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“Trabalho num CAPS AD tenho enfrentado um grande desafio para me manter no curso EAD”

Durante a pandemia da Covid-19 estudantes da Universidade Estadual de Campinas têm de se desdobrar para dar conta do curso EAD em meio a outras demandas geradas a partir da crise que atravessamos. As medidas tomadas arbitrariamente pela reitoria excluem parte dos estudaantes que têm de se dividir entre trabalho e estudo, aprofundando as desigualdades fortemente presentes em nossa sociedade. Veja o relato de Bruno, estudante trabalhador, ingressante do curso de Pedagogia na Unicamp.

sábado 2 de maio| Edição do dia

No dia 16 de março de 2020 o Reitor da UNICAMP, Marcelo Knobel decidiu, de forma arbitrária e autoritária, pela suspensão das atividades presenciais - não essenciais - na universidade, a partir da declaração de pandemia da COVID-19.

Desde então, professores vêm buscando formas de seguir as determinações superiores, cumprir o calendário e fingir uma normalidade incompatível com a realidade de estudantes que são mães, trabalham (muitas vezes em postos precários), cuidam de familiares vulneráveis; muitos desses estudantes não têm estrutura para acessar as aulas on-line e muito menos emocional para se dedicar ao curso nestes moldes.

A reitoria, que desde o início teve conhecimento de um número grandioso de pessoas que dependem dos laboratórios de informática do campus, pois não tem internet em casa ou equipamentos eletrônicos, se comprometeu emprestar aparelhos para estes estudantes conseguirem se conectar e realizar as atividades - como se este fosse o único problema posto pelo EaD. Coube aos próprios estudantes, com um suposto auxílio da Coordenação de cada instituto mapear aqueles que precisam do empréstimo e articular junto à uma comissão de voluntários a distribuição dos equipamentos.

Muitos estudantes não foram contactados por estarem sem acesso ao e-mail institucional ou às redes de comunicação e podem, neste momento, estar desamparados e perdidos no que diz respeito à graduação. Outros, por morar em cidades distantes não conseguirão voltar ao campus para pegar o equipamento, ficando, assim, sem acesso.

No dia 26 de abril, um voluntário da comissão apresentou sintomas da covid-19 e, por segurança, o procedimento foi interrompido até ontem (1), quando a universidade retomou a entrega dos equipamentos. Neste período as atividades acadêmicas seguiram sem preocupação com os que ainda não tinham sido atendidos.

Muitas são as dificuldades que os estudantes vêm enfrentando diante da pandemia e do modelo EaD adotado pelas Universidades. Leia abaixo o relato de um estudante que trabalha na área da saúde atuando na linha de frente do combate ao coronavírus:

“Eu sou Bruno Bonifácio, tenho 27 anos e sou ingressante da faculdade de Pedagogia da Unicamp. Além das obrigações da universidade também trabalho num CAPS AD da cidade de Campinas onde sou Redutor de Danos. Devido a vários fatores tenho enfrentado um grande desafio para me manter no curso devido ao fato de que atualmente as aulas estão sendo continuadas no modelo EAD. Tem sido bastante complicado acompanhar as matérias tendo em mente o fato que as matérias foram parcialmente apresentadas a nós ingressantes (algumas nem tendo sido iniciadas antes da pandemia) e pelo pouco círculo social que tive a oportunidade de criar nos 5 dias de aula que tivemos.

Não estou familiarizado com a instituição e muito menos com as plataformas em que as atividades estão sendo disponibilizadas de maneira fragmentada (cada educador optou por um modelo distinto do outro, alguns não tendo ainda se pronunciado, inclusive) tenho inclusive enfrentado certa dificuldade em me manter informado sobre quais atividades tenho de entregar.

Visto que trabalho na área da saúde meu tempo disponível foi bastante diminuído pela necessidade atual de me fazer mais presente na minha função e em prol das instituições de saúde e da população em geral - o que me toma o tempo que eu poderia disponibilizar pra entender o funcionamento da Unicamp e do curso que iniciei, bem como cumprir com as demandas de cada matéria. Em suma: A pandemia me toma certa parte do tempo necessário para cumprir com minha obrigações na universidade, porém a própria estrutura do ensino EAD pelo menos da maneira como está sendo executada (porque foi instituída às pressas) complica e empobrece imensamente este processo, logo não estou sendo capaz de acompanhar o curso.”

A profundidade dos problemas do EaD e suas consequências é, ainda, inestimada e se expressará no desenrolar da crise. Não podemos aceitar que o cumprimento do calendário de graduação esmague estudantes e aumente ainda mais o abismo das desigualdades existentes, principalmente, em relação àqueles que trabalham. Chamamos os Centros Acadêmicos, o DCE e a UNE a ser parte da luta pelas demandas dos estudantes, por um ensino de qualidade e acessível à todas e todos.




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