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“Temos dois anos e meio até as eleições”, diz Camilo Santana, contrário a derrubar Bolsonaro

Foi assim que o governador petista do Ceara se colocou em entrevista para o programa Roda Viva. Se nem impeachment, muito menos o governador quer derrubar Bolsonaro e Mourão apoiando mobilizações. A única possibilidade ele vê é se forem provados crimes de Bolsonaro, como se eles já não se amontoassem a luz do dia.

Thiago Flamé

São Paulo

quarta-feira 10 de junho| Edição do dia

Perguntado pela jornalista se ele era a favor do impeachment que o PT protocolou no Congresso, Camilo Santana tergiversa, mas deixa clara sua posição: “o momento agora é pressão popular e nós temos a eleição daqui a dois anos e meio”. Nem se preocupa em dizer tão descaradamente que o seu o jogo é usar as mobilizações para uma vitória nas urnas em 2022.

Uma coisa é o PT que governa, outra é o que faz oposição. Talvez as divergências atuais no partido dos trabalhadores pudessem ser resumidas assim neste momento, como aliás, em vários outros momentos desde o golpe institucional. Ao fim, as divergências são conciliáveis, sempre que permaneçam vivas as chances eleitorais do PT para 2022. Assim o PT vai se colocando a favor do afastamento de Bolsonaro, na Câmara de Deputados, e várias alas do partido apoiam a seu modo as mobilizações (sempre evitando que elas se aprofundem), enquanto quem governa é contra tirar o Bolsonaro e, como fez Camilo Santana no último domingo, reprimiu as manifestações.

Ver a atitude do governador petista é também ver os planos da frente ampla que vai se formando contra Bolsonaro. Se preparam para capitalizar eleitoralmente, em 2020 nas eleições municipais e depois em 2022 nas eleições nacionais, o desgaste do governo. Manter a pressão sobre o governo Bolsonaro até lá, deixando passar os ataques contra as condições de vida da classe trabalhadora – como a reforma da previdência, que Camilo Santa e outros governadores do PT e da oposição aprovaram nos seus estados. Ou no caso da insatisfação popular aumentar e as mobilizações cresceram ou se colocar a possibilidade de saírem do controle, avançarem numa saída institucional acordada. Mas Camilo Santana é transparente nas suas intenções: está empenhado em governar e não quer instabilidade.

Essa divisão no interior do PT, como colocamos, não é profunda. Está mais para uma divisão de tarefas em que a direção do partido, a bancada parlamentar e Lula um discurso que permite ao PT se posicionar bem na sua base histórica, enquanto os governadores fazem a política real, abrindo os espaços para as alianças em 2020 e 2022. Aí entram em jogo as verdeiras diferenças: quem vai encabeçar as forças antibolsonaro em 2020 e 2022? Camilo Santana também defende que o PT abra espaço para novos nomes, inclusive o dele, questionando nas entrelinhas uma possível candidatura Lula e uma nova de Haddad.

Nenhum desses caminhos interessam a classe trabalhadora, a juventude e ao povo negro. Nossa resposta tem que ser dada nas ruas, na mobilização, na organização nos locais de trabalho e nos bairros populares. Esse é o caminho para derrubar Bolsonaro, não para colocar Mourão ou outro representante da elite em seu lugar, mas para que seja de fato o povo que decida o que fazer, lutando para convocar uma Assembleia Constituinte livre e soberana e avançando nas formas de democracia direta que podem ser a base de um futuro governo dos trabalhadores, de ruptura com o capitalismo. Não podemos confiar nem na frente ampla que vai se formando, nem no PT, que vão tentar conduzir a situação a um pacto das elites que, como sempre, vai favorecer os empresários e os banqueiros e preservar os interesses das potências estrangeiras no Brasil.




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