Sociedade

RACISMO NO TRABALHO

Trabalhadora denuncia assédio sexual racista e empresa diz que ela é “chata pra c***"

Eunice de Oliveira denunciou a superiores os absurdos que ouviu de colega: “Queria que a escravidão voltasse. Não ia ter conversa, você ia ter que fazer sexo comigo”. A resposta da empresa foi que ela seria “chata pra caralho”.

quinta-feira 3 de outubro| Edição do dia

Trabalhadora da empresa Club Med, Eunice Cides de Oliveira, 30, foi vítima de um execrável assédio por parte de um colega, com ofensas racistas abomináveis. O relato de Eunice afirma que tudo ocorreu durante um dia normal de trabalho, no horário de almoço. Ela estava na copa quando foi abordada pelo outro funcionário. Em relato à Folha de S. Paulo, contou:

“Eu estava na copa, conversando com as meninas. Esse funcionário pegou no meu braço, chegou dizendo que queria que a escravidão voltasse, que eu teria que fazer sexo com ele, repetindo o tempo todo que eu deveria fazer o que ele quisesse, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Ainda fazia gestos como se estivesse me chicoteando, fazendo sexo comigo. Só consegui dizer algo do tipo ‘sério que você vai falar isso mesmo?’ Ele continuava rindo, como se fosse brincadeira.”, relatou Eunice.

Abalada, ela procurou seu supervisor para relatar o caso e exigir medidas, e a resposta foi escandalosa: “Contei já desesperada, tremendo demais. Ele me levou para uma sala restrita, chamou outro supervisor. Eles queriam que eu fosse conversar com o agressor. Respondi que eu não tinha condição nenhuma. Foram lá falar com ele, e o cara disse que ia me pedir desculpa quando cruzasse no corredor”.

Para a empresa, o caso se encerraria aí, evidentemente. Eunice deu queixa contra seu agressor, e testemunhas corroboraram com sua versão e ainda disseram que era recorrente que o funcionário fizesse “piadinhas e falas assediadoras”. Assim, tentando se livrar da responsabilidade pelo absurdo episódio de racismo e por sua criminosa conivência, a empresa demitiu o funcionário acusado. Seu supervisor, no entanto, não conseguiu se conter e expressou como está do lado do agressor: antes da demissão, enviou mensagens xingando Eunice. Veja abaixo prints encaminhados pelo seu advogado à reportagem da Folha:

A conversa ocorreu três dias após o assédio racista, e Eunice estava dispensada do trabalho por sua psicóloga, que a encaminhou a um psiquiatra. Segundo Eunice, o seu chefe desejava enviar a mensagem que a insultava a outro chefe, mas por um erro enviou ao celular dela.

Uma semana depois do episódio o RH da empresa ficou sabendo e o Club Med emitiu uma nota dizendo repudiar o racismo. Apenas nove dias após o fato foi contatada pela empresa, que a chamou para ouví-la. Ela, no entanto, está afastada, diagnosticada com stress pós-traumático. Ela disse que ficou cinco dias afastada, mas, quando voltou, enfrentou um clima hostil na empresa.

A empresa, cinicamente, deu à reportagem da Folha uma versão em que afirma que “está à frente para acolher e prestar todo apoio necessário à colaboradora e, para isso, em diversas vezes a convidou para abrir um diálogo após o ocorrido.” Ainda completam: “Nos orgulhamos de ser uma companhia multucultural e que abraça todas as formas de diversidade”.

Empresas como esta não apenas são cotidianamente conivente com o racismo, como ficou muito nítido com a postura de dois supervisores distintos que tentaram “abafar” o caso, mas também lucram com este, já que os negros – e em particular as mulheres negras – recebem salários inferiores aos dos homens brancos.




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