COVID-19

Trabalhadora do Hospital da USP explica alguns pontos para enfrentar crise do Coronavirus

Babi Dellatorre

Trabalhadora do Hospital Universitário da USP, representante dos trabalhadores no Conselho Universitário

quinta-feira 12 de março| Edição do dia

Estamos sendo bombardeados pela mídia por uma série de notícias sobre o aumento dos casos de contaminação por coronavírus e como se expande rapidamente pelo mundo, por outro lado nenhuma propaganda sobre o que já se sabe das formas de prevenção e orientação de qual posto de saúde buscar e como proceder. É bem compreensível frente a isso que se difunda um sentimento de pânico, mas precisamos sair dessa rota de impotência que a mídia e os governos nos colocam e discutir profundamente essa questão. Pois sabemos que aqueles que estão à frente dos comitês de crise são os mesmos que nos atacam, não estão preocupados com nossas vidas.

Nem todos os trabalhadores serão dispensados do trabalho e certamente os que trabalham para empresa de aplicativos não. As unidades de saúde precisarão funcionar com seus trabalhadores. Outros serviços também. As pesquisas pra resolver esse grande problema social também precisam continuar.

É bem difícil evitar a circulação de um vírus respiratório, as pessoas sem sintoma circulam e contaminam outras. O desenvolvimento epidemiológico de outros vírus respiratórios demonstra que tem um primeiro momento de contaminação exponencial e depois regride. Existem pesquisas de vacinas e remédios (antivirais) se desenvolvendo, mas possíveis vacinas não servirão para essa epidemia, pois se descoberta, considerando o tempo de teste, só serviriam para uma próxima epidemia. O que sim já deveríamos batalhar pra garantir é uma alimentação de qualidade para todos, para que o organismo de todos os trabalhadores tenha condições biológicas para combater o vírus.

Além de medidas de prevenção como higienizar bem as mãos e evitar contato com boca, olhos e nariz, ter a à disposição álcool gel, é de fundamental importância frente a essa epidemia ter a mais completa garantia de que todas as pessoas que apresentem sintomas suspeitos sejam atendidas, realizem o teste para ter o diagnóstico e tenham liberação remunerada de pelo menos 10 dias para repouso e evitar a contaminação de novas pessoas. Também é adequado um cuidado maior com as pessoas que já tem doenças como diabete, que fazem uso de imunossupressores, porque estas tem maior risco de desenvolver um quadro grave do Covid-19. Talvez para esses trabalhadores poderia já ter licença remunerada imediatamente. Mas é muito importante que essa decisão seja tomada pelos trabalhadores em base a informações sobre a doença, ainda que muita coisa sobre o coronavírus esteja em fase de pesquisa e teste. Por exemplo, está por se confirmar se a quarentena é ou não um mecanismo efetivo. No caso da Itália existe um debate se não foi justamente a quarentena voluntária o que ajudou a disseminar rapidamente o vírus.

E não podemos deixar de ver que muitos governos já utilizaram do pânico construído em torno de epidemias para avançar em medidas mais autoritárias, repressivas e de estímulo a xenofobia. Em alguns, as manifestações foram proibidas.
Por isso é tão importante que todos nós, trabalhadores e estudantes, donas de casa, sejamos sujeitos de enfrentar essa crise social. Os sindicatos, centros acadêmicos devem garantir que as informações científicas, os debates, cheguem aos trabalhadores e toda a população. Deveriam reunir os trabalhadores pra decidir o que fazer. Sim, reunir, sem pânico e alarmismo, explicando como se prevenir. Os trabalhadores da saúde deveriam chamar reuniões nos bairros para dar ampla informação às comunidades.

Além disso, temos que olhar para os setores mais atingidos pela reforma trabalhista e que trabalham nos aplicativos e exigir, todos juntos, que essas empresas se responsabilizem e paguem pelas licenças remuneradas de quem precisar se tratar. Exigir que seja suspenso imediatamente o congelamento de verbas pra saúde e educação, a lei do teto dos gastos, e realize contratações emergenciais de equipes de saúde para colocar em funcionamento toda a capacidade ociosa dos hospitais, das unidades básicas de saúde e reabra os hospitais que foram fechados. E que os hospitais e ambulatórios privados, filantrópicos, controlados por planos de saúde, sejam colocados à serviço de atender toda a população. No HU mesmo precisamos exigir que se contrate em caráter emergencial, sem demoras, as vagas que não foram preenchidas do concurso, mas também todo o quadro necessário para colocar o hospital em pleno funcionamento para acabar com o referenciamento do pronto-socorro e atender a comunidade USP, incluindo os terceirizados, os dependentes e a população da zona oeste.




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