Política

Terremoto político no Planalto: hipóteses sobre o caso Calero-Temer

André Augusto

São Paulo| @AcierAndy

quinta-feira 24 de novembro| Edição do dia

A acusação do ex-ministro da Cultura Marcelo Calero de ter sido pressionado pelo Secretário de Governo, Geddel Vieira Lima, a favorecer um de seus negócios pessoais parecia limitar-se ao peemedebista baiano e seu prédio La Vue em área tombada de Salvador. A entrada, dois dias depois da primeira denúncia, do nome de Temer como comparsa de Geddel no tráfico de influência deve levantar algumas suspeitas sobre os movimentos de bastidores da trama que colocou Temer na parede pela primeira vez, tirando o conforto de ter sido esquecido depois que a empreiteira Queiroz Galvão admitiu dar R$1 milhão ao presidente golpista.

Por que Temer foi nominalmente envolvido? Elencamos no calor das primeiras notícias algumas hipóteses que serão esclarecidas no desenvolvimento dos acontecimentos.

1. Fator Trump na agressividade dos monopólios. O triunfo de Trump implica a uma política externa mais agressiva dos Estados Unidos ao mundo. Ainda que a demagogia de Trump durante a campanha tenha se voltado contra os acordos comerciais com uma forte retórica protecionista e “internista”, o bilionário presidente ianque não pode – e não quer – governas contra os grandes monopólios capitalistas norteamericanos. Estas corporações sempre consideraram a América Latina como fonte de superlucros, extraindo suas riquezas naturais e explorando sua mão de obra. As petroleiras Chevron, Exxon Mobil e outras há anos tem os olhos na Petrobrás, cuja privatização e entrega foi um dos motores do golpe institucional. É possível que o triunfo de Trump tenha alentado um lobby mais poderoso por parte das petrolíferas ianques de acelerar um processo de privatização que Temer está se mostrando incapaz de levar a cabo. Lembremos que essas corporações tem a seu lado ninguém menos que Sérgio Moro, chefe da Lava Jato e treinado pelo Departamento de Estado norteamericano, além do ministro de Relações Exteriores, o tucano José Serra, ambos interessados em entregar a empresa brasileira ao capital estrangeiro.

2. Marcelo Calero. o ex-ministro da Cultura de Temer havia sido secretário de cultura do Rio de Janeiro no governo de Eduardo Paes. Previamente ainda, passou pela Comissão de Valores Monetários (CVM) ligada ao Ministério da Fazenda, justamente pela Petrobrás – sendo parte da embaixada brasileira no México em 2007 (em que os governos brasileiro e mexicano assinaram acordos de intercâmbio tecnológico entre a Petrobrás e a Pemex – Petroleos Mexicanos). Ainda não fica claro quais as relações de Calero com estes mesmos interesses petrolíferos, mas desde já que não se pode descartar a participação dos “pequenos agentes” nos grandes movimentos do capital estrangeiro.

Ademais, Calero foi candidato pelo PSDB no RJ em 2010, e apesar de ter sido criticado por Aécio Neves quanto à denúncia de Geddel e Temer, há que ver se as divergências constantes no tucanato não concernem a deixar a base do governo.

3. Descontentamento dos empresários com o governo Temer. Está em curso uma nova inflexão no cenário econômico brasileiro, em que os "brotos verdes" (indicadores iniciais positivos e de maior otimismo) de meados de 2016 deixaram de existir e deram lugar a um retorno de incertezas, pessimismo e perspectivas de maior decadência. Como efeito do triunfo de Trump, o dólar valorizado já torna a dívida das empresas mais cara; as taxas de juros maiores incrementam o problema para as empresas com dívidas dolarizadas. Isso fez com que as empresas nacionais mostrassem um descontentamento uníssono com a "lentidão" dos ajustes de Temer depois do triunfo de Trump. Boa parte da percepção dessa "lentidão" se refere às dificuldades de passar toda a austeridade com políticos tão questionados (tanto que o discurso da "antipolítica" foi avassalador nas eleições). É muito provável que a eleição de Trump, com as perspectivas imediatas negativas para a recuperação, torne ainda mais amarga a relação do empresariado com a base de Temer – e com o próprio Temer – o que poderia se converter num apoio mais claro ao avanço da Lava Jato. Myriam Leitão, d’O Globo, trocou o quietismo e saiu em nota agressiva contra os “erros de Temer” como em manter Geddel Vieira Lima na Secretaria de Governo, assim como a demora nos ataques cujo “aviso prévio”aos afetados estaria servindo apenas para “aumentar a coalizão da resistência” a ataques como a reforma da previdência. O que coloca o partido midiático em sintonia com o descontentamento da patronal com os atrasos do Planalto na implementação do ajuste.

4. Se fortalece a hipótese de que Sergio Moro e os procuradores da Lava Jato apontem em Temer para rumar a uma “Operação Mãos Limpas”, que rearticulou o regime político italiano na década de noventa de acordo com os interesses neoliberais, garantindo a impunidade e erguendo como figura central do regime o mafioso Berlusconi. Nos últimos dias a Lava Jato avançou sobre ex-governadores do Rio de Janeiro (Garotinho e Cabral), vislumbra abrir inquérito contra Geddel e anunciou a conclusão do acordo de delação premiada da Odebrecht – que promete golpear dezenas de governadores e centenas de parlamentares. Essa fase eminentemente política da Operação busca, nem tanto entronizar um demagogo (que não apareceu com clareza no cenário) mas sim “limpar” e “relegitimar” o regime da democracia dos ricos, para instituir um rearranjo da casta política capaz de aplicar com maior consenso ataques mais duros do que permite a relação de forças atual com Temer. A operação reacionária que acabou com os maiores partidos do regime político italiano (ainda que mantendo a corrupção e impunidade e ajudado a erguer Berlusconi) alterou o governo, mas permitiu a soltura da imensa maioria dos acusados, garantindo não apenas a impunidade mas que os políticos corruptos de realinhassem na nova diagramação partidária.

5. Revide de setores do PMDB? Renan Calheiros, presidente do Senado que figura vitalícia nas distintas delações da Petrobrás, sempre foi um desafeto de Temer e uma ala oposta no PMDB. A diferença é que mantinha até então o equilíbrio de poder enquanto não era enquadrado dentro de um dos 11 inquéritos contra si no STF. Renan, entretanto, será julgado pela primeira vez no Supremo, e ao que tudo indica, ao fim de seu mandato no Senado, dificilmente escapará da cela de Curitiba. Estaria atirando nos bastidores contra o rival, antes de cair?

6. A denúncia buscará ser capitalizada pelo PT para reerguer a saída Lula 2018? Logo da confirmação do impeachment no Senado, ao final de agosto, o PT - antes de seu degelo nas eleições municipais - e as organizações sindicais que controla ou influencia (como a CUT e CTB) levantaram a consigna "Diretas Já", uma forma de desviar as mobilizações de rua para a preparação eleitoral de um eventual retorno de Lula em 2018. Lindbergh Farias, em nome do ex-governismo, já indicou que pedirá à Procuradoria-Geral da República que abra um processo de impeachment contra Temer. A intenção é certamente recompor o PT em frangalhos e diminuir os efeitos da derrota eleitoral de outubro, cacifando uma alternativa de Frente Ampla em que o PT possa figurar como um ator menos secundário. Do PT, como sempre, nem de resistência nas ruas, apenas a utilização dos mesmos meios autoritários de que a própria direita e o imperialismo se serviram. O PT confia mais nas articulações de bastidores com parlamentares e procuradores reacionários do que na mobilização de massas. Na luta contra o governo golpista em crise, é preciso lutar por uma alternativa claramente independente do PT, que abriu o caminho para a direita. Essa alternativa passa necessariamente por uma nova Constituinte imposta pela força da resistência operária e da juventude aos ajustes, para dar uma resposta não apenas aos ajustes a nível econômico, mas ao impasse a nível político e questionar toda a casta que administra esse sistema corrupto tutelado pela Lava Jato.

Esta aberto o espaço político para o surgimento de uma esquerda revolucionária que supere a tradição da conciliação de classes petista.




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