Política

MICHEL TEMER

Temer: o chefe de polícia estadual que virou presidente do golpe institucional

O caminho do ex-chefe de polícia Temer ao Planalto.

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 2 de setembro| Edição do dia

Temer declarou, logo em seguida de ser em empossado presidente, que “golpistas são vocês [dirigindo-se a nós]” e alegou que golpista é quem rasga a Constituição e que ele foi escolhido presidente legalmente, sem rasgar a Constituição. Alguns dos que o apoiam também alegam que mesmo que não haja prova específica para derrubar Dilma, de toda forma é preciso julgá-la e puni-la pelo “conjunto da sua obra”.

Ora, para além do fato de que golpista odeia ser chamado pelo nome [lembremos que os generais de 1964 falam até hoje que seus tanques de guerra eram a “revolução democrática” em marcha] uma brevíssima pincelada sobre o conjunto da obra de Temer revelará que não há qualquer motivo para estar na presidência da República a não ser golpe [e sua escolha como vice por Dilma e, mais adiante, a passividade da Dilma e do lulo-petismo diante do golpe em marcha, dos seus ajustes que abriram caminho para a direita, e do próprio impeachment].

Sim, Temer foi várias vezes chefe de polícia. E, como é fácil de imaginar, chefe de polícia de São Paulo – ou de qualquer unidade da federação – não é cargo do qual uma pessoa preocupada com os movimentos sociais e a miséria da nossa juventude possa se orgulhar. O papel histórico da polícia “republicana” tem sido espancar, prender e humilhar mulheres e jovens negros e pobres das grandes periferias, que são bairros-dormitórios da classe trabalhadora. Pois bem, o inodoro Temer foi chefe de polícia, de uma polícia que foi cúmplice e agente dos porões e horrores da ditadura militar durante vinte anos e nem bem esta começava a sair de cena, 1984, Temer pegou a secretaria de segurança de São Paulo declarando que se “sentia profundamente atraído pelo desafio”.

A polícia integrava até o pescoço a máquina repressiva da ditadura. Quanto a Temer como esperar dele, e dos seus mandantes, uma faxina na polícia para limpá-la dos torturadores, assassinos e repressores do povo pobre e dos opositores à ditadura militar?

Ele jamais tocou no assunto. Nem a cúpula política que dirigia o poder na época, tanto que terminaram anistiando torturadores ... legalmente. Temer tocou a bola para frente.

No site institucional da polícia de São Paulo informa-se que Temer foi secretário de segurança por três vezes, de 1984 a 1986, depois no segundo semestre de 1992 e voltou no ano de 1993.

Ele foi trazido pelo governador Fleury em seguida ao massacre de mais de 100 presos no Carandiru. Veio para por panos quentes e reformar a polícia, era o que se falava. Se nos anos 1980 ele chefiou uma polícia com seus métodos truculentos e assassinos, enquanto criticava os movimentos sociais, especialmente os rurais, e defendia a redução da maioridade penal, nos anos 1990 Temer voltou ao comando da polícia paulista, agora defendendo mais “Rota nas ruas”, leia-se, mais polícia assassina contra “as classes perigosas”.

Depois Temer evoluiu, de “vice decorativo”, escolhido pela Dilma, o dr Michel Miguel Lulia – seu nome – se tornou, esta semana, presidente golpista. Voltou à “segurança pública” pela porta da frente, agora como comandante das Forças Armadas [cujos privilégios de aposentadoria ele entende como intocáveis, enquanto desmantela a previdência dos trabalhadores e professores]; como todo golpista, sua declaração no dia em que assumiu a presidência foi aquela, de que golpistas são os outros.

Como se trata de um doutor em Direito pela PUC e professor constitucionalista, o especialista Temer confunde, de saída o que seja golpe militar, típico de momentos em que os trabalhadores estão nas ruas [Chile 1973, Brasil 1964] com a nova modalidade do golpe “preventivo”: que é desfechado nas alturas, nos conchavos, enquanto não é necessário solução tão dura, ainda, mas cumprindo já um papel de disciplinamento. Foi o que ocorreu agora: um arranjo nas alturas, um acordo entre frações da elite parlamentar, alta mídia e juízes e – sem precisar de exército nas ruas – apearam a presidenta – e impuseram um golpe ao sufrágio popular.

Qual o “novo” modo de fazer golpe? Procura-se algo para acusar a chefa do Executivo e o “clube dos ficha suja”, dos investigados do Lava a Jato, unidos a juízes do mesmo campo do Lava a Jato – cuja marca registrada é a de escolher como alvo o grupo político que lhes interessa liquidar - tiramos a presidenta eleita. E entra o Temer [cuja “obra” inclui acusação de ter recebido 5 milhões da OAS e de estar presente em duas investigações do Lava a Jato]. Mas qual é o propósito do grupo Temer, além da provável cobertura política para si e seu grupo?

O Temer e seu grupo pretendem radicalizar os ataques contra a classe trabalhadora [iniciados por Dilma], golpear a aposentadoria da classe que vive do trabalho, tudo isso com mão de ferro nas medidas repressivas e policiais, aliás sua praia [e aliás medidas que Dilma ajudou muitíssimo a garantir legalmente com sua “lei antiterrorista” contra as manifestações de rua] e vem aprofundar o entreguismo, as privatizações.

Sim, pode-se falar quanto quiser que a Constituição foi seguida. E qualificar de “proteção da democracia” a um golpe de uma fração da burguesia contra a própria democracia burguesa. Se o formato é não-militar, mas nem por isso é menos golpe: como imaginar que políticos que são, muitos deles réus, um bando de fichas sujas ou investigados por corrupção possam “cumprir papel de juízes, “julgar” um governo eleito? E que tipo de juiz adianta seu voto semanas antes do julgamento? É uma mudança de presidente sem voto e sem povo nas ruas, leia-se: golpe.

Em Honduras, em 2009 esse novo formato de golpe já estava presente na nossa região: o “partido do judiciário” derrubou um presidente eleito, Zelaya, quando ele esboçou uma Constituinte e também a aproximação com a Venezuela. Com Lugo, presidente do Paraguai em 2012 também a mesma linha: aproveitaram uma contradição do governo eleito [uma medida reacionária de repressão social] e o derrubaram “constitucionalmente”, via Senado [e não pelos seus defeitos, mas pelo elemento de incômodo que ele ainda era para certas frações burguesas]. Portanto, convém não esquecer: lá como cá, o governo eleito deu passagem ao golpe, não se socorreu das ruas sequer para defender uma democracia esfarrapada.

Portanto golpe dentro da Constituição não é menos golpe. Basta lembrar que a nossa prevê intervenção militar, ou seja poderíamos ter como direitistas clamam um “golpe militar constitucional”.

É preciso ter claro que o “partido do judiciário”, aliado da mídia e da fração corrupta da casta política, é quem também governa neste momento. São golpistas que estão cobrando serviço do serviçal Temer.

De chefe de uma das polícias mais violentas da América Latina a chefe do golpe [ou conspirador das “sombras” como falam as redes sociais] a carreira de Temer ou o “conjunto da sua obra” é a de um quadro decorativo, jurista medíocre do capitalismo [portanto do campo do “partido do judiciário”], adepto de métodos violentos mas invariavelmente portando uma máscara de cordialidade contida, e que agora passa a chefiar a Casa Grande, na tentativa de por ordem na senzala. Senzala esta, que desde junho de 2013 dá mostras de que não vai ser simples assim tratorar conquistas sociais e políticas, como também os elementos de inclusão social conquistados no lulo-petismo enquanto essas concessões eram possíveis em meio a aumento recorde dos lucros patronais.

Ponhamos abaixo o golpe [que o lulo-petismo permitiu com sua passividade, ataques aos trabalhadores, corrupção, assimilando os métodos capitalistas e complacência com os ricos], às ruas contra os ataques que estarão em marcha nos próximos meses, exijamos da CUT, CTB e sindicatos uma verdadeira guerra contra os ajustes iniciadas primeiro em “seu” governo e agora aceleradas. Lutemos de forma decidida e independente do PT contra os “constitucionalistas do golpe” institucional reacionário como esse ex-chefe de polícia como regente da nação.




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