Teoria

LEGALIZAR O ABORTO

Trabalhadoras à frente pela legalização do aborto mostram o que deveriam fazer os sindicatos

O processo de mobilização pela legalização do aborto na Argentina tem colocado milhares de mulheres e homens nas ruas de todo o país para defender a aprovação dessa pauta histórica do movimento feminista. O grupo internacional de mulheres Pão e Rosas está na linha de frente de batalhar para que essa força que as mulheres vêm expressando conflua com as lutas dos trabalhadores e consiga arrancar o direito às mulheres e avançar por questionar todos os ataques de Mauricio Macri e do imperialismo via FMI.

Mariana Duarte

Estudante de Letras da USP

terça-feira 7 de agosto| Edição do dia

Na Argentina defendemos que a única forma de arrancar os direitos das mulheres, assim como no Brasil, é a partir de uma ampla mobilização nas ruas, mas se organizando por assembléias e espaços de discussão nos locais de estudo e de trabalho, justamente para que se debata um plano de lutas com continuidade a partir da legalização ou não do aborto e para que as pautas e programas para a luta avancem a partir das experiências que as mulheres e homens já vem tendo com o governo e as direções sindicais e dos movimentos.

A única forma que a força da luta das mulheres continue no sentido anticapitalista, é confluindo com uma política dos trabalhadores, independente das variantes pequeno burguesas, dos partidos do regime e superando as direções burocráticas que buscam restringir a luta. Sabemos que as burocracias estudantis e sindicais querem impedir que esse movimento amplo de mulheres conflua com uma estratégia operaria, por isso não querem chamar um dia de paralisação nessa quarta. O Pão e Rosas junto ao PTS (partido irmão do MRT na Argentina) vem exigindo que as centrais sindicais chamem um dia de paralisação, e a partir das agrupações que construímos no movimento operário e estudantil estamos chamamos reuniões de mulheres para lutar nesse dia 8, colocando as trabalhadoras a frente desse processo.

Sabemos que no mundo todo a pauta do direito ao aborto legal, seguro e gratuito, tão importante a todas as mulheres, é, também uma questão de classe. Em nosso país, onde 4 mulheres morrem por dia na prática de abortos clandestinos – das 4, 3 sendo negras - lutar por essa pauta significa lutar contra a criminilização e pela vida das mulheres pobres, que por não conseguirem pagar por um aborto em uma clinica clandestina, são as que morrem na tentativa de interromper a gravidez.

Na Argentina, o Pão e Rosas vem batalhando para que possamos juntar as pautas da legalização do aborto com a luta contra os ajustes de Macri e aqui no Brasil, de Temer, colocando a importância de que a luta em defesa desse direito, pode ser o início de uma mobilização que não enfrente somente os interesses dos velhos grupos conservadores mas também os interesses imperialistas.

Hoje em dia, no Brasil, na Argentina, e também no resto do mundo, a classe trabalhadora se torna cada vez mais feminina. Com a crise capitalista, esse processo se intensifica ainda mais, renegando às mulheres os postos de trabalho mais precários e condições cada vez mais precárias de vida, com o desmonte do sistema de saúde pública, assistência social e do sistema previdenciário.

Nesse processo, ocorreu um encontro com mais de 800 pessoas na fabrica sob controle operário, MadyGraf, para debater como os trabalhadores devem ser colocar a frente dessa luta. Também os trabalhadores ferroviários da estação “Roca” fizeram uma atividade chamando os passageiros à luta, os trabalhadores do Hospital Durand, do Instituto Luis Pasteur e da Dirección General de Musica, convocaram um “pañuelazo” no dia 8. E destacaram aimportância de se organizar nos locais de trabalho e exigir das direções sindicais que convoquem uma paralisação nessa quarta, como disse a trabalhadora, Lidia "temos que ser milhares, por isso para nós é criminoso que tanto a CGT, a CTA, e os sindicatos importantes como ATE e Sutecba, deem as costas à metade da classe trabalhadora. E não chamem uma paralisação para impedir que as mulheres sigam morrendo por abortos clandestinos”.

Os trabalhadores aeroviários também entraram nessa campanha panfletando chamados para o ato. Os trabalhadores do Metro, a partir da agrupação “Bordó”, minoria dentro do sindicato, vem impulsionando assembleias em todas as linhas para garantir que os trabalhadores possam participar desse dia histórico. E está propondo realizar a abertura das catracas das 7 às 9 horas da manha para inaugurar a jornada de luta e mostrar o apoio dos trabalhadores do metro que podem facilitar o translado das milhares de pessoas ao congresso.

Aqui no Brasil também estamos batalhando em cada local de estudo e trabalho para compormos a “maré verde”, no metro de São Paulofoi aprovada a participação na manifestação pela legalização do aborto que ocorrerá dia 08 de agosto em SP. Na USP a assembléia de trabalhadores aprovou um chamado para a construção de uma plenária de mulheres que ocorreu no dia 02 para lutar pela legalização do aborto no Brasil.

Nesse sentido, que exigimos também que as principais centrais sindicais, em especial a CUT e CTB, ligadas ao PT e PC do B, respectivamente, rompam o silêncio em relação a esse tema e a trégua ao governo e organizem a luta nos locais de trabalho e estudo por esta demanda democrática. Essas centrais burocráticas passam absolutamente por fora deste tema e não estão mobilizando nenhuma ação como assembleias, reuniões e plenárias de mulheres nas categorias, nem mesmo há chamado para os diversos atos que terão no dia 08 de agosto no Brasil.

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Porque nosso feminismo é socialista

Na Argentina, os trabalhadores da Madygraf (fabrica sob controle operário) organizaram uma grande assembléia pela luta pelos direitos das mulheres, e contra os ataques à classe trabalhadora de conjunto. Nessa assembléia, falou Andrea D’Atri, fundadora do grupo Pão e Rosas na Argentina e dirigente do Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS). Em sua fala, manifestou justamente como a necessidade de libertar as mulheres está intrisecamente ligada à emancipação da classe trabalhadora, como a opressão machista tem caráter de classe. “Existem duas coisas que o capitalismo não pode eliminar, por mais que arranquemos alguns direitos. Não pode eliminar a exploração, por há milhões de seres humanos explorados em fábricas e empresas para sustentar uma classe dominante, minoritária e parasita com o nosso esforço e nosso trabalho. E a outra coisa que não pode eliminar é todo o trabalho que é feito fora das fábricas, que é feito em nossas casas e que é um trabalho que é necessário para que nós, as exploradas e os explorados que vivemos do trabalho assalariado, possamos ir no dia seguinte trabalhar e seguir sendo explorados novamente. Porque para ser explorados no dia seguinte precisamos comer, precisamos dormir, precisamos nos vestir, precisamos tomar banho, precisamos descansar e ter um pouco de distração. Essas tarefas são feitas por alguém de maneira gratuita, sem cobrar nem um centavo.. A maioria das pessoas que fazem esse trabalho somos nós, mulheres.” Disse ela,

Ressaltando que “não militamos somente para ampliar e conquistar direitos, ainda que nós lutemos por isso também e estamos na primeira fileira da batalha pelo direito ao aborto como estivemos na primeira fileira de muitas outas lutas, por todos os direitos que nos correspondem. Mas nós, socialistas, lutamos por algo mais. Lutamos em todos os lugares onde estamos para semear a ideia de que uma sociedade sem a exploração capitalista, sem a exploração da nossa força de trabalho e sem a opressão das mulheres em seus lares carregando o trabalho doméstico, sem a discriminação e a opressão de muitos outros setores da sociedade, que uma sociedade assim é possível. Para que isso seja possível dizemos, nós as socialistas, que seguramente quem encabeçará essa luta por essa perspectiva são aquelas e aqueles que hoje não tem nada a perder se abraçam essa causa. A única coisa que elas tem a perder se abraçam essa causa são as correntes de exploração e de opressão que nos impõem os capitalistas e esse sistema patriarcal.”

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O movimento de mulheres tem se intensificado cada vez mais e tomado uma série de países pelo mundo. O úlitmo 8 de março no Estado Espanhol, que colocou milhões de mulheres na ruas, as manifestações contra o reacionarismo do presidente Donald Trump nos Estados Unidos e, mais recentemente, a luta massiva pelo aborto na Argentina, que tem impactado diversos países da Améria Latina. Frente a potência que esse movimento internacional tem alcançado, vem também uma ofensiva dos capitalistas em tentar cooptar sua força.

Toda essa ofensiva ideolológica, que tem como objetivo afastar o movimento feminista de uma perspectiva classista e revolucionária, se expressa a partir de uma série de instrumentos, desde propagandas de grandes empresas e bancos como o Itaú, que propagandeiam as mulheres empresárias, até termos como “sororidade” e “empoderamento”, que confundem nossas pautas e colocam como grande saída, a unidade entre as mulheres por fora de uma discussão de classe, como se não fossem esses mesmos empresários e banqueiros que se beneficiacem da opressão de gênero para explorar mais as mulheres, seja pelos menores salários, seja pelo trabalho doméstico gratuito que é renegado às mulheres e que possibilita a reprodução da vida da classe trabalhadora.

Ao identificarmos os homens como nossos inimigos e não a burguesia, acabamos perdendo de vista o real motivo para que a opressão siga existindo, que é o sistema capitalista. Isso não apenas pelo fato de que esse sistema tem como condição a opressão de gênero e raça para continuar existindo, mas também pelo enorme processo de feminização que a classe trabalahdora passou nas últimas décadas, possibilitando que mais da metade do proletariado seja feminino. Sendo assim, passa a ser impossível que possa se realizar uma luta contra o machismo, por fora de uma luta contra a exploração da classe trabalhadora, já que nãp há como conquistar a igualdade entre homens e mulheres em uma sociedade que é necessariamente desigual.

É por isso que desde o Pão e Rosas consideramos que as pautas que reivindicam os direitos das mulheres, não podem se separar de uma luta contra os ataques a classe de conjunto, como, aqui no Brasil, onde a luta contra a continuidade do golpe de 2016, no maior autoritarismo no regime político e na interferência do judiciário nas eleições, deve estar em primeiro plano, junto com revogar toda a agenda do golpe, como a reforma trabalhista – que legaliza inclusive que mulheres grávidas e em amamentação possam trabalhar em condições insalubres – a lei da terceirização, a pec do congelamento de gastos e a tentiva de aprovação da reforma da previdência.




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