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Tempo é dinheiro e te tomará tua vida

segunda-feira 26 de setembro| Edição do dia

Você acorda todos os dias às sete horas da manhã, levanta, toma banho, não toma café porque na verdade você protelou e acabou levantando dez para as oito e saiu correndo da sua casa, tamanho era o seu cansaço... Aí você trabalha o turno da manhã, faz a sua hora do almoço e segue para o turno da tarde completando dessa maneira o período de oito horas de trabalho. Após isso segue para o ponto de ônibus e o pega lotado, ou caso tenha, pega o seu carro e vai para o trânsito, vai para a sua faculdade da qual você sai oficialmente as dez e meia, conversa com uns amigos, protela e acaba chegando em casa todos os dias dez para a meia-noite; aí você entra na internet, topa jogar uma partida de vídeo-game, ouve música, lê, precisa de alguma forma acreditar que a sua vida é mais do que aquilo que foi o seu dia. Eis o cansaço do dia seguinte.

Essa é a vida da maioria dos jovens da cidade. Se essa não é a sua, certamente você tem uma rotina de trabalho, seja de mais, de menos horas, contendo ou não, a faculdade à noite. Se não for a faculdade você precisa buscar seu filho na escola, chegar em casa e fazer janta; assiste a novela, entra na internet, lê umas notícias, compara com àquelas do Jornal Nacional porque você é inteligente e sabe que ele não é confiável, sente-se informado.

Twitta e dá risada com o que lê, se indigna. Fica em casa, arruma a casa, eventualmente em algumas sextas-feiras você sai com alguns amigos para uma cerveja. Fins de semana, no caso do estudante, é fato que se reunirá com amigos para tratar de algum trabalho, seminário, fará tudo de maneira insatisfatória para si mesmo, porque o tempo dele não foi feito para que ele pense, foi feito para que ele produza. Caso se sinta saturado não fará nada e irá para uma balada ou dormirá o tanto quanto puder para recuperar o sono perdido. No caso de uma pessoa casada, ficará com os filhos, fará um almoço em família, cumprirá com louvor a rotina modelo de felicidade, mas não entenderá quando por um momento se pegar pensando “Por que parece que não está tudo certo?”. Ah! Ou você vai ao shopping, pelo menos você cumpre com eficácia o sentido disso tudo, o consumo. Todos os dias você fica aguardando aquele feriado prolongado que permitirá que você faça uma viagem rápida, ou que permitirá que ao menos você consiga dormir até as dez.

Isso você faz porque você precisa desesperadamente recuperar aquilo que o sistema tira de você: a vida.

Você tem uma família e tem filhos lindos e sente-se entediado por ser obrigado a viver uma rotina com eles, você não pode em uma segunda-feira de manhã pegar o carro e levá-los para ver o mar, porque isso fará com que eles percam aula, e pior que isso fará com que você perca o emprego. Sim alguém importante que não sei quem já disse que a escola é o primeiro meio para domar o rebanho, por isso o sinal, por isso os horários, por isso a disciplina. E o pior de tudo isso não é você ser obrigado a viver isso, o pior de tudo, é isso se naturalizar na sua mente. Sim você não é livre, não é livre nem para fazer e muito menos para pensar diferente.

Ah o pensamento! Esse é outro, coitado dele, nem consegue se desenvolver sozinho está sempre poluído com a moral, com a ética que leva você a concordar com essa realidade, e pensar que ser diferente disso é ser rebelde, vagabundo, alguém sem causa, alguém que não vai crescer na vida. Fato, se você quiser ter um apartamento para poder dar um teto para o seu filho ou para si próprio, precisa correr junto, senão você simplesmente fica para trás, afinal você não nasceu rico e precisa chegar lá. Lá, ah o “lá”, lá é o lugar, o objetivo da corrida, o objetivo que te faz acreditar que tudo isso tem sentido. O que é lá, você consegue definir? Não, você não consegue ou você acredita que seja ter um carro, uma casa e continuar a sua vida exatamente como ela é.

Sem acento é uma nota musical. Faz mais sentido, pois toda essa bobagem faz você viver dentro de uma ilusão do que é certo, digno e eficaz. E a sua vida continua igual e um dia você chega lá, no túmulo. Só não esqueça de guardar um pouco do que você juntar nessa corrida neoliberal, para comprar um túmulo decente, para que os seus ossos não sejam retirados de onde você foi enterrado pelo estado após três anos.




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