Política

CRISE

Temer sitiado? Mãos limpas? Acordão? Novos contornos na crise política

Sexto ministro de Temer a cair. Dois ex-governadores do Rio presos. A economia segue em recessão. Aumentam as pressões sobre Temer para acelerar os ataques. Divergências entre o Congresso e o Ministério Público, sobre quem seria o responsável pela anistia do caixa dois. Para onde caminha a crise política?

Leandro Lanfredi

Rio de Janeiro | @leandrolanfrdi

sexta-feira 25 de novembro| Edição do dia

Tal como em outros casos Temer jurou que manteria seu ministro Geddel Vieira a todo custo. Chegou até mesmo a organizar posicionamento público de todas lideranças de sua base partidária em apoio a seu amigo de longa data. Editoriais da grande mídia falavam, como fez O Globo, dos erros de Temer, mas que Geddel era muito importante para aplicar os ajustes. Subitamente, tudo parece ter mudado. Renan será julgado no STF semana que vem. Jucá tem seu oitavo inquérito aberto. Os fatos cariocas, com prisão de dois ex-governadores, entre eles o outrora poderoso Cabral pareceram, subitamente, entrar em sintonia com o tom nacional.

Os empresários no Conselhão criticaram Temer pela demora nos ajustes, Miriam Leitão do mesmo Globo fez nota muito crítica de como Temer estava se perdendo no labirinto de seu governo. Pouco depois Marcelo Calero, ex-tucano aumenta a crise divulgando a pressão que sofreu não só de Geddel, mas também de Padilha, da AGU e do próprio Temer.

Tudo isso em meio a toda uma confusão entre a Câmara, a mídia e o MPF sobre quem recairia o ônus de anistiar o caixa dois, levando a adiamento da matéria para semana que vem.

Todo o senso de imprevisibilidade e confusão da crise política nacional retornam. Uma primeira e profícua análise foi feita no Esquerda Diário por André Augusto que dá diversas hipóteses relacionando o descontentamento do empresariado com a demora nos ajustes, maior agressividade de monopólios interessados nas privatizações e petróleo nacional com o triunfo de Trump, entre outras. A economia brasileira tende a sofrer um abalo com Trump, levando a consequências como queda do preço das commodities, diminuição no fluxo de capitais, aumento nos juros no país para tentar compensar essa saída de capitais, e assim impactando nas empresas endividadas, várias delas sofrendo pela primeira vez com queda no faturamento, além de impactos em estados que já estão em crise e dependem de exportação de commodities, especialmente Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, para ver mais sobre essas tendências na economia leia esse artigo de Daphnae Helena.

Buscaremos aqui continuar algumas dessas hipóteses, bem como desenvolver duas novas: primeiro, os elementos de cerco tucano a Temer, e, segundo, estaria em curso uma disputa entre a mídia e Ministério Público de um lado e setores do parlamento capitaneados pelo PMDB por outro, de que nível de acordo político é possível para recompor o regime, e quem seriam os rifados nesse acordo.

1- Fundamentos econômicos, aumentados, da crise política

As tendências de piora na situação econômica ou no mínimo de continuidade da recessão ascenderam luzes vermelhas ao empresariado das maiores empresas do país. Como citado no artigo de Daphnae Helena, pela primeira vez em muitíssimos anos as grandes empresas tem queda no faturamento, a isso se combina a piora em sua situação de endividamento. Por isso é necessário especial pressa nos ataques.

Tal como no pré-impeachment de Dilma, estariam os empresários procurando um melhor ajustador? No balão de ensaio carioca da crise nacional, querem tirar o PMDB para colocar o vice Dornelles do PP no poder, como argumentamos em artigo o Globo diz isso com todas as letras através de dois importantes articulistas como Merval e Noblat.

2- Mãos imperiais na toga nacional

O Esquerda Diário tem mostrado copiosamente como o imperialismo norte-americano através de seu Departamento de Estado mantém extenso contato com membros destacados do judiciário brasileiro. Sérgio Moro e alguns procuradores e membros da Políca Federal aparecem como sendo interlocutores e fazendo cursos organizados por esse governo. No acordo da Odebrecht o judiciário brasileiro atua para facilitar e negociar quanto de dinheiro deve ser pago aos EUA. Inclusive a numerosas denúncias do judiciário brasileiro facilitar aos EUA como processar a Petrobras, uma empresa estatal.

Como argumentamos previamente um dos elementos de arbitrariedade da Lava Jato mais bem escondidos não é a blindagem de tucanos, como tão mostrado pela mídia ligada ao petismo, mas as empresas imperialistas. Nesse artigo mostramos como o monopólio internacional dos navio-sonda tinha interesse na falência da Sete Brasil e na inusitada prisão do comemorado banqueiro internacional André Esteves.

O interesse empresarial imperialista com a Lava não se resume ao pré-sal, ou aos navios-sonda, alcança as empreiteiras em seus negócios nacionais, mas também internacionais. Sobretudo a Odebrecht que é um empecilho para empreiteiras americanas avançarem na Venezuela, Cuba, Equador e alguns países da África.

Um dos únicos republicanos de “carteirinha” a publicamente apoiar Trump foi Dick Cheney, ex-vice presidente de George W. Bush, ex presidente do monopólio mundial de petróleo, a Haliburton, envolvida no assunto dos navios-sonda citado acima, bem como detentora de cruciais e estratégicas informações sobre o petróleo nacional, tendo sido “operadora terceirizada” da gestão dos dados da Agência Nacional de Petróleo do Brasil.

Bem à la Lava Jato, não poderíamos com poucas provas mas muitas convicções, ver uma ligação entre as empresas do petróleo blindadas pela Lava Jato, as conexões das mesmas com os EUA e o setor do “establishment” que apoiou Trump partirem de suas vitórias para “querer mais”?

Estaria Temer, imbricado em um partido dependente de mil e uma nomeações em estatais para suas carreiras políticas e bolsos privados com dificuldades de avançar na privatização do petróleo nacional na velocidade que a Lava Jato os “contractors” gostariam?

3- O tempo na política: economia, luta de classes e delação da Odebrecht

Diferentes fatores temporais pressionam a desfechos rápidos na crise nacional. Por um lado, a economia pressiona os empresários a quererem os ajustes logo. O reflexo da economia em uma crescente crise social, a cada dia mais palpável nas grandes cidades do pais, e por outro não faltam preocupações como a expressa por Miriam Leitão de que Temer anunciava ataques de mais e atacava de menos facilitando o desenvolvimento de resistência.

A perda de legitimidade de um governo que precisa realizar profundos ataques pode levar a dar corpo a uma resistência social e política. Os mais de um milhão de votos em Freixo no Rio e diversas ações da juventude e do funcionalismo naquele estado acendem outras luzes de atenção à elite nacional, e não à toa o judiciário e a mídia se apressam a atuar ali como um fator da política e possível articulador para colocar um outro ajustador no lugar de Pezão, mobilizando se necessário um clima de linchamento público televisionado.

Dando voz a um temor da luta de classes Miriam Leitão expressa a preocupação de ter um presidente maquiavélico. Alguém que siga o conselho de fazer “todo mal de uma vez”, a capacidade de contenção da burocracia sindical que “luta” tanto quanto precisa para mostrar oposição aos ataques mas trabalha por uma recomposição em vistas a 2018, pode não durar para sempre, então é bom para os empresários que os ataques aconteçam já enquanto a muita confusão e desmoralização com a crise do PT.

Outro fator temporal acelera a crise nacional. Estamos a dias ou semanas dos primeiros resultados da “delação do fim do mundo” da Odebrecht. Espera-se que ela seja mais “democrática” atingindo não somente o PT, PMDB e PP mas também tucanos, dando ainda mais corda para que se busque rapidamente uma solução de anistia aos políticos.

Aí entra o embate da Câmara e o tema dos editoriais dos três grandes jornais do país. A proposta de emenda às repressivas “dez medidas contra a corrupção” do ministério público acrescenta à anistia do caixa dois o termo “crimes correlatos”, isso a mídia e o MPF não estão aceitando. A anistia em si, Dallagnol aceita, como deixou claro em postagem em rede social.

Desse modo, anistiando somente o caixa dois haverão muitos nomes a serem pegos, mas outros serão salvos pois aparecerão em delações como “mero” caixa dois e não como “corrupção”.

Renan, Padilha, Jucá, como haviam dito em conversas gravadas por Sérgio Machado atuam pela “anistia geral”. O MPF, a mídia, e outros atores querem algumas cabeças a prêmio para um eventual acordo. As primeiras cabeças a rolar, além do PT, seriam desses renomados membros do PMDB.

Nesse embate temos os polós: ameaças de ir a “Mãos Limpas” e anistia geral, enquanto não acordam um intermediário escolhendo a quantidade e o nome dos bodes expiatórios. Relembrando que mesmo o “extremo” Mãos Limpas, que é tema de estudo acadêmico e frequente referência para Sérgio Moro resultou no fim do regime partidário existente na Itália, ainda que mantendo a corrupção e impunidade, e ajudado a erguer Berlusconi e organizar a ofensiva neoliberal naquele país.

4- Temer sitiado, PSDB com barbas de molho

Com a pressão pelos ajustes, questionado se haveria atuado para garantir os negócios privados de seu ex-ministro Geddel Vieira Temer encontra-se acuado e sitiado. Do ponto de vista do programa de governo lhe cobram mais do que gostaria de realizar correndo. Do ponto de vista das forças políticas está lhe restando dia atrás dia um governo tucano. Todos os PMDBista a seu lado vão caindo um atrás do outro.

Chamativo desse quadro foi a escolha de almoço de Temer no dia seguinte da abertura dessa crise: FHC e Aécio. Se por um lado essas movimentações são parte do “sítio” a Temer, o próprio tucanato não respira tão aliviado, teme quais nomes seus aparecerão na lista da Odebrecht e melhor deixar a Temer o desgaste dos ajustes.

Retirando Geddel ,Temer procura dar mostras ao “mercado” que cuidará da situação e que os sacrossantos ajustes não serão afetados. Porém, está em um jogo de xadrez bastante desfavorável. Um assalto a seus bispos e torres do PMDB se o MPF não for derrotado e anistia não incluir “crimes correlatos”. Se contentarão só com essas cabeças a prêmio ou, passo seguinte lhe exigirão a sua?

5- Como ter uma resposta independente

Em meio a tantas disputas o que menos interessa é um efetivo combate a corrupção. O MPF quer arbitrar quem será salvo e quem não (quem tem dúvida que a maioria dos tucanos serão enquadrados como mero “caixa dois”) e em meio a suas repressivas 10 medidas aprovar um prêmio a quem participar de delações. Um prêmio pecuniário. Agora ela será verdadeiramente, e constitucionalmente premiada.

Queremos deixar nas mãos desses juízes decidir quem é corrupto e quem é “só” caixa dois, enquanto eles mesmos se enriquecem e deixam ilesas as Halliburton e Cia? Trabalharemos para que o Congresso, aquele mesmo do impeachment em nome de Deus, de suas famílias, papagaios e cachorros e até de torturadores, elejam um novo presidente?

É possível dar uma resposta independente ao conjunto desse regime podre de ajustes a nós trabalhadores, corrupção e arbitrariedade. É possível derrotar a direita, mas para isso é preciso superar a estratégia de conciliação de classes do PT e sua tentativa de uma recomposição do regime pela via de mais uma vez esses parlamentares de direita e corruptos definirem os rumos do país num impeachment e em uma eleição indireta no Congresso (o que seria o resultado de novo impeachment), nem em confiar em Moro e Dallagnol.

Como diz Diana Assunção, editora do Esquerda Diário em matéria:

“Inacreditável como, em meio à clara ligação da Lava Jato com os interesses da direita e da patronal, certa “esquerda” considera que para acabar com a corrupção é necessário que Moro “vá até o final” no plano autoritário. Para enfrentar o governo golpista e não trabalhar para o retorno do PT com seu projeto fracassado de conciliação de classes, é preciso buscar uma saída independente. A organização da resistência nas lutas, com exigência às burocracias sindicais, deve estar ligada com uma saída política independente: uma nova Constituinte, Livre e Soberana, imposta pela luta e que coloque abaixo a Constituinte de 1988 tutelada pelos militares. Ela já está sendo modificada pelos golpistas contra os trabalhadores.”

No mesmo artigo Diana Assunção conclui afirmando: “uma nova Constituinte seria um passo para erguer a classe trabalhadora como sujeito político independente na situação, acabando com todos os acordos econômicos fraudulentos e pondo fim à dívida externa ilegítima, questionando os privilégios dos políticos e juízes, como passo para questionar todo o regime político burguês, sobre o qual só se poderia avançar com um governo dos trabalhadores de ruptura com o capitalismo.”




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