Sociedade

TORTURA POLICIAL

"Tentava dizer que era trabalhador, eles batiam", diz gesseiro torturado pela PM

Gesseiro de Sorocaba, cidade do interior de São Paulo com maior registro de tortura policial, relata que foi torturado sem nenhum motivo ou evidência, durante 3 horas por policiais militares no início de 2016.

Jenifer Tristan

ABC Paulista

segunda-feira 4 de setembro| Edição do dia

Desde 2011 a região de Sorocaba, interior de São Paulo é a cidade com maior registro de tortura policial, são 27 denúncias de tortura calculadas pelo departamento de polícia Judiciária do interior de São Paulo. Um caso alarmante é o do Roberto Rodrigues Nunes, um gesseiro de 28 anos que em fevereiro de 2016 que, voltando pra casa de moto do trabalho, foi abordado pela polícia e torturado durante 3 horas, chegando a ficar 12 dias internado.

"Vi um carro se aproximando com o farol alto e pensei que era assalto, pois as ruas são escuras e há muito roubo. Acelerei a moto e o veículo acelerou. Vi um braço para fora com uma arma. Corri o mais que pude e, num trecho claro, vi que era uma viatura com o girflex desligado. Parei em frente a um bar onde havia gente.", disse Roberto.

Os três PMs desceram de arma em punho, o derrubaram, o algemaram e o agrediram, sem pedir documentos. Depois, o jogaram no guarda-preso da viatura e, numa rua mais escura, continuaram o espancando. Diziam que sua moto era roubada, depois tentaram obrigá-lo a confessar que tinha arma, droga, e quebraram seu nariz com uma prancheta.

Tentava dizer que era trabalhador, que não tinha passagem, eles jogavam spray e batiam. Levei uma gravata e desmaiei. Quando acordei, tinha o maxilar quebrado, sentia gosto de sangue.

Não contentes, a tortura seguiu e os policiais puseram um capacete em sua cabeça e mandaram que corresse. Ele se agarrou à perna de um PM que segurava uma submetralhadora e tentaram colocá-lo novamente na viatura. "Pulei do carro e corri às cegas, caindo na rua. Eles me pegaram e voltaram a me bater.", quando algumas pessoas começaram a filmar as agressões com celulares. Nesse momento, um dos policiais chegou a quebrar o celular de uma das pessoas, e usar spray de pimenta e uma bomba de efeito moral para dispersar as pessoas na volta que denunciavam e filmavam a tortura, como pode ser visto no vídeo abaixo:

O gesseiro foi colocado novamente no carro e passou a sofrer tortura psicológica. Segundo Nunes, eles diziam ’Você não tem noção de quem somos, você não vale nada’. Outra viatura chegou, acionada por pessoas que haviam ligado para o 190, e se somou a sessão de tortura. O trabalhador foi torturado às 21h30 até a 1h, e ainda o obrigaram a limpar o sangue da viatura antes de deixa-lo em sua casa. Ameaçaram que o buscariam no inferno caso ele denunciasse.

O exame do Instituto Médico-Legal constatou fraturas no maxilar e em três costelas, além de lesões e hematomas. A Polícia Civil teve acesso às imagens dos celulares e abriu inquérito contra os dois cabos e um sargento por abuso de autoridade, lesões corporais de natureza grave e tortura. O caso é investigado pelo 4.º DP, em segredo de Justiça. A PM informou que apura o caso em Inquérito Policial Militar. O setor de Comunicação Social informou que os policiais estão afastados das funções e que o inquérito será remetido à Justiça Militar Estadual.

Quem policia a polícia?

Hoje o gesseiro ao ver uma viatura da polícia ou passar por uma blitz chega a tremer. "Tenho medo por mim, pelos meus pais, pela minha família. Fui torturado e denunciei, mas a tortura continua. Disseram que vão me buscar até no inferno”, disse Nunes. Para sair de casa ele sempre olha para ver se não tem estranhos ou mesmo polícia na rua, diz aos pais, onde vai, com quem vai e que horas volta, pelo medo constante de a cada saída nunca mais voltar.

A polícia abusa do poder, serve aos interesses da propriedade privada e está longe de defender os trabalhadores. Casos como esses são corriqueiros e legitimados pelo Estado, pois os policiais são julgados na Justiça Militar, que são fóruns especiais onde militares são julgados apenas por outros militares e no máximo são afastados da região em que ocorreu as acusações.

É necessário dissolver a polícia para que a segurança seja feita pelos próprios trabalhadores e moradores dos bairros e que os julgamentos dos policias sejam feitos a partir de júris populares, para que sejam realmente investigados.

Com informações da Agência Estado.




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