Cultura

CONTO

Trabalhadores na estrada

Nota do autor: este é mais um Conto que aborda alguns dos problemas enfrentados pelos trabalhadores brasileiros do nosso tempo.

Afonso Machado

Campinas

segunda-feira 30 de novembro de 2020| Edição do dia

"ÊXODO", de Lívio Abramo

Simão cortava as pistas do interior de São Paulo como um pássaro de metal. Ele dirigiu por mais de 14 horas seguidas. O caminhão gigantesco dava sinais de cansaço: a máquina sentia falta de ar, a lataria toda suava e os dois faróis estavam ficando vermelhos, com as pupilas desgastadas. O caminhoneiro Simão poderia aguentar mais do que a máquina... Mas o caminhão não era dele: era de uma empresa que o obrigava a percorrer quilômetros e quilômetros num espaço curtíssimo de tempo. Porém, com o palito de dente no canto da boca e o boné encharcado de suor, Simão exclamava:

Simão: - O caminhão é do patrão. Mas quem “ monta “ sou eu!

Depois que pronunciava essa sua frase de efeito, Simão dava uma possante bozinada pela estrada á fora. O velho caminhoneiro decidiu parar numa antiga cantina na beira da estrada. Era uma cantina que ainda não havia sido vendida para as grandes empresas que dominam os restaurantes, as lanchonetes e os postos de gasolina. Era uma cantina que conservava características de décadas atrás: o chão vermelho, as cadeiras de palha, as mesas com toalha de plástico abrigando azeite, pimentas fortes, paliteiro e saleiro. O teto do local era coberto por telhas antigas, que combinavam muito bem com o som melancólico de uma moda de viola. Na entrada encontrava-se um cachorro preguiçoso deitado no tapete, que dava mordidas em mosquitos. Do lado de fora havia o cheiro insuportável de mijo do banheiro localizado atrás do restaurante, num terreno feito de terra batida. Simão, encostado no balcão, devorava uma esfirra apimentada. Na frente da cantina duas crianças brincavam com um pneu velho de automóvel. Era uma atmosfera vertiginosa envolta em poeira, narizinhos sujos de terra e catarro, lágrimas de quem perdeu a brincadeira ou ralou o joelho, galinhas cacarejando ao longe e veículos zunindo pela rodovia.

Aline terminava sua quinta garrafa de cerveja. Ela pegou sua trouxinha( um velho lençol alaranjado que continha um par de sandálias gastas e algumas poucas peças de roupa). Ela olhava de lado para Simão, que sorria maliciosamente e desagradavelmente na direção da moça. Aline pensou em pedir carona mas ficou com receio. Ela pretendia ir para Campinas, trabalhar na cidade. A moça era uma camponesa que trabalhou durante anos cortando cana de açúcar. Ela foi mandada embora da usina depois que as sofisticadas máquinas chegaram. Ela pensava olhando fixamente para a rodovia:

Aline : - Aquelas máquina corta a cana mais rápido do que eu. Essas marditas dessas máquina deve de estar vestida com vestidos bonitos. Essas máquina deve de ter batom do bom nos botões, deve de ter sapato de luxo no lugar das roda. Elas deve comer carne todo dia, beber guaraná e dançá na hora da forga.

Aline reparou que um rapaz se aproximava da cantina. Ele vinha cansado, a camiseta ensopada de suor e a bermuda jeans toda surrada. Seu nome era André, um trabalhador que durante algum tempo fez muitas entregas por Aplicativo. O rapaz entrou e pediu um refrigerante. Cumprimentou Simão que logo veio puxar conversa. André comentou que vinha de Campinas e que por lá arranjar emprego não estava fácil. Aline aproximou-se e perguntou a André:

Aline: - Moço, eu tô me aprontando para ir pra Campinas tentá a vida e você me diz que num tem emprego?

André: - Ah menina, tá difícil... Com o dinheiro das entregas da semana, que não eram poucas, não consegui pagar a minha pensão. Parece que a coisa tende a piorar: um amigo me disse que daqui uns tempos as empresas irão realizar entregas usando drones. Vai ter muita gente desempregada... Eu vim tentar a vida no sertão, talvez cortar cana.

Aline : - Esquece moço! As usina só usa máquina nova.

André ficou parado, decepcionado. Ouvindo tudo, Simão fez um comentário:

Simão: - É isso aí meu filho... Num tem laranja bonita na beira da estrada. Quando tem, a laranja tá cheia de marimbondo.

Simão jogou o último pedacinho da esfirra para o cachorro estirado na entrada e seguiu viagem.




Tópicos relacionados

Trabalhadores   /    Literatura   /    Cultura

Comentários

Comentar