação e a posição de classe do autor interfere diretamente na maneira como a narrativa é construída. Aliás as emoções do autor surgem aonde menos se espera: objetos cotidianos (como a roda de um busão, a luz de um poste, um chinelo de dedo abandonado na calçada, a xicara de café colocada no balcão da padaria ou do boteco, uma casca de banana mal colocada na lixeira etc), além dos sons barulhentos e das propagandas espalhadas pela cidade; tudo é narrado de acordo com a maneira como o autor sente este universo urbano. Se você topar escrever sobre este cotidiano a um só tempo triste e brutal, é preciso levar em conta o caráter político do seu texto. Quer dizer, se escrever pressupõe um leitor, e se estamos tratando aqui do universo da classe operária, sua narrativa existe para o que e para quem? Todos estes personagens urbanos são objetos de uma suposta irá divina ou assim como você são sujeitos históricos?

Pode crer que você está numa posição muito mais favorável para escrever histórias do que muitos que são considerados profissionais. Esta afirmação não é questão de talento mas de classe, não é questão de gosto mas uma constatação científica: a marcha da história desenvolveu-se de tal maneira que, perante os crimes do capitalismo, somente os trabalhadores podem fazer a terra girar. O papel das forças políticas conservadoras(que puseram as manguinhas de fora no Brasil) é o de impedir que você seja tanto autor de romances quanto autor político. Pense só: as histórias que você tem pra contar fazem parte de uma história muito maior... Compreendendo e sentindo as lutas sociais que se deram em diferentes épocas, o escritor trabalhador terá condições de compreender e sentir quais são as histórias que poderemos escrever hoje.

Já reparou que não estamos vestidos como egípcios ou gregos antigos? Só um abestado pode achar que isto é questão de moda, ou algo explicável somente à luz de diferenças culturais. A coisa toda é bem mais complexa... A história envolve um processo permanente de transformações: modificando suas condições materiais de existência, desenvolvendo seus meios para produzir riquezas e se relacionando independentemente de sua vontade através do trabalho, homens e mulheres de diferentes épocas e culturas viram as sociedades virarem no avesso através da luta de classes. As transformações do cenário econômico apresentam novos personagens, com novos figurinos. Nada em economia, política e cultura é eterno. De acordo com o que importantes historiadores marxistas já demonstraram, o homem não “ É “, pois ele “ ESTÁ “. Quer dizer, estamos em movimento, nada é eterno e são as contradições que cada sociedade carrega no bucho que exige transformações históricas. Isto é precisamente o que jamais iremos ouvir da boca daqueles que falam a língua dos interesses econômicos e políticos da classe dominante. O que todas as classes dominantes da história quiseram é que as coisas fossem eternas. Você que me entendeu está logicamente atento às cartas marcadas no baralho da cultura: não dá pra engolir as narrativas mentirosas que estão a serviço do capital. Portanto, suas histórias escritas sobre trabalhadores e destinadas a um público trabalhador, não poderiam estar comprometidas com a mentira mas com a verdade acerca do processo histórico. Sem falsear a realidade, suas histórias são um uma espécie de diagnóstico literário para afirmar que o mundo pode ser transformado pela classe explorada.

Pode acreditar: precisamos escrever(e o texto em prosa, produto portador de uma narrativa, é um instrumento vital na luta de classes).Espera aí, espera aí, espera aí: por acaso você está constrangido por se considerar “ ignorante “, “ despreparado “ para comentar o que aperta a cabeça e comprime o coração? Largue mão de besteira! Até o literato mais despolitizado já sacou que vários romances, contos e poemas escritos nos últimos tempos no Brasil são expressões artísticas de muitos autores proletários. Portanto, insisto: escreva! Escreva com paixão, com entusiasmo, com a vontade de ser lido/ouvido pela grande maioria da população, ou seja, os trabalhadores. É importante entender que ninguém sabe de tudo, que ninguém é proprietário do conhecimento. Todavia, se você quiser contribuir com a tomada de consciência dos trabalhadores sobre suas necessidades políticas, é preciso estudar, é preciso ler até queimar a pestana.

É claro que não é fácil estudar, assimilar informações literárias e históricas. Por isso é importante fazer parte de grupos de estudo/pesquisa formados por trabalhadores. Errando e acertando, escrevendo e corrigindo: é este o caminho para construirmos nossas narrativas. É esta a condição para contarmos as histórias que o povo precisa ler/ouvir.




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