ANÁLISE ELEITORAL

Tendências e contratendências nas eleições dentro do golpe

André Augusto

Natal | @AcierAndy

terça-feira 14 de agosto| Edição do dia

Com as peças do tabuleiro eleitoral em movimento, a XP Investimentos, agência ligada ao banco Itaú e uma das agências financeiras que mais fervorosamente defendem a continuidade das reformas de Temer, revelou os resultados de pesquisa de intenção de voto, realizada entre os dias 6 e 8 de agosto. Foram consultadas um total de 1.000 pessoas em todas as regiões do país.

Segundo os resultados obtidos, quando o nome de Lula é testado, alcança 31% das intenções de voto. É o maior resultado já obtido pelo petista nas pesquisas da XP/Ipespe. Quando o apoio explícito de Lula é conferido a Fernando Haddad, segundo a mesma pesquisa, o ex-prefeito de São Paulo salta de 3% para 13%, o que o colocaria em segundo lugar na corrida eleitoral. Assim, a migração de votos de Lula para Haddad saltaria de 10% para 36%, quando é incluída a informação do apoio efetivo.

É preciso lembrar que as pesquisas de intenção de voto, além de não serem mais que tendenciais, tem seus resultados vinculados a agências que as fomentam, com todos os seus interesses políticos particulares. Devem ser, portanto, tomadas criticamente.

Em artigo anterior, mostrávamos as intenções de voto que tendencialmente se expressavam na pesquisa eleitoral da CNT/MDA. Segundo essa pesquisa da Confederação Nacional dos Transportes (realizada entre os dias 2 e 5 de agosto e contou com 2.002 entrevistados), mesmo na terra da FIESP e seus patos golpistas, quem tem a maior intenção de voto é Lula (21,8%).

Com os resultados da XP Investimentos, Jair Bolsonaro se encontra em primeiro lugar nas intenções de voto, com entre 19% e 23%, em cenários em que o nome de Lula não é considerado. Bolsonaro também lidera quando os nomes dos candidatos não são mencionados, a chamada pesquisa espontânea, com 17%.

Já Geraldo Alckmin alcança o mesmo patamar de 10% de intenção de votos em todos os cenários (exceto quando Lula disputa, deixando-o com 9%). Alckmin conta com a maior coligação eleitoral, com mais de 40% do tempo de rádio e TV - conferido pelo apoio do Centrão (DEM, PP, PRB, PTB, SD) a sua chapa - e é o candidato agraciado pelos mercados financeiros, pelo judiciário e pelo ’’partido midiático’’ como o melhor representante da continuidade das reformas de Temer.


Quando o candidato do PT é Haddad, sem apoio de Lula


Quando o candidato do PT é Lula


Quando o candidato do PT é Haddad, com apoio explícito de Lula

Fonte: XP Investimentos/Ipespe

Quando o PT tem candidato, Ciro Gomes atinge 8%; quando este candidato é Lula, sua margem cai para 6%, e quando o candidato é Haddad apoiado explicitamente por Lula, chega a 7%. Marina Silva oscila entre 8% e 12%.

Os votos brancos/nulos seguem tendo proporção muito expressiva, oscilando entre 26% e 28% e vencendo em todos os cenários, exceto quando Lula é considerado (cenário em que os votos brancos/nulos caem para 15%).

A metodologia da pesquisa é distinta da anterior realizada pela CNT/MDA; a pesquisa da Confederação dos Transportes, além de ser restrita ao Estado de São Paulo, foi realizada por telefone, em 75 municípios. Já a pesquisa da XP foi realizada aplicando questionários ’’ao vivo’’ (com aleatoriedade na leitura dos nomes dos candidatos nas perguntas estimuladas). Ainda assim, é muito possível que a pesquisa tenha subestimado os votos que o PT colhe no Nordeste e Norte, já que uma pesquisa telefônica não tem o mesmo grau de precisão que aquela feita a domicílio (especialmente em regiões em que a população mais pobre não tem telefone).

Essa pesquisa do Itaú e sua agência XP Investimentos mostra tendencialmente um curso favorável ao plano do PT de apostar na transferência de votos de Lula a Haddad. Não espantaria que este resultado também seja parte da campanha de pressão que a tríade "mercados-mídia-judiciário" realizam para que o PT mude já a tática de manter Lula até o último momento, e postule rapidamente Haddad para presidência. A tríade já fareja que a ausência do PT no debate da Band causou fissuras na sigla, e o descarte da tática da "candidatura sub judice" de Lula - que fosse mantido após 17/9, data final para substituição de candidatos - deu mais confiança aos agentes do golpe, que não tem dúvida sobre a familiaridade do PT inclinar-se diante do regime.

A pesquisa, entretanto, foi realizada ates do debate da Band (há que ver os efeitos desse fator na opinião pública), e como alertamos no início, tem valor meramente tendencial, não especificando a força que poderia ter a transmissão de votos de Lula a Haddad (também não ficam claros os efeitos do acordo do PSDB com o Centrão).

A Lava Jato não passa por fora desse rearranjo: já acionou Mônica Moura para fazer acusações de repasses ilegais da Odebrecht a campanhas de Haddad e Dilma Rousseff (que disputa vaga no Senado por MG). Há que ver o tônus dos ataques da Lava Jato para cercear este crescimento do ex-prefeito de São Paulo.

O PT como agente da passividade

Diante desse panorama, tudo segue altamente imprevisível e as incertezas seguem sendo a marca da corrida eleitoral. Essa incerteza de horizontes tenta ser controlada com mão firme pelo autoritarismo judiciário, que quer um governo que ataque com mais dureza do que fez o PT, especialmente no segundo mandato de Dilma Rousseff.

Trata-se de uma questão de princípio o combate à degradação da já limitada democracia burguesa, e ao autoritarismo judiciário, que retirou o líder das pesquisas do pleito eleitoral com a prisão arbitrária de Lula. A defesa intransigente do direito do povo votar em quem quiser (inclusive em Lula, se assim desejar), sem qualquer interferência da Lava Jato golpista, deve, portanto, esclarecer o papel político do PT, tanto antes como depois do golpe institucional.

Ao contrário de teses como a de Breno Altman, que sustenta que o PT não recorre à "desobediência civil" por falta de massas nas ruas, o PT nunca teve intenção alguma de fraturar o regime: a defesa da institucionalidade burguesa está acima de tudo para Lula, Dilma, Haddad e a cúpula petista.

Nos governos de Lula, em que os banqueiros “lucraram como nunca”, o PT manteve suas alianças com a direita que abriu caminho ao golpe institucional (assimilando seus métodos de corrupção, como na Petrobrás), e com a Igreja – como o acordo Brasil-Vaticano de 2009 – que impede o direito ao aborto para as mulheres. Lula abafou inúmeras investigações de corrupção contra banqueiros e empresários, como o escândalo do Banestado, e junto ao PSDB abafou diversas investigações para garantir governabilidade (Satiagraha, Castelo de Areia, Cachoeirinha, etc.).Além disso, não podemos esquecer que, na campanha eleitoral de 2014 Dilma havia criticado o ajuste, e imediatamente quando eleita renunciou a tudo o que disse em campanha, aplicando prontamente um duro ajuste contra os trabalhadores junto a Joaquim Levy. Com esse expediente, sem denunciar a monstruosidade da parcialidade da Lava Jato, pavimentou o caminho do golpe.

Ademais, através de suas antenas no movimento de massas, especialmente a CUT e a CTB, construíram conscientemente a desmoralização e a passividade das massas, boicotando as jornadas de greve geral em 2017, sem resistir à aprovação da reforma trabalhista, e mesmo no momento da prisão de Lula, uma maneira atual de traduzir outra marca histórica do PT: obstaculizar a ação política independente dos trabalhadores contra empresários e a direita golpista.

Uma política anticapitalista dos trabalhadores

Há que ver a dinâmica dos distintos fatores em jogo: a continuidade da atuação férrea da Lava Jato para controlar os resultados de eleições fraudulentas; a modificação do cenário eleitoral de acordo com a economia débil; a verificação da capacidade de transferência de votos de Lula para Haddad; novas circunstâncias políticas nacionais e internacionais, com a maior ingerência de Washington no país.

A incerteza eleitoral tem essas origens. Nem para a própria burguesia estão claros os cenários. Quer despejar uma avalanche de reformas para dar seguimento ao trabalho de Temer, mas ainda não pisa sobre terreno seguro.

Quer garantir a relação de forças necessária para impor a continuidade do pagamento da ilegal dívida pública, negar a legalização do aborto e a separação entre o Estado e a Igreja, cortar direitos na saúde e na educação - acabando com as pesquisas universitárias - para que sejam os trabalhadores e não os capitalistas os que paguem pela crise.

Não apoiamos o voto em qualquer das candidaturas do PT; batalhamos por superar a tragédia da conciliação de classes petista com um projeto de independência de classes dos trabalhadores. Mas somos incondicionalmente contra a prisão arbitrária de Lula e somos intransigentes na defesa do direito do povo votar em quem quiser. Esta batalha contra o autoritarismo judiciário, que tem mil e um laços com o governo norte-americano e suas instituições estatais, diplomáticas e de investigação, é uma questão de princípio para uma política anti-imperialista e de independência de classe. Nestas eleições, colocaremos as candidaturas do MRT e o Esquerda Diário a serviço dessa batalha.




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