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Trabalhadores fecham portos na costa oeste dos EUA em apoio às revoltas em todo o país

Trabalhadores membros da International Longshore and Warehouse Union (ILWU) (Sindicato Internacional dos Trabalhadores Portuários e de Armazéns - em português) estão à frente de um dia de ações em solidariedade aos movimentos contra o terror policial nos EUA. Os trabalhadores irão fechar 29 portos na costa oeste dos Estados Unidos. Uma paralisação histórica, em pleno Juneteeth.

sexta-feira 19 de junho| Edição do dia

“Os trabalhadores têm mais poder do que muitas pessoas nesse país entendem. É por isso que que iremos demonstrar esse poder: erguer as vozes dos trabalhadores, erguer as vozes das pessoas negras nesse país. Para exigir e fazer justiça para George Floyd.”

Essas foram as palavras de Keith Shanklin, a primeira presidente negra da filial local 34, em Oakland, do Sindicato Internacional dos Trabalhadores Portuários e de Armazéns (ILWU – na sigla em inglês) [A International Longshore and Warehouse Union é um sindicato que representa trabalhadores portuários na costa oeste dos EUA, mas também no Hawaii, Alaska, na Columbia Britânica no Canada e Panana] e uma das organizadoras da maior paralisação coordenada da ILWU em mais de uma década que acontece hoje. Por ocasião do Juneteeth [19 de Junho de 1865, dia em que os escravos no Texas foram informados pela primeira vez do fim oficial da escravidão no país, dois anos depois que a Proclamação da Emancipação passou a valer], membros da ILWU estão paralisando por oito horas todos os 29 portos da costa oeste, de San Diego até Seattle. Nenhuma carga será recebida nas docas, nenhum caminhão sairá das docas para entregar nada. Espera-se que mais de 58 mil trabalhadores participem. Como a declaração de Shanklin deixa claro, esse evento histórico não é apenas uma incrível demonstração de solidariedade com os levantes contra o terror policial que varrem todo os EUA, mas é um momento decisivo da participação dos trabalhadores nos movimentos até agora. Essa é a maior ação coordenada realizada por um sindicato em apoio direto ao movimento do Black Lives Matter, trazendo a luta contra o racismo institucional para um novo front.

Começando a partir das 8h da manhã os estivadores irão baixar suas ferramentas de trabalho e se juntar a um dia de ações, participando de marchas e comícios junto com outras organizações ao longo da costa oeste. Embora as mobilizações do Juneteenth tenham começado exigindo justiça para George Floyd, como os levantes que acontecem em todo o país, elas acabaram incluindo demandas mais amplas contra o racismo e a violência estatal. Como podemos ver na nota a imprensa publicada pelo sindicato:

“No dia 19 de Junho, os trabalhadores da ILWU e seus sindicatos locais de norte a sul da Costa Oeste irão agir contra o racismo, o ódio e a intolerância neste momento sem precedentes em que vivemos, em meio a uma pandemia global, instabilidade nacional – agravada por um presidente que semeia as sementes da desunião para seu próprio benefício –, e o racismo sistêmico desnudado pelo brutal assassinato de George Floyd.”

A ação do dia de hoje junta explicitamente a luta contra o terror policial com a luta contra o racismo estrutural arraigado na história dos EUA e em suas instituições. Racismo que foi exposto para o mundo inteiro em meio a uma crise econômica e uma pandemia sem precedentes. Em Seattle, trabalhadores irão se juntar em uma marcha com organizações comunitárias e a MLK Labor – o sindicato que recentemente votou a expulsão dos policiais de suas fileiras – em direção ao Seattle Department os Corrections (órgão que administra o sistema prisional) em solidariedade às “vítimas da justiça criminal que estão encarceradas” e que são obrigadas a trabalhar para companhias milionárias recebendo salários ínfimos e sem equipamentos de proteção apropriados. Em Oakland, trabalhadores se juntarão a manifestações por toda a cidade que marcharão em direção a sede do governo municipal, onde Angela Davis e o diretor de cinema Boots Riley discursarão.

A paralisação está sendo encabeçada pelas filiais locais do ILWU, 10, 34, 75 e 91, assim como pelo Comitê Contra o Terror Policial do sindicato. Essas filiais, muitas delas presididas por figuras negras ou então majoritariamente compostas por trabalhadores negros, têm uma longa história combativa e de compromisso com a luta anti-racista e a luta negra. Antes de organizar as ações desse Juneteeth, essas filiais lideraram outras filiais da ILWU em uma paralisação de nove minutos no dia 8 de junho em memória a George Floyd. Paralisando todo o trabalho pela mesma quantidade de tempo que o policial assassino, Derek Chauvin, ficou ajoelhado sobre o pescoço de Floyd.

Mas essa não é a primeira vez que a ILWU organiza ações de protesto contra a brutalidade policial. Em Oakland, em 2010, os trabalhadores portuários fecharam o porto da cidade depois que um policial atirou em Oscar Grant, um jovem de 22 anos, em uma plataforma do metrô. O sindicato fechou vários portos novamente no 1° de maio de 2015 após um policial assassinar Walter Scott na Carolina do Sul. Mas se tratando de uma mobilização organizada por um sindicato ou movimento trabalhista a paralisação de hoje é de uma proporção que não era vista há décadas. Mais do que isso, se trata de um desafio direto por parte dos trabalhadores da base às decisões tomadas pelos grandes sindicatos – incluindo as da AFL-CIO [Federação Americana do Trabalho e Congresso de Organizações Industriais, uma das maiores centrais sindicais dos EUA] – que protegem os sindicatos de policiais. Mas os membros da ILWU sabem que os policiais defendem as leis racistas do estado capitalista e, portanto, sabem que eles não são amigos dos trabalhadores. Jack Heyman, estivador aposentado e membro da ILWU disse ao portal de notícias The Nation: “se você olhar os estatutos das filiais locais da ILWU verá que muitos deles explicitamente banem policiais de serem membros. Isso porque a polícia tem sempre sido utilizada como instrumento contra o povo trabalhador.”

Mas as raízes da luta da ILWU contra a polícia e o racismo são ainda mais profundas, vão até o nascimento do sindicato. A ILWU foi fundada durante uma greve de 83 dias dos estivadores na costa oeste que lutavam por melhores condições de trabalho e a possibilidade de formar um sindicato. No meio da greve, durante um confronto entre grevistas e bate-paus contratados pelas companhias, a polícia atirou em direção a multidão e matou seis trabalhadores. Toda a comoção desencadeou a histórica greve geral de 1934 em São Francisco e, eventualmente levou à fundação da ILWU em 1937. Enquanto muitos sindicatos baniam trabalhadores negros de fazerem parte de suas fileiras, muitas filiais locais da ILWU eram formadas por trabalhadores negros e brancos, lutando lado a lado por melhores condições de trabalho.

A ILWU manteve seu legado militante de unificar as lutas trabalhistas com movimentos sociais mais amplos em todo o mundo. Desde se negar a processar bens provenientes da África do Sul durante o Apartheid até se recusar a descarregar carregamentos destinados a Itália de Mussolini em suas incursões na Etiópia, os trabalhadores portuários mostraram o incrível poder que a classe trabalhadora tem para parar as operações que movem as máquinas de lucro do capitalismo. Em sua história mais recente e ILWU realizou protestos que ficaram famosos na California contra a guerra no Iraque, e, em solidariedade a Palestina, se negando a descarregar embarcações vindas de Israel.

A paralisação de hoje é mais um novo capítulo nessa história, que é ainda mais significante por acontecer no Juneteeth, dia em que os escravos no Texas foram informados pela primeira vez do fim oficial da escravidão no país, dois anos depois que a Proclamação da Emancipação passou a valer. É uma data simbólica tanto do racismo imbricado no passado e presente dos Estados Unidos quanto da história heroica da luta anti-racista liderada por negros e radicais por gerações e gerações.

As paralisações de hoje, nesse contexto dos levantes atuais – que expuseram o coração podre e racista do capitalismo estadunidense – têm o potencial de marcar a abertura de uma fase crucial nesse momento histórico. Uma fase que liga a luta contra a violência policial e o racismo estrutural nas ruas com o poder estratégico dos trabalhadores no movimento trabalhista. Apenas esse dia de protesto vai custar às companhias estadunidenses e ao estado, que defende seus lucros, bilhões de dólares. Imagine o que poderia acontecer se os trabalhadores portuários, os trabalhadores do transporte e de outros setores estratégicos paralisassem por todo o país e se juntassem às centenas de milhares de jovens protestando pelo país. Tal aliança golpearia em cheio, onde mais dói, esse sistema de exploração que lucra sobre as vidas negras ao redor do mundo.

Para que esse movimento continue ações como essas, de lutas contra a polícia e o estado, contra as burocracias sindicais corruptas que defendem os sindicatos policiais, são vitais. Como Trent Willis e Keith Shanklin, membros do ILWU, escreveram à presidência do ILWU: “É urgente que os sindicatos respondam ao aumento do racismo. É, de fato, uma questão de vida ou morte.”

texto original do Left Voice




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