PRONUNCIAMENTO

Tentando estancar crise, Bolsonaro ataca Moro e se dirige à sua base social

sábado 25 de abril| Edição do dia

Sem falar uma única palavra a respeito da crise sanitária que arrasta o país ao colapso do sistema de saúde em diversos estados, com recordes diários de mortes e sem sequer garantir equipamentos e condições mínimas de vida e de trabalho a milhões de brasileiros, o presidente dirigiu seu discurso em resposta ao pedido de demissão de Sérgio Moro àqueles que são sua principal boia e responsáveis por assegurar seu cargo em meio a já incontáveis crises, sua base social. Enumerando diversos chavões bolsonaristas, desde o complô da “velha política” até o “quem mandou matar Bolsonaro?”, fez manobras diversionistas para tentar segurar sua base social que também abraça o lavajatismo e assim estancar a nova crise política.

Outra boia que continua por perto e em posição de destaque: os ministros palacianos, ala militar do governo, estavam todos ali perfilados na linha de frente, ao lado de Bolsonaro, e também junto a Paulo Guedes, numa mostra de apoio ou, mais precisamente, de não abandono ainda.


Bolsonaro reuniu todos os ministros para demonstrar apoio durante o pronunciamento. Destaque para os ministros militares presentes, Braga Neto, Luiz Eduardo Ramos, Azevedo e Silva.

Bolsonaro há muito tempo já deixou evidente que não governa para a maioria da população, como suas reformas antipopulares, privatizações, entregas das riquezas nacionais, ou sua mais recente política genocida frente ao coronavírus deixam claro. Ele confia que manter sua base social raivosa de 30% mobilizada é suficiente para salvaguardá-lo de um processo de afastamento, ainda que outra parte se expresse por meio dos panelaços que ocorreram em meio ao pronunciamento. O importante na sua fala era tratar de estancar a evasão de parte desse setor que acreditava no casamento do bolsonarismo e do lavajatismo, e frente essa ruptura poderia debandar junto a Moro.

Dessa forma, buscou disputar com Moro a carapuça de herói contra a corrupção e a “velha política”. Uma disputa hipócrita que já tinha tido mais cedo Moro posando como paladino da moral ao não admitir interferência de Bolsonaro na PF, mesmo passando pano por mais de um ano para as inúmeras pontas soltas do clã Bolsonaro. Nesse momento, talvez o mais patético do discurso, ele enumerou alguns de seus “méritos” nesse campo, que seriam poupar nos gastos com o cartão corporativo, desligar o aquecimento da piscina e mudar o cardápio do palácio presidencial.

Outro forte chavão bolsonarista que não podia faltar - e aqui o momento mais revoltante do discurso - foi a contraposição entre o “quem mandou matar Bolsonaro?” e a luta para desvendar quem mandou matar a ex-vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson, assassinados em um crime político que segue sendo uma ferida aberta sem solução. Bolsonaro entrou no tema para buscar justificar um suposto direito a interferir na Polícia Federal, se colocando como vítima de uma suposta perseguição onde tenta criminalizar a esquerda, quando a investigação da execução da vereadora Marielle por milicianos aponta uma série de obscuras relações com a própria família Bolsonaro que permanecem sem explicação. Nessa parte, Bolsonaro praticamente admitiu a interferência na PF dizendo que cobrava diariamente relatórios da atuação do órgão.

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Em meio a todos esses chavões, Bolsonaro só tentou se justificar diretamente em relação às acusações de interferência de Moro, ao dizer que o motivo para a demissão do chefe da PF, Maurício Valeixo, partia do próprio delegado ao se declarar cansado e que o próprio Moro tinha assinado a demissão. Porém, o cansaço alegado por Valeixo se devia justamente das tentativas de interferência de Bolsonaro para salvar seus filhos. Desde de 2019, em outro momento que avançava a investigação em relação a Flávio Bolsonaro, se especulava a demissão de Valeixo, e novamente agora, após o STJ negar suspender a investigação.

Além deste interesse que salta aos olhos, também há o interesse de buscar aproximação com o centrão, no caso de abertura de um processo de impeachment, livrando de investigações as cabeças que poderiam lhe assegurar os votos para enterrar esse processo.

É nítido como os ritmos das investigações avançam ao sabor da crise política. Esse aliás é o grande legado da Lava Jato e de Moro, a utilização arbitrária do arsenal jurídico de acordo com o intuito de beneficiar os interesses do grande capital imperialista. O bonapartismo judicial já esteve a serviço de beneficiar a vitória eleitoral de Bolsonaro, mas esse novo capítulo da crise política marca a ruptura definitiva do casamento entre bolsonarismo e lavajatismo.

Ainda em meio a pandemia, Bolsonaro conseguiu se isolar ainda mais. Entretanto, os trunfos com os quais ainda conta foram os que buscou se apoiar durante o pronunciamento: os militares perfilados ao seu redor e o interlocutor do seu discurso, sua base social. Ainda há que observar como se posicionarão setores sociais que até então lhe ofereciam sustentação, como os setores ligados às igrejas evangélicas, ao agronegócio e o empresariado.

Essa saída, entretanto, do ex-ministro que conta com forte apoio popular, fortalece a posição do que chamamos de bonapartismo institucional (Maia, STF, Globo, etc), constituído por atores que buscam articular enfraquecimento (impeachment ou renúncia) de Bolsonaro, com a ascensão de Mourão ou ainda Rodrigo Maia. A esquerda deve abrir os olhos e batalhar por uma posição que não se coloque neste campo, igualmente reacionário e desastroso.

Chamamos a todos os setores das massas que querem derrubar Bolsonaro a avançar para gritarmos Fora Bolsonaro e Mourão, alinhando todos os setores da esquerda que concordam que Mourão não pode ser nenhuma alternativa, ao contrário, é uma abertura para um governo diretamente de militares, o que poderia ter consequências gravíssimas. O impeachment pode agora assumido até mesmo por Moro, a Globo e amplos setores do regime golpista, mas para abrir espaço para Mourão e pressionar os militares a se deslocarem do seu apoio à Bolsonaro e rifarem e assumirem o comando. Chamamos em especial o PSTU e o Bloco de Esquerda do PSOL que vinham corretamente levantando “Fora Bolsonaro-Mourão” a fazermos uma unidade neste ponto, batalhando para construir uma força que rompa com a política de impeachment e renúncia que nos leva a uma militarização do governo ainda mais direta.




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