Internacional

FRANÇA

Trabalhadores do McDonald’s tomam uma unidade em Marselha para distribuir alimentos em bairros populares

Trabalhadores do McDonald's em Saint-Barthélemy, em Marselha, França, tomaram as instalações do estabelecimento, que estava fechado, para distribuir alimentos para a população pobre.

terça-feira 14 de abril| Edição do dia

Desde o início da crise sanitária, a população dos bairros do norte de Marselha, na França, já extremamente precários, caiu em situação de miséria. Os distritos do norte de Marselha têm uma taxa de desemprego de 25,5% (em comparação com a média nacional de 8,5%) e 39% da população vive abaixo da linha de pobreza.

A quarentena afetou principalmente a população que trabalha informalmente. Uma onda de demissões e suspensões de salários fez com que muitas famílias já não possam de atender suas próprias necessidades básicas, como alimentação.

Muitas associações e coletivos de bairro começaram a distribuir pacotes de alimentos para os mais necessitados. Todos os dias, mais e mais pessoas pedem sua ajuda: o coletivo "Casa Branca" passou da distribuição de 50 pacotes para a distribuição de 400 em uma semana. Nair Abdallah, um membro deste grupo, diz que: "No início, estávamos isolados, passaram-se 4 ou 5 dias e, quando vimos a quarentena se extendendo, decidimos voltar ao bairro. As famílias começam a nos dizer que não comem mais nada. Por exemplo, uma mãe explicou que ela só comeu sopa de cebola com seus três filhos por mais de três dias ".

“Nesse estado de emergência, se não somos protagonistas em nossos bairros, quem será?”

As palavras são de Kamel Guémari, membro do sindicato “Força Operária” e trabalhador da filial do McDonald’s no bairro de Saint-Barthélemy, onde os trabalhadores decidiram assumir as instalações e colocá-las a serviço de sua comunidade com o apoio de grupos e associações como o Sindicato dos bairros populares de Marselha.

Os alimentos enviados por comerciantes, residentes ou pelo banco de alimentos são armazenados no armazém frigorífico. O restaurante é usado para preparar e distribuir pacotes de alimentos. Os alimentos são distribuídos diretamente nos corredores dos prédios ou em frente aos apartamentos, respeitando as medidas sanitárias.

#McFraude Mundial

A empresa se opôs à ação e a condenou. Ralph Blindauer, advogado dos funcionários locais, declarou a jornalistas da mídia local “A Marselhesa”: "Gostaríamos de fazê-lo em acordo com o McDonald’s França, mas eles se recusaram" e acrescentou: "Eles são desprovidos da menor humanidade, por isso que os trabalhadores decidiram ignorá-los". A administração da McDonald’s na França se posiciona como um obstáculo para fornecer soluções aos mais desfavorecidos diante da crise. Os trabalhadores são os únicos que podem contribuir para aliviar a situação dramática que os habitantes de Marselha estão enfrentando, usando todos os recursos disponíveis.

De fato, a empresa não é conhecida por sua humanidade. A multinacional anunciou há uma semana que deseja retomar sua atividade em restaurantes de self-service e delivery, independentemente da saúde de seus trabalhadores.

Se o retorno ao trabalho é feito de maneira voluntária, Massamba Dramé, delegado do Sindicato dos Hotéis e Restaurantes (SUD) de Paris, diz que "os funcionários que se recusarem a voltar ao trabalho serão rotulados como inimigos da administração, correndo o risco de retaliação". A empresa é conhecida pela perseguição de funcionários considerados "indesejáveis". No ano passado, um meio de comunicação independente (Marsactu) revelou como o McDonald’s havia pago € 25.000 em um falso testemunho contra Kamel Guemari para demiti-lo.

Vender hambúrgueres para engordar os bolsos dessa multinacional não é essencial, mas sim colocar sua produção e infraestrutura a serviço dos setores populares, como fizeram os trabalhadores de Marselha, é uma resposta à crise econômica e de saúde.

O McDonald’s opera com os mesmos princípios em todo o mundo e é um símbolo internacional do que o capitalismo propõe à juventude. Na Argentina, seus trabalhadores popularizaram as hashtags #McEstafa [#McFraude, NdT.] e #PandemiaSonLosEmpresarios [#PandemiaSaoOsEmpresarios, NdT.], protestando contra a redução de salários durante a quarentena, mostrando uma realidade que afeta milhares de jovens que trabalham precariamente. Enquanto a empresa pressiona para retomar suas atividades, milhares de jovens ainda não receberam respostas do Estado e ainda não receberam todo o seu salário.

Diante da crise da saúde, quando os empregadores desejam reabrir e reiniciar a produção não essencial às custas da saúde de milhares de funcionários, os funcionários do McDonald’s em Marselha recuperaram suas ferramentas de trabalho para colocá-las a serviço da população. Eles estão na melhor posição para reorganizar a distribuição, não para o benefício dos empresários, mas para o dos trabalhadores. Eles são um exemplo para aqueles que nessas latitudes também se organizam diante dos ataques dos próprios empregadores.




Tópicos relacionados

Coronavírus   /    França   /    Internacional

Comentários

Comentar