Sociedade

COLAPSO NO SISTEMA FUNERÁRIO EM MANAUS

Tragédia: em Manaus, população abre caixões para conferir corpos e urubus sobrevoam valas

A situação é terrível no cemitério do Tarumã. Familiares tem de checar se corpos não foram trocados, e o cheiro dos cadáveres em decomposição atrai urubus sobre as valas comuns onde as vítimas da COVID-19 estão sendo enterradas.

Fernando Pardal

@fepardal

quinta-feira 30 de abril| Edição do dia

Foto: Yan Boechat/Yahoo Notícias

O devastador cenário de calamidade e a imensa tragédia humana que o capitalismo está criando em meio ao cenário da pandemia do coronavírus é aterrador. No cemitério Tarumã, em Manaus, vemos cenas fortíssimas dessa tragédia alentada pelos governos.

A quantidade de corpos é tamanha que os familiares temem que sejam trocados os cadáveres de seus familiares, e estão descumprindo a orientação de saúde de que os que morrem por COVID-19 fiquem isolados para evitar contágio. Assim, os familiares estão abrindo os caixões para conferir se estão realmente enterrando seus parentes.

A imensa fileira de caixões, com uma precária identificação feita por meio de um papel colado neles, aguarda sua vez de ir para a vala comum que foi preparada para receber as vítimas da pandemia e do descaso dos governos. O aumento nas mortes foi de 300% no sistema funerário de Manaus, que, como os hospitais, está totalmente sobrecarregado. Os corpos chegam a ficar tanto tempo aguardando para serem enterrados que começam a se decompor, exalando o cheiro de podridão que atrai os urubus que sobrevoam as valas. São 150 sepultamentos por dia, e as câmaras frigoríficas dos hospitais e cemitérios já não dão mais conta.

Há poucos dias, uma família foi obrigada a peregrinar pelos hospitais e cemitérios para conseguir localizar o corpo de um parente: “Eu não vi meu pai desde que ele entrou no hospital, precisávamos conferir para não correr o risco de enterrar outra pessoa”, contava Dilce Ferreira dos Santos, de 47 anos. Seu pai, Álvaro Silva dos Santos, de 77 anos, ficou internado em um hospital de Manaus por duas semanas, até sua morte no sábado passado. Segundo um funcionário do cemitério, esse foi um dos motivos para que as pessoas passassem a abrir os caixões e conferir se estavam enterrando a pessoa certa: “Depois do que aconteceu o pessoal quer ter certeza de que está enterrando a pessoa certa. Não é o certo, mas do jeito que está a coisa, estamos deixando para evitar problema”. Sem os procedimentos da tanatopraxia (a preparação de cadáveres para enterros), os parentes encontram seus entes queridos com os corpos inchados, com líquidos vazando pelas cavidades, além do eventual cheiro de apodrecimento pela falta de conservação adequada.

Essas cenas terríveis e trágicas em Manaus são a expressão mais gráfica de como para os capitalistas nossas vidas não valem nada. Enquanto Bolsonaro responde “e daí?” para quem lhe questiona sobre as mais de cinco mil mortes, e empresários defendem a reabertura dos comércios visando seus lucros, os trabalhadores e o povo passam por situações totalmente degradantes e desumanas como essas que figuram nas linhas acima. Um sistema social e econômico que impõem esse tipo de coisa para as pessoas não merece existir.




Tópicos relacionados

Coronavírus   /    Amazonas   /    Capitalismo   /    Sociedade

Comentários

Comentar