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Trilogia sobre o Brasil encerra primeira etapa da Tram(a)ntropofágica

O sobrado que há anos atende pelo nome de Pyndorama e abriga as atividades da Companhia Antropofágica ficou pequeno para receber o maior público que já passou ali. Ao menos 140 pessoas compareceram ao último dia de apresentação da terceira parte da Trylogia Terror e Miséria no Novo Mundo. E é apenas o começo da Tram(a)ntropofágica.

Fernando Pardal

@fepardal

segunda-feira 10 de outubro| Edição do dia

Foto: Alan Siqueira

O audaz projeto da Companhia Antropofágica de revisitar sua história e todas as suas peças apenas começou, mas já é inesquecível. Sua "Trylogia - Terror e Miséria no novo Mundo" que trata da história do Brasil é sem dúvida um ponto culminante da trajetória do grupo, e me parece impossível assistí-la – não importa quantas vezes o faça – sem se arrepiar da cabeça aos pés.

Suponho que grande parte das cerca de 140 pessoas que estiveram comigo na última apresentação da terceira parte – A Autópsia da República - nesse domingo compartilhem dessa opinião. O público constituía, por si mesmo, um recorte antropofágico muito interessante. Militantes de diversas correntes de esquerda, veteranos da luta dos tempos da ditadura e das lutas teatrais de muitas décadas, jovens secundaristas vindos das escolas onde se espalham as Oficinas do Ator Antropofágico, levando todos estes respectivos parentes, amigos, conhecidos; e mais uma boa parcela de gente que veio das divulgações por todos os meios que se espalha nas bocas e nas redes. O espaço, que normalmente comportaria umas 40 pessoas, abrigou quase quatro vezes mais gente, amontoada e com calor, que por horas se fez cúmplice da dolorosa autópsia da república brasileira.

Na véspera, nas últimas apresentações da parte 1 "Estação Paraíso", e parte 2 "Entre a Coroa e o Vampiro", não eram tantas pessoas, talvez oitenta, mas não menos apertados (apenas não tomando metade do palco, em que o elenco teve que improvisar uma nova forma de fazer a peça, como foi no último dia). Os aplausos efusivos, como algumas lágrimas mais furtivas, abraços e outras manifestações dos que acompanharam o espetáculo deixaram claro que valeu o sufoco de se espremer num espaço que sem dúvida não é o ideal, mas tem o mérito de ser um espaço militante, construído com a luta e a independência artística e financeira de um grupo que vive para seu ofício, e que faz questão de arrumar um espaço a mais, ali, apertado entre um e outro, para todos aqueles que saíram de casa para participar.

Colônia, Império e República: os três momentos históricos que balizam a jornada pela qual Antropofágica leva seu público a refletir e entrar dolorosamente em uma história feita de sangue, miséria e exploração dos trabalhadores, negros, indígenas, mulheres. Uma história com a marca da hipocrisia da classe dominante e de suas instituições, impiedosamente satirizadas, como a Igreja, o Estado, a polícia, a mídia e o exército. Cada risada arrancada ao público tem uma dor amarga das feridas em nossa história, da morte e do sangue de nossos ancestrais explorados em nome de manter a dominação que até hoje pesa sobre nós.

As raízes pelas quais o grupo busca para contar essa história são muitas, recortadas, coladas, refletidas, retrabalhadas. Valendo-se do que há de melhor na tradição do teatro épico, da arte revolucionária, da antropofagia modernista, a Companhia não se detém no limiar de um teatro que vemos com certa frequência, e que poderíamos chamar, talvez, de “academicamente” respeitoso com as tradições da esquerda na arte.

Pelo contrário, o seu respeito à tradição revolucionária artística é justamente o da iconoclastia, de tomar para si as formas, as palavras, as lutas dos que vieram antes de nós, de mesclá-las aos nossos problemas e impasses dos revolucionários contemporâneos, de somar a isso a ácida apropriação crítica da cultura de massas para melhor expressar a miséria e a resistência, e de apresentar isso ao público como um soco no estômago; mas jamais o de quem quer desmoralizar e causar o ceticismo, e sempre o de quem está na linha de frente, batendo em revista o front das palavras e atacando com “a cavalaria do sarcasmo”, que é – como para Maiakóvski – sem dúvida a arma favorita desse seleto grupo de antropofágicos.

Suas soluções não são nem querem ser permanentes, suficientes: sabem, como lutadores cotidianos, que as armas de nossa batalha estão sempre sendo forjadas e reforjadas, que a dialética da guerra de classes é provar uma e outra vez as nossas reflexões e experiências no duro campo de batalha da realidade e uma e outra vez refazê-las. Cenas entram, cenas saem, novas soluções surgem e se vão – inclusive porque as peças da Antropofágica não foram feitas para os museus, mas para a vida, e esta não para e sempre dá novos elementos (golpes, levantes, greves, repressões) que devem entrar em cena. Por isso, não há nenhuma sensação de se estar diante de um “cânone pétreo”, ainda que tenhamos diante de nós, com a Trylogia, uma verdadeira obra prima. Podemos dizer que é, de fato, uma arma de luta que se faz na experiência com o público e com a vida. E é isso, e não outra coisa, o que é verdadeiramente o teatro épico.

As investidas da companhia são assim. Há quem pense que, por estar em uma sede de modesta capacidade em um bairro distante da periferia, ali se encontra uma companhia acomodada com um pequeno público composto por outros grupos de teatro de esquerda e acadêmicos. Engana-se quem procura essa resposta fácil, não apenas porque as incursões para fora do espaço do Pyndorama estão sempre presentes, seja com a Carroça Antropofágica que percorre as ruas, seja com as oficinas nas escolas, seja com a presença em atos de rua, seja com a organização da Feira de Opinião (o maior evento do teatro de esquerda em São Paulo), mas também porque os caminhos para uma arte revolucionária e independente são mais complexos do que seguir uma fórmula pronta, seja a de querer situar-se geograficamente em um lugar mais “popular”, seja a de repetir velhas formas canônicas do teatro épico entre um público ilustrado. Nenhum desses caminhos ilusórios parece seduzir a vontade e o trabalho sempre crítico e autocrítico da Companhia Antropofágica. O que não fará com que não tomem, desta e daquela e ainda de outra dessas vertentes e caminhos, as ferramentas com que compõem seu arsenal.

Zé Carioca, Carmen Miranda, He-Man, Pikachu, personagens de Jaspion, o Conde Capital, a Noiva da Revolução, entre outros, estão povoando uma história com padres inquisitoriais, senhores de escravos, militares torturadores, policiais. E se a cabeça parece pender mais para Brecht, o coração parece gritar mais como Maiakóvski, em versos explosivos que brilham como o sol, que estão encharcados de uma paixão revolucionária arrebatadora. Mas também estão aqui e ali Oswald e Mario de Andrade, a voz pulsante de Joana da “Gota d’água”, que por sua vez já é a antropofagização da Medeia, e tantos outros textos antropofagizados, que na voz da companhia cantam a luta infatigável contra o capitalismo e pela revolução.

Entre as muitas vozes que compõem essa história, vemos cenas que, de forma às vezes sutil, mas contundente – um tapa com luva de pelica – , e outras vezes de forma mais aberta e mordaz deixam ao espectador os questionamentos das respostas que em um e outro momento setores da esquerda deram para os impasses históricos. No discurso pós-moderno do acadêmico que fala em fim da luta de classes e vitória da democracia racial se encaixa bem a dança do “rei da antropofagia” Zé Celso; na boca dos militares treinados para matar são proferidas as palavras de Geraldo Vandré, que é ridicularizado junto com “a esquerda que achou que as flores deteriam os canhões”; a “burguesia progressista” do governo Jango, apoiada fortemente pela esquerda stalinista do PCB, aparece como uma roupagem mais popular para uma mesma fórmula política usada na propaganda de Jânio Quadros; os movimentos culturais cooptados pela década petista se transfiguram em um cômico e impotente “ministério da rebeldia”, mais um produto vendido. São apenas alguns de tantos momentos brilhantes em que uma breve cena, uma imagem cuidadosamente trabalhada com referências recortadas, ruminadas pelo bucho antropofágico, dão conta de contradições imensas e tragédias de nossa história que até hoje nos assombram.

A partir da semana que vem, a programação da Tram(a)ntropofágica segue com as “brasileirinhas”, quatro peças curtas que ficarão em cartaz por apenas duas semanas. Confira na programação da Tram(a)ntropofágica.




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