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Tolkien: o homem por detrás do Senhor dos Aneis

No último dia 3 de janeiro celebrou-se os 125 anos de nascimento de J.R.R. Tolkien. Um retrato da vida do autor de O Senhor dos Aneis e O Hobbit.

quarta-feira 11 de janeiro| Edição do dia

John Ronald Reuel Tolkien nasceu em 1892 em Bloemfontein, África do Sul. Filho de bancário e uma missionária anglicana, ambos britânicos, chegaria aos dois anos de idade junto de sua mãe e de sua irmã menor a Inglaterra. Ali se instalaram em Sarehole, um pequeno povoado nas redondezas de Birmingham. O típico povoado do campesinato inglês, conservador e com tons xenófobos, serviria anos mais tarde de inspiração para a criatura mais famosa da cosmogonia do autor: os hobbits.

No ano de 1900, a mãe de Tolkien, Mabel Suffiel, se converteria ao catolicismo, abandonando a forte tradição anglicana que caracterizava sua família. Este fato será determinante para o futuro do escritor cuja obra estará recheada de referências ao mito da criação judaico-cristã e discussões filosóficas de autores como São Tomás de Aquino. Após ficar órfão em 1905 (seu pai já havia falecido na África do Sul em 1896), a pedido de sua mãe ficará sob cuidados do padre Francis, sacerdote católico do Rei Edward College. Nessa época, sua curiosidade o levaria a estudar o idioma galês e a cultura anglo-saxã. Estes dois interesses juvenis teriam uma forte influência na cosmogonia da Terra Média, que em certos aspectos se assemelha a Inglaterra anglo-saxã camponesa, conservadora e fortemente ligada a terra.

Em 1915, depois de se graduar, Tolkien terá uma breve passagem pelas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, mas em seguida contrairá febre das trincheiras, uma doença transmitida por piolho, e estará de licença até o final da guerra. Será nesse marco, em 1917, quando começa a escrever os primeiros manuscritos de Os Contos da Terra Média, que se publicariam após sua morte dentro do livro O Silmarillion e que narram os grandes acontecimentos históricos desde a criação de Endor até os anos anteriores às histórias mais conhecidas do autor.

Em 1925, após sua colaboração na primeira edição do Dicionário Inglês de Oxford e uns anos como professor na Universidade de Leeds, retornará à Universidade de Oxford como professor de Anglo-saxã. Neste período escreverá a história de Bilbo Baggins para que seus filhos lessem. Em 1937 seu amigo C.S. Lewis (autor das Crônicas de Nárnia) o convence de publicá-las sob o título de O Hobbit, sendo um êxito total na Inglaterra e nos Estados Unidos. A editora George, Allen & Unwin lhe solicitou que escrevesse uma continuação, mas em poucos meses Tolkien informaria ao editor que a história “lhe escapou das mãos” e que necessitaria mais tempo para concluí-la. Demoraria dez anos para finalizar os três livros que compõem “O Senhor dos Anéis”, que foram publicados entre 1954 e 1955.

Parra J.R.R. Tolkien a fantasia é a realidade observada desde outro ponto de vista. Em seu célebre ensaio “Sobre os contos de fada” (1939), irá propor que na fantasia o leitor pode encontra a reafirmação da esperança em um mundo mais humano. Em outras palavras, dirá que a fantasia nos permite como leitores revisar nosso mundo desde a perspectiva de um mundo diferente. Sem dúvida, não deixará de relacionar esta proposição com o cristianismo: “o Novo Testamento oferece um relato maravilhoso, ou um relato de gênero mais amplo, que abarca toda a essência das histórias de fantasia”. Neste sentido, para Tolkien, uma história merece ser contada unicamente quando leva uma mensagem moral pois, em suas palavras, “o artista é somente um colaborador da grande obra de Deus”.

Sobre esta questão se estabelece uma divergência com seu amigo Lewis. Para este, a aparente ressurreição de Gandalf depois da luta com Balrog (uma criatura demoníaca de fogo e sombras) nas profundezas das minas de Moria, o transforma em entidade divina ao conceito da reencarnação. Frente às críticas sobre a superficialidade com que Tolkien tratava alguns temas que são importantes para a ideologia cristã, este responderia a seu amigo que é a ressurreição de Aslan em “O leão, a bruxa e o guarda roupa” – primeiro livro da série As Crônicas de Nárnia – que provoca o efeito que é criticado. Tolkien negará que sua intenção tenha sido escrever uma alegoria do cristianismo. Mas na verdade, seu objetivo era construir a partir do gênero fantástico um corpus mítico que estivesse à altura daquele dos países nórdicos. Efetivamente, o poema épico anglo-saxã sobre Beowulf e o poema épico finlandês “Kalevala” deixaram uma marca importante na escrita do autor.




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