Sociedade

ESPECIAL DIA DA LUTA ANTIMANICOMIAL

Trabalhadoras da saúde mental falam sobre atendimento na pandemia com cortes dos governos

Em meio à pandemia do coronavírus, esse Dia de Luta Antimanicomial marca a busca por novas formas de atendimento mas também o combate aos ataques e retrocessos dos governos. Veja depoimentos de duas trabalhadoras da saúde mental do Rio de Janeiro.

segunda-feira 18 de maio| Edição do dia

Em mais um dia 18 de maio, Dia Nacional da Luta Antimanicomial, dia marcado por um processo de luta, há décadas, que trabalhadores, usuários e familiares protagonizaram para acabar com os manicômios e construir outras formas de cuidado que tivessem como perspectiva a liberdade. São mais de 30 anos da luta pela Reforma Psiquiátrica, e, além dos desafios já existentes colocados para todos aqueles que têm como perspectiva o fim dos manicômios, como a própria precarização da saúde, a falta de investimentos, e os limites estabelecidos por uma sociedade dentro de um sistema capitalista que se baseia no lucro e não garante as condições mínimas para a maior parte da população de viver e ter liberdade de ser quem quiser. Hoje, em meio à pandemia, a situação é ainda mais drástica, tanto para os trabalhadores da saúde mental, quanto para os usuários que necessitam dos cuidados ofertados nos serviços de saúde mental como CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), CAPSad (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas), UAA (Unidade de Acolhimento Adulto). Estes já tinham suas vidas marcadas pelo estigma de serem intitulados como loucos, perigosos e improdutivos – que, no Brasil, principalmente no Rio de Janeiro, é reforçado pelo racismo, já que grande parte da população que acessa esse serviço é negra.

Neste dia, reforçamos nossa luta por uma sociedade sem manicômios, mas também sem opressão e exploração, o que somente pode ocorrer pelo fim do capitalismo, e trazemos relatos de trabalhadoras da saúde mental que estão na linha de frente, colocando sua vida em risco para garantir o cuidado dessa população.

“O maior desafio tem sido cuidar em liberdade quando o que está posto é o isolamento social. Como produzir e garantir espaços de cuidado que mantenham o vínculo, o cuidado em saúde mental, a potência do território. A grande demanda foi essa: como cuidar em liberdade quando o cenário é o de isolamento?

Fizemos um levantamento de 70 usuários que demandam maior intensividade do acompanhamento e prestamos assistência a eles por meio do monitoramento telefônico; eles recebem ligações semanais e quinzenais, como forma de manter o vínculo. Cada residente está com 5 a 7 usuários que quinzenalmente roda – para não ficar a questão do técnico de referência, o objetivo é manter o vínculo com o CAPS e não com o profissional. Isso demandou toda uma reorganização do serviço, criação de prontuários online, para que as pessoas alimentem e todos acompanhem o que tem sido produzido nessas ligações. Isso tem forçado o serviço a estar mais perto das Clínicas da Família e também da rede intersetorial, visto o aumento da vulnerabilidade social (alimentação, por exemplo). Logo, tem protocolos que não conseguimos seguir, por exemplo deixar de fazer Visita Domiciliar e Visita Institucional, impossível, quando você precisa fazer Visita Domiciliar às vezes para saber até se a pessoa está viva, ou para articular o cuidado com os familiares e pessoas do território, e Visita Institucional com as Clínicas da Família a casos de alta que demandam articulação. O profissional se coloca em risco, essa é a verdade, [indo a um] possível lugar de contaminação, mas para garantir o mínimo do cuidado e da potência do território. Precarização das relações que eles possuem, o empobrecimento na forma como se relacionam com o mundo, por outro lado tem apresentado potentes arranjos, como eles vão se organizando e se reorganizando, e como ainda perpetuamos em práticas que tutelam. Mas isso tem possibilitado conhecer famílias e redes de cuidados que nem sabíamos que existiam, de usuários que se apresentavam cotidianamente no serviço e não acionávamos essa potência deles no território na vida. Mas mesmo com esses novos arranjos, a presença do CAPS ainda é fundamental, para auxiliá-los no diálogo com esses atores, emprestar nosso lugar institucional a eles.”

A. B. Trabalhadora de CAPS do RJ

“Os serviços de saúde públicos no Brasil sempre suportaram grande volume de atendimentos qualificados, diagnóstico e acompanhamento da população. Nesta pandemia, a função do SUS ficou clara e evidente para os brasileiros, principalmente a falta de recurso e investimentos da União, estados e municípios na saúde. Os serviços públicos de saúde são portas abertas para o primeiro socorro de quem tem sintomatologia indicativa do novo Coronavírus. Na saúde mental, os serviços que constituem a RAPS (Rede de Atenção Psicossocial) permanecem nos acompanhamentos aos seus usuários que, com a pandemia, tem favorecido o adoecimento psíquico à população que necessita cumprir o distanciamento ou isolamento social. 

A importância do acompanhamento em saúde mental e a necessidade de diminuir a circulação das pessoas pela cidade tem se mostrado um desafio para os serviços de saúde mental onde nem sempre o usuário tem condição de higienizar-se, alimentar-se, se não for por meio desses serviços. As equipes têm se reinventado para cuidar mesmo à distância, por meios de atendimentos telefônicos, on-line, compartilhamentos nos grupos de mídia ou priorizando, quando no serviço de saúde, atendimentos nos locais externos. Os usuários têm colocado o quanto tem sido difícil viver e sobreviver na cidade tanto por questões subjetivas quanto pela diminuição dos afetos, vínculos construídos, que diante da pandemia não estão próximos ou pela dificuldade de recursos necessários, como acesso ao lazer, cultura, retirada de documentos por exemplo.

Além disso, a situação dos profissionais de saúde que, em meio a tudo isso ainda, lidam com mudanças de OSS (Organizações Sociais da Saúde) que atrasam salários, não pagam o valor corretamente das categorias, falta de insumos necessários e básicos como luvas, máscaras, capotes, precarização que, principalmente no estado e município do Rio de Janeiro, os trabalhadores da saúde vêm combatendo há muitos anos e os governantes não dão respostas eficazes.

Contudo, permanecemos, pois sabemos que muitos precisam dos nossos cuidados, que continuam sendo qualificados mesmo nessa difícil situação. Mas precisamos de condições dignas para realizar o cuidado à população e que garantam a nossa proteção contra o COVID-19.

Sigamos na luta antimanicomial e em favor da vida de todes nós! De uma trabalhadora em saúde mental que acredita no cuidado vivo e territorial.”

C. A. trabalhadora da UAA (Unidade de Acolhimento Adulto) no RJ




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