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ELEIÇÕES NO CHILE

Três pontos-chave para entender os resultados das eleições no Chile

No domingo, 19, se realizaram as eleições presidenciais e parlamentárias no Chile. Os resultados foram um verdadeiro choque e romperam em poucas horas as perspectivas que haviam sido feitas durante a campanha.

sexta-feira 24 de novembro| Edição do dia

Foto: Radio UChile

Houve duas surpresas fundamentais. Em primeiro lugar, a Frente Ampla, a coalisão de esquerda referenciada nos novos fenômenos reformistas a nível mundial, como Podemos, conseguiu uma histórica votação. Sua candidata presidencial, Beatriz Sánchez, chegou a conseguir 20% dos votos e a coalisão obteve 20 deputados e um senador.

Em segundo lugar, a direita recebeu um balde de água fria. Ainda que tenha conseguido aumentar levemente sua representação parlamentária, Sebastián Piñera obteve menos do que o esperado. O segundo turno será com Alejandro Guillier, candidato que se autodefiniu como o continuador de Michelle Bachelet – atual presidente –, e o resultado ainda se encontra completamente em aberto.

Ainda que resulte fundamental saber quem será o próximo presidente do Chile para ser possível fazer uma análise mais afinada do panorama político chileno, a certeza é que os resultados deste domingo já marcam um ponto de inflexão. O sistema de partidos que dominou desde o fim da ditadura sofreu uma mudança profunda. O bipartidismo se afundou e o parlamento estará composto por três forças: a direita, a social-democracia e o neorreformismo.

Esses são alguns dos pontos-chave para entender os resultados do domingo passado e as perspectivas que então se abrem.

Um tapa-boca ao triunfalismo e a ofensiva ideológica da direita

A votação de Sebastián Piñera foi bem menor do que se esperava. Inclusive, muitos pensavam que ele poderia ganhar no primeiro turno. O que é certo é que a votação do candidato do Chile Vamos, somada à do pinochetista José Antonio Kast (que surpreendeu ao se localizar em quarto lugar com 8%), não superou a expectativa de uma votação histórica da direita. Por outro lado, ainda que a direita tenha conseguido aumentar um par de postos parlamentários, não conquistou a maioria em nenhuma das duas câmaras.

A direita e os grandes empresários, tanto a nível nacional como a internacional, realizaram uma campanha ideológica raivosa e triunfalista. A popularidade de Piñera nas pesquisas demostrava que no Chile se vivia uma virada à direita (como celebrava meios de comunicação como o El País), que a maioria rechaçava as reformas – como a reforma deste ano, de legalização do aborto em três circunstâncias –, que a “modernização capitalista” tinha triunfado, etc.

Mas o que ficou claro é que a direita é só a primeira minoria. E mais importante ainda, a emergência e consolidação da Frente Ampla demonstra inequivocadamente que a reconfiguração do mapa político não tem um signo unidirecional, e sim, polar.

E que muitos votantes decepcionados com a Nova Maioria não a abandonaram pela direita ou pedindo moderação, e sim, se dirigiram à Frente Ampla, respaldando demandas como o fim do sistema privado de pensões e a educação gratuita.

Dessa forma, ainda que se mantenha totalmente aberta a possibilidade de que Piñera volte ao governo, a direita não será hegemônica e pela esquerda se intensificarão os fenômenos políticos e sociais.

A Frente Ampla: um neorreformismo que se consolida na América Latina

O debilitamento dos partidos do “extremo centro” e a emergência de novos fenomênos políticos pela esquerda e pela direita é uma tendência que se deu em diversos países do mundo. Na América Latina, entretanto, o que primou é o fortalecimento das direitas regionais, produto da crise dos projetos pós-neoliberais que tiveram seu auge a princípios desse século. De todas as formas, em um contexto de incerteza econômica e política a nível internacional, esses governos de direita são instáveis.

No Chile essa instabilidade se viu nos limites à direitizacão que descrevemos e a emergência da Frente Ampla como novo fenômeno reformista. A coalizão de esquerda é uma das expressões políticas – sobretudo das camadas médias – que arrojou o Chile de 2011, ou seja, um país com forte protagonismo nas ruas, que questionou os aspectos mais fortes da herença da ditadura e abriu uma crise no regime político.

Com uma bancada de 20 deputados (que representa 13% do parlamento), um senador e uma candidata presidencial que conseguiu apenas dois pontos a menos que Alejandro Guillier, a Frente Ampla se consolida como terceira força nacional. A coalizão dirigida por Giorgio Jackson, ex-dirigente estudantil, reúne organizações de esquerda, humanistas, progressistas, liberais, entre outros.

Hoje enfrenta uma prova de fogo: apoiará o candidato da Nova Maioria no segundo turno? Por hora, tudo indica que realizarão um chamado explícito ou implícito a favor de Guillier, mas ainda não prima a postura de não participar de seu eventual governo. A Frente Ampla realizou uma campanha que, ainda que de esquerda, foi bastante moderada, centrada na necessidade de uma renovação política. Os grandes ganhadores da jornada foram os setores moderados da Frente Ampla, com Revolução Democrática à cabeça, em que seus setores de esquerda saíram golpeados, não ganhando nenhum posto.

Assim, se a Frente Ampla emerge como principal referente de esquerda, muitos de seus votantes não se sentem identificados com a política de Giorgio Jackson. Ainda que em outra escala, a importante votação do Partido de Trabalhadores Revolucionários (parte da Fracão Trotskista pela Quarta Internacional, sendo organizacão irmã do MRT do Brasil), que realizou candidaturas anticapitalistas em Santiago e em Antofagasta, constitui uma base importante para impulsionar um projeto operário e socialista, mirando construir um partido revolucionário da classe trabalhadora no Chile.

As candidaturas anticapitalistas, além de apresentar um programa transicional, desenvolveram um discurso político claro em relação à Frente Ampla, no sentido de dar conta que a aposta estratégica dessa coalizão se centra em realizar um pacto entre a esquerda e o progressismo patronal para empurrar reformas parciais, caminho que historicamente caracterizou o Partido Comunista e que durante anos levou a fracassos e frustrações.

Em sua primeira experiência eleitoral, o PTR obteve 13 mil votos a nível nacional, com Dauno Tótoro chegando a 1,7% no principal distrito do país, e com uma lista parlamentária em Antofagasta que obteve quase 3% da região.

Fim do bipartidismo, o afundamento do centro e as tendências à polarização política

Outro dos dados-chave das eleições foi o afundamento do centro político. A Democracia Cristã (DC), que decidiu apresentar pela primeira vez uma candidata própria por fora do acordo com o Partido Socialista (PS), ficou especialmente golpeada. A candidata Carolina Goic saiu em quinto lugar e a DC retrocedeu em sua representação parlamentária. Os grupos de centro que surgiram fruto de quebras com a direita, tiveram resultados ainda piores. Figuras históricas da velha Concertação perderam a reeleição e Ricardo Lagos ficou sepultado como líder de uma eventual reconfiguração da centro-esquerda baseada no eixo PS-DC.

O parlamento ficou dividido em três grandes blocos: a direita com Chile Vamos; a social-democracia patronal, representada pelo PS e pelo Partido Progressista (PP); e o neorreformismo da Frente Ampla. O afundamento do centro, a inesperada votação de José Antonio Kast (ex-dirigente da UDI, pinochetista declarado e que lancou sua candidatura com apoio da “família militar”) e a consolidação da Frente Ampla, delineiam um mapa político polarizado, em que o clássico bipartidismo noventista chileno terminou.

Os resultados do segundo turno terminarão de completar o cenário. Mas o que já é seguro dizer é que se abre uma nova etapa na história política do Chile, que no imediato está marcada pela instabilidade política, pela falta de uma hegemonia política clara e por um novo impulso do debate ao interior da esquerda. Essas brechas podem ser um caldo de cultivo para a re-emergência dos fenômenos de luta de classes e mobilização, com um movimento estudantil que, ainda que venha em retrocesso, não foi derrotado, e um movimento operário marcado pelo debilitamento de suas direções históricas.




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