Mundo Operário

DEMISSÕES

Terceirizados do Theatro São Pedro em Porto Alegre são demitidos em meio ao Coronavírus

Na semana passada, a direção da Fundação Theatro São Pedro, demitiu mais de 30 profissionais dos quadros técnicos e operacionais, deixando dezenas de famílias na rua em meio a pandemia.

terça-feira 12 de maio| Edição do dia

O contrato com a empresa terceirizada que prestava serviços a Fundação excedeu a sua data limite e terminou deixando 32 pessoas na situação do desemprego em meio a pandemia do coronavírus. Essa postura é absurda, especialmente no momento onde já se multiplicam de forma exponencial os contaminados e mortos pela COVID-19. Os trabalhadores que já estão expondo suas vidas agora se vêm sem seu sustento. Nesse contexto de crise, se mostra a faceta mais cruel da terceirização: ao mesmo tempo que essas empresas jogam na rua trabalhadores sem nenhum motivo com a garantia da instabilidade dos empregos, super exploram sua mão de obra enquanto mantém seus lucros crescendo.

São 32 profissionais, distribuídos entre apoio técnico de palco, portaria, recepção e serviços gerais como a limpeza e segurança, que agora serão jogados para se somar às filas e tentar retirar o insuficiente auxílio emergencial do governo de 600 reais, que ainda enrolam para pagar.

No momento em que os trabalhadores mais precisam de seu sustento para garantir uma boa alimentação, moradia, condições sanitárias básicas para combaterem o vírus, é trágico que as patronais aproveitem para realizar demissões em massa. O desemprego vai contra a contenção da pandemia, afinal pessoas sem renda não irão conseguir cuidar de sua saúde. Em momentos como esse, é urgentemente necessária a proibição das demissões para a garantia de renda de todos os trabalhadores. O governo deveria sancionar uma lei categórica proibindo as demissões, como ocorreu na Itália e até mesmo em países como a Argentina.

Caso, de fato, estivessem preocupados com as vidas e empregos, estariam usando tudo aquilo que os empresários lucraram por anos às custas do suor e sangue dos trabalhadores para arcar com essa crise e gerar renda, garantindo a ampliação dos postos de trabalho e o cancelamento das demissões ocorridas desde o início da pandemia. Gerando renda para a fabricação de testes em massa para os trabalhadores, distribuição de todos os EPIs que garantam a segurança de cada funcionário saudável para desempenhar sua função e também para manter os grupos de risco e doentes em casa, sem a suspensão do salário. Além disso, o valor do auxílio emergencial é insuficiente para garantir a vida dos trabalhadores, por isso defendemos que cada trabalhador receba 2000,00 reais de renda mínima para sobreviver em meio a crise.

Trabalhadores da cultura lançaram na última quinta uma carta repudiando as demissões. Confira:

CARTA ABERTA DA CLASSE ARTÍSTICA GAÚCHA
AO GOVERNO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL E ASSOCIAÇÃO AMIGOS DO THEATRO SÃO PEDRO (AATSP).

“A classe artística gaúcha e porto alegrense aqui representada por instrumentistas, cantores e cantoras, compositores e compositoras, técnicos de som e luz, roadies, roteiristas, escritores e escritoras, cineastas, atrizes e atores, diretores e diretoras, dançarinas e dançarinos, vem a público manifestar seu VEEMENTE REPÚDIO à demissão em massa ocorrida ontem, Quarta Feira, dia 06/05/2020, nos quadros técnicos e operacionais do Theatro São Pedro.

São mais de trinta profissionais extremamente qualificados, muitos com DÉCADAS de casa, que com o seu trabalho mantém o Theatro São Pedro funcionando em altíssimo nível, atendendo as mais elevadas exigências técnicas e operacionais de shows e espetáculos de circulação nacional e internacional, fazendo com que todos os gaúchos e gaúchas possam se orgulhar deste espaço cuja alma se nutre da abnegada atuação destes profissionais.

Acontece que, neste momento, é justamente destes profissionais o lado mais fraco de um impasse que lhes foge ao controle, entre o Estado do Rio Grande do Sul e a Associação Amigos do Theatro São Pedro (AATSP). No entanto, mais uma vez, é do lado dos mais fracos onde restam as baixas de uma briga alheia, vitimados pela perda de seus postos de trabalho SEM JUSTA CAUSA, em meio à pandemia do novo COVID-19 e todas as suas devastadoras consequências humanas e financeiras.

Aos atores deste impasse jurídico e burocrático não cabe aqui nosso julgamento. Do ponto de vista do Estado, sabemos que se impõem amarras burocráticas e toda a sorte de freios legais visando o zelo com o dinheiro público. Do ponto de vista da AATSP, evoca imediatamente a memória da querida e estimada Eva Sopher, fundadora desta Associação e dona de um lugar eterno no coração e na memória de todos e todas que são amantes da arte e da cultura sob o céu deste estado, ainda que paire sobre esta entidade todas as dúvidas de quem é acusado de ingerência e falta de transparência.

Neste cenário exigimos o bom senso, mas também outro tipo de senso: o de JUSTIÇA. Em que contribuiu o porteiro ou o maquinista, para que o Tribunal de Contas ou a CAGE ficassem descontentes com a falta de alguma documentação? Em que contribuiu o carregador ou o zelador, para a já antiga desarmonia institucional entre a Fundação TSP (Estado) e a AATSP?

Podem nos chamar de ingênuos. Podem dizer que carecemos entender a complexidade do funcionamento da máquina pública, mas ninguém se torna um artista sem enxergar o ser humano em primeiro plano. Disso entendemos. O que não podemos entender é como o Estado do Rio Grande do Sul e o Theatro São Pedro podem prescindir do valoroso trabalho desta equipe, trabalho do qual SOMOS TESTEMUNHA ao longo de décadas e, justamente por isso, cá estamos a cavar esta trincheira em nome de colegas e amigos da mais alta estirpe. Também não podemos entender o nível de escravidão que padecemos ante nossa própria burocracia a ponto de jogar mais de trinta famílias no desemprego e na incerteza sem que tenham cometido qualquer falta perante suas obrigações.

Vivemos dias de um tempo onde a vontade política momentânea proporciona, à luz do dia, verdadeira dança das cadeiras de cargos altíssimos na velocidade de uma “canetada”. Parece-nos, no entanto, claro e cristalino que a agilidade, precisão e poder de concretização destas decisões são forças que pesam apenas para o lado dos altos escalões, mas essa mesma força se esgota conforme desce em hierarquia, mostrando-se incapaz de intervir em favor do LADO JUSTO desta situação. A classe artística e a sociedade exigem uma resposta porque vidas estão em jogo, e vidas importam.

Neste sentido, que fique claro que qualquer outra resposta que não seja a IMEDIATA RESTAURAÇÃO DO TODOS ESTES POSTOS DE TRABALHO não será entendida e, mais importante, NÃO SERÁ ESQUECIDA, cabendo aos responsáveis por esta situação, que culmina neste cruel desfecho, o ônus da explicação e da solução.

Permanecendo o absurdo, só poderemos constatar que do português falado nesses corredores, palavras como povo, empatia, justiça e ser humano, tornaram-se outra coisa qualquer que não guarda mais seu significado real. Estamos de nossas casas mobilizados contra a ameaça do Corona Vírus e, de nossas mentes e corações, mobilizados contra a INJUSTIÇA e a DESUMANIDADE. Diante desses fatos, a classe artística NÃO VAI CALAR A BOCA.

PORTO ALEGRE, 07 de Maio de 2020




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