Educação

UNICAMP

Todos à 1ª audiência pública por cotas étnico-raciais na Unicamp

A primeira audiência ocorrerá na próxima quinta, 13, e tem como tema central “Cotas e ações afirmativas: perspectiva histórica e o papel da Universidade Pública no Brasil”, com a presença de intelectuais e representantes de movimentos sociais, um espaço fundamental de debate sobre o que significa o acesso ao ensino superior no Brasil, e a quem ele serve.

Flávia Telles

Coordenadora do CACH - Unicamp

Rebeca Moraes

Coordenadora do CACH - Unicamp

terça-feira 11 de outubro| Edição do dia

No início deste ano, na iminência do golpe institucional, os estudantes da Unicamp fizeram uma greve de quase 3 meses e ocuparam a reitoria se posicionando contra tudo que aquele contexto significava e que hoje se confirma a cada dia. Exigiram da reitoria e do governo estadual que a universidade ampliasse seu acesso para a população negra, minoria como estudante, mas maioria no trabalho terceirizado e garantisse à todos os estudantes que precisam uma permanência estudantil de qualidade. Como conquista da luta estudantil em relação ao acesso, nesses próximos meses de 2016 vamos ter 3 audiências públicas para se discutir as cotas étnico-raciais de forma mais profunda e posteriormente haverá uma votação no Conselho Universitário, órgão máximo de decisão da universidade, em relação a implementação das cotas.

A primeira audiência ocorrerá na próxima quinta, 13, e tem como tema central “Cotas e ações afirmativas: perspectiva histórica e o papel da Universidade Pública no Brasil”, com a presença de intelectuais e representantes de movimentos sociais, um espaço fundamental de debate sobre o que significa o acesso ao ensino superior no Brasil, e a quem ele serve. No país onde a maioria da população é negra, muito poucos são os negros que conseguem perfurar o filtro social do vestibular e acessar a universidade, não conseguimos ver a mesma representação étnico-racial da sociedade refletida nos profissionais liberais, como médicos, professores universitários, advogados, economistas, etc, o mesmo não ocorre quando olhamos os trabalhadores terceirizados da limpeza, as empregadas domésticas, os garis, estes sim, maioria negra, é no sentido de não naturalizar essa realidade que as cotas étnico-raciais são há muito tempo debatidas e há 13 anos existe na UERJ, e hoje na maioria das universidades do Brasil, menos na Unicamp dos rankings, que parece passar alheia a esse debate. Mas muitos foram os que aqui passaram e questionaram o racismo da Unicamp, como o Núcleo de Consciência Negra que existe desde 2012, a Frente Pró-Cotas e o conjunto dos estudantes que neste ano fizeram uma greve de quase 3 meses e ocuparam a reitoria levantando a pauta das cotas étnico-raciais e conquistaram as audiências, como um passo importante para a conquista dessa pauta histórica para o movimento negro e que pautou o movimento estudantil.

Desde que foi conquistado a realização das audiências públicas, os estudantes da Unicamp, impulsionados pela Frente Pró-Cotas e pelo Núcleo de Consciência Negra se organizaram em um grupo de trabalho para a organização e mobilização em torno das questões das cotas étnico-raciais. Foram diversas reuniões, rodas de conversas, “poster bomber” pelas paredes da universidade com a história social dos negros e negras, página no facebook “A Unicamp precisa falar sobre as cotas”, além do contato com alguns intelectuais e integrantes de movimentos sociais que vão compor as audiências, portanto serão espaços fundamentais de debates públicos, abertos à todos aqueles comprometidos com o avanço do acesso da população negra ao ensino superior no Brasil e que pode aprofundar o debate para o questionamento mais profundo do racismo que se expressa na universidade todos os dias, e do qual a reitoria é parte.

Na Unicamp dos supersalários, que aparece nas pesquisas como uma das melhores universidades do mundo, o trabalho da limpeza é terceirizado, com baixos salários, falta de estrutura, e alta rotatividade, sendo a maioria de trabalhadores negros, e quando questionamos a reitoria sobre a terceirização e as condições que esses trabalhadores são submetidos ela nos responde que não são funcionários da Unicamp, como se fosse “neutra” do que acontece na universidade. Os estudantes pobres que conseguem perfurar a estrutura elitista que se materializa no vestibular e adentram as portas da universidade são obrigados a morar numa moradia superlotada, com a infraestrutura comprometida e a trabalhar para conseguir manter seus estudos, já escancarando o caráter de classe da universidade, onde a reitoria, com membros que recebem até 65 mil, nos responde que “bolsa sem contrapartida é mesada”, nos tirando o direito de permanecer na universidade.

Portanto, não existe neutralidade da reitoria, a burocracia não quer cotas étnico-raciais na universidade porque é racista, elitista, privatista e apesar de se pintar de “reitoria do diálogo”, é anti-democrática, não quer que negros e pobres adentrem as portas da universidade para estudar, mas apenas para trabalhar nos postos mais precários, não se importa com as condições das nossa vidas na moradia estudantil, ou com o fato de sermos obrigados a trabalhar para nos manter na universidade, muitas vezes cumprindo o papel que deveria ser de um trabalhador contratado com os devidos direitos, mas aos bancos e empresas as portas são livres, como já podemos ver no nosso RA conveniado com o Santander, ou nas imensa produção de patente da universidade. A reitoria buscou desconstruir a mobilização estudantil do início do ano, com o atual reitor, Tadeu, insistindo em “não se posicionar” e também teve membros de sua equipe usando o PROFIS como contraposição à inclusão das cotas. Não querem cotas na Unicamp porque temem que a implementação delas dê margem a um questionamento ainda mais profundo do racismo aqui presente, temem que futuros estudantes cotistas, junto aos demais estudantes que lutaram pelas cotas, possam se ligar aos trabalhadores para derrubar a terceirização, o vestibular, os privilégios e estabeleçam uma nova estrutura de poder - na qual a universidade seja verdadeiramente democrática, dirigida por aqueles que à constroem de fato, estudantes, trabalhadores e professores, sem servir aos interesses das multinacionais, mas às necessidades da população pobre que nunca adentra às suas portas para usufruir de seu renome.

Devemos transformar as audiências públicas em um grande fato político, envolvendo o conjunto da sociedade na luta pelas cotas étnico-raciais na Universidade, com a participação de intelectuais e movimentos sociais em que a burocracia universitária racista seja constrangida e não tenha outra saída a não ser votar pela implementação das cotas na Unicamp. Por isso, todas as iniciativas da Frente Pró-Cotas, do Núcleo de Consciência Negra, e do grupo de trabalho sobre cotas estão sendo fundamentais nesse sentido, e vai ser a participação de toda a comunidade acadêmica, de grande parte dos estudantes, de dentro e fora da Unicamp, de cursinhos comunitários e da juventude secundarista que já mostrou sua força, que pode enfrentar o racismo na universidade e arrancar as cotas étnico-raciais. Portanto, convocamos todos aqueles que não naturalizam o elitismo e o racismo da Unicamp a comporem as audiências públicas e avançar para uma educação verdadeiramente pública, gratuita e de qualidades para todos, que coloque de fato toda a juventude negra dentro da universidade.




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