Cultura

CENSURA À ARTE

Trabalho de estudante de Artes Visuais da UFMG é censurado dentro da Escola de Belas Artes

Expondo partes discretas dos corpos de mulheres negras com sobrepeso, com pequenas intervenções da autora com linhas e contornos coloridos, as fotografias da aluna Sylvia Triginelli foram alvo de críticas de superintendente da UFMG levando à censura temporária das obras, anulada pela ação de alunos e professores.

Lina Hamdan

Estudante de Artes Visuais na UFMG

sexta-feira 22 de junho| Edição do dia

Parte do trabalho de Sylvia Triginelli (Foto de Lina Hamdan)

Na quarta-feira passada (13) a aluna do primeiro período do curso de Artes Visuais da UFMG, Sylvia Triginelli, montou seu trabalho de finalização da disciplina de Fotografia Básica intitulado "Corpo e arte, parte e cor. Corparte" na entrada do piscinão da Escola de Belas Artes (EBA). Com imagens de mulheres negras com corpos acima do peso, o trabalho motiva reflexões sobre a marginalização destas mulheres por diversas opressões que levam à existência de um tipo de padrão social de beleza que as excluem.


Cartaz colado ao lado do trabalho após censura (Foto de Lina Hamdan)

Ainda na montagem do trabalho, antes do horário de início da aula de fotografia, o superintendente da escola reclamou com a autora e, posteriormente, com o professor da disciplina, que as imagens não poderiam ser expostas no local devido à frequentação de adolescentes menores de idade, estagiários da Cruz Vermelha. O professor, às pressas e de maneira autoritária, deu à aluna duas opções, ambas de censura ao trabalho: retirar as fotos do local para apresentá-las somente no horário da disciplina ou a colocação de folhas de papel manteiga em cima das imagens.


Parte do trabalho de Sylvia Triginelli (Foto de Lina Hamdan)

Alunos e o professor Marcos Hill, presenciaram o momento e começaram a questionar o ato, porém o professor de Fotografia se retirou, afirmando que tinha outros afazeres que impossibilitavam uma discussão naquele momento. Alguns escreveram palavras de ordem em cima das folhas de papel manteiga contra a proibição da exposição das fotografias e, em sequência, retiraram os papéis, expondo as imagens do trabalho. A partir da leitura do Guia Prático de Classificação Indicativa, um cartaz foi escrito elucidando que, pela lei, trabalhos artísticos contendo nudez sem apelo sexual são considerados de classificação livre. Com coordenação espontânea e preponderante de alunos, um diálogo aberto se deu no espaço, localizado no vão central no prédio, com trocas de opiniões e, inclusive, com posterior presença do professor que havia acatado a exigência de censurar o trabalho. Segundo a carta aberta à comunidade acadêmica escrita pelo professor Marcos Hill e divulgada hoje (18) o superintendente foi chamado para participar da discussão.

Negando a integrar-se, este permaneceu ao redor, observando, e, reforçando sua postura reacionária, acionou um segurança para ali permanecer em vigília incabível. Este tipo de postura conservadora e reacionária foi afirmada e alimentada duramente pela direita em 2017, com graves episódios de ataques e censuras à liberdade artística no Brasil, como o da mostra Queermuseu, da peça "O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu” e da exposição "Faça Você Mesmo sua Capela Sistina", que encorajam discursos moralistas e repressores.

Estes discursos visam impossibilitar a manifestação artística realizada na contramão da indústria cultural que objetifica e padroniza os corpos das mulheres e utiliza a força da imagem com uma intenção mercadológica. Diante deste trabalho artístico e deste tipo de censura, é imprescindível a reflexão e o questionamento em relação ao direito a utilizar o corpo como expressão, à fetichização do corpo feminino e sua exploração sexual, à imposição de padrões de beleza, mas também à desigualdade econômica e política entre homens e mulheres, entre brancos e negros, e à violência machista e racista que permanece avassaladora no país. Que os artistas continuem a exigir a completa liberdade e legitimidade artística, se organizando por uma arte verdadeiramente livre e fora dos moldes capitalistas. Pelo fim da estrutura de poder antidemocrática da universidade que ignora a voz da maioria daqueles que a constituem. Que as decisões sobre a utilização do espaço universitário para manifestação artística sejam tomadas a partir da auto-organização dos estudantes, professores e trabalhadores efetivos e terceirizados, com ampla participação da comunidade.

Em ação de repúdio à censura na EBA, alunos "censuraram" a cópia em concreto da Vênus de Milo localizada na frente do prédio (Foto de Sylvia Triginelli)

Veja também: 18 obras com nudez que se fossem censuradas mudariam a história da arte




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