Mundo Operário

ACIDENTES DE TRABALHO

Tecnologia e desumanidade nas fábricas

Qualquer trabalhador que hoje entrar nos galpões de uma grande empresa multinacional, que utiliza dos conceitos mais modernos existentes para seu gerenciamento, irá se deparar com uma grande quantidade de informativos, propagandas internas, sinalizações, normas e regras, que tem como objetivo da patronal convencer que ela está preocupada com a saúde de seus trabalhadores, que faz parte da “cultura” daquela empresa a prevenção de acidentes e o cultivo de um ambiente de trabalho saudável. Esta é a farsa que será desmascarada ao longo deste artigo.

quinta-feira 28 de abril de 2016| Edição do dia

O desenvolvimento tecnológico foi uma das grandes marcas do capitalismo mundial durante as últimas décadas e foi fortemente aplicado na produção das grandes empresas modernas. Entretanto toda a tecnológica aplicada nas máquinas, nas linhas de montagem e na sofisticação dos processos de produção não garantiram com que torna-se o trabalho mais saudável e seguro, muito pelo contrario, os números de acidente e adoecimento devido aos efeitos do trabalho vem apenas aumentando nas últimas décadas. Se tem dúvidas sobre isto, basta visualizar este artigo do Esquerda Diário também publicado nesta edição especial do dia 28 de abril, com os dados mais atualizados sobre este tema.

Qualquer trabalhador que hoje entrar nos galpões de uma grande empresa multinacional, que utiliza dos conceitos mais modernos existentes para seu gerenciamento, irá se deparar com uma grande quantidade de informativos, propagandas internas, sinalizações, normas e regras, que tem como objetivo da patronal convencer que ela está preocupada com a saúde de seus trabalhadores, que faz parte da “cultura” daquela empresa a prevenção de acidentes e o cultivo de um ambiente de trabalho saudável. Esta é a farsa que será desmascarada ao longo deste artigo.

Passado esta primeira máscara, chegamos efetivamente na produção. Todas as máquinas mais modernas hoje em dia são produzidas com inúmeros dispositivos de segurança. Botões de emergência, cortinas de infravermelho, sensores para todos os lados, protetores, portas e carcaças de isolamento, sistemas de acionamento simultâneo, etc. Todos estes dispositivos tem como finalidade evitar que a máquina possa ferir seu manipulador, fazendo com ela só possa ser ativada quando o operador está de fato em segurança, ao mesmo tempo em que qualquer defeito na própria máquina não coloque seu manipulador em risco.

Este artigo não tem por objetivo desvalorizar todas estas invenções. Muito pelo contrário. São todas fundamentais e devem ser utilizadas conscientemente pelos trabalhadores em seus locais do trabalho. E se os acidentes vêm crescendo com todos estes aparatos, imagine sem. Entretanto os acidentes e doenças seguem acontecendo, e estas mesmas tecnologias são usadas pela patronal como apoio para utilizar a seu favor o argumento da “falha humana”. E a “falha humana” é o argumento que a patronal usa para responsabilizar a vítima pelo crime que esta mesma sofreu.

Ao contrário do trabalhador, para o qual um acidente pode significar a perca de um membro, invalidez, doenças crônicas e até a morte, para um empresário um acidente significa apenas uma coisa: dinheiro. A patronal da indústria moderna faz o seguinte cálculo: quanto de investimento vale a pena ser aplicado em tecnológica de prevenção para que possa economizar de forma lucrativa com indenizações por acidentes de trabalho. Ou seja, para o empresário, a vida do trabalhador entra como um número em sua calculadora. E de fato, os acidentes dariam enormes prejuízos se não fosse utilizado dos recursos tecnológicos para preveni-los minimamente. Desta forma, toda demagogia espalhada por avisos e panfletos pelos locais de trabalho, todas as regras punitivas e autoritárias no chão de uma fábrica, não se tratam de uma tentativa sincera de proteger os trabalhadores, mas sim, uma forma de “reduzir custos”.

Sendo assim também podemos facilmente concluir que nenhum dispositivo ou procedimento de segurança que diminua a produtividade, e conseqüentemente o lucro, será adotado pela patronal. Ainda que a tecnologia pudesse ser aplicada para reduzir 100% dos acidentes de trabalho, ela nunca seria empregada para isto no modo de produção capitalista, pois com certeza implicaria em colocar o lucro em segundo plano frente à segurança do trabalhador. Além de investir muito mais dinheiro do que estão dispostos. Esta última consideração nos leva a chave do problema, explica porque no capitalismo a produção sempre estará contra a saúde dos trabalhadores.

Toda tecnologia aplicada na fabrica mais do que diminuir possíveis acidentes de trabalhos, tem o objetivo de aumentar a produtividade. Invariavelmente isto significa aumentar o ritmo do trabalhador, extrair mais trabalho humano em menos tempo. As decorrências disto para a saúde do trabalhador são catastróficas. Os movimentos simples, mecânicos e repetitivos levam a doenças crônicas e lesões musculares irreparáveis. Mas não é apenas o físico do trabalhador que é comprometido. As metas de produção cada vez mais altas, o assédio moral, a disciplina ditatorial, a chantagem da demissão e da rotatividade do trabalho, todos esses esforços da patronal para extrair o máximo de força vital do trabalhador ataca gravemente seu psicológico. Um dos índices mais altos de doenças de trabalhos trata-se de doenças de transtorno emocional e psicológico, como a depressão. Estes tipos de doenças adquiridas no trabalho embora sejam menos evidentes que um acidente físico, é na realidade tão graves quanto.

Mas a contradição da tecnologia aplicada ao chão de fábrica pelas mãos da patronal é ainda mais sarcástica. Muitos trabalhadores em seu cotidiano de trabalho, para cumprir as metas impostas pela empresa, na ânsia de manter seu emprego, passam a ter que burlar os procedimentos e aparatos de segurança. Manuseiam máquinas em movimento, desligam alarmes e sensores e abandonam equipamentos de segurança. Esta atitude que aos olhos de fora parece ser irracional, é amplamente reproduzida nas fabricas de todo o mundo. E embora aparente pura negligência, o que realmente acontece é que estes trabalhadores são vitimas de uma chantagem oculta e muito cruelmente aplicada pelas gerencias: ou ele coloca sua saúde em risco, ou é demitido por não acompanhar o ritmo de trabalho. E a parte mais vil e nefasta desta chantagem é que ele deve fazer isto sobre sua própria responsabilidade, escondido dos chefes e gestores, pois a empresa pune aqueles que desrespeitam tais procedimentos. Este sem dúvida é um dos jogos ideológicos mais cruéis dentro do chão de fábrica. Trabalhadores chegam acusar colegas de trabalho por negligencia, outros responsabilizam a si mesmos por seus acidentes, enquanto a empresa garante seus lucros desumanos, ilesa de criticas e responsabilidade.

Entretanto, mesmo respeitando todos os procedimentos e aparatos investidos pela empresa, ainda assim os trabalhadores não estão salvos dos acidentes de trabalho. A “falha humana”, sempre pode acontecer. A “falha humana” é o termo utilizado para quando todos os procedimentos de segurança estão funcionando, e ainda assim o acidente acontece decorrente de uma inabilidade ou erro do trabalhador. Não importa o nível de despreparo, cansaço, estresse, tristeza, fome ou qualquer outro fator que influencie diretamente na condução de seu trabalho, não importa quantas metas foram obrigados a cumprir, quantos assédios morais sofreu durante o dia, não importa se ritmo da produção estava exaustivo, o trabalhador é responsabilizado pelo seu próprio mutilamento, seja por ter praticado um movimento inadequado, seja por te acionado um equipamento indevidamente. Na fábrica não há espaço para “falhas humanas”. A fabrica é desumana. E aqueles que nelas trabalham pagam com sua saúde, seus membros e muitas vezes com suas vidas.

Esta é a realidade das empresas mais modernas, que produz e utiliza alta tecnologia, que se apropriam do que há de mais avançados criado pela sociedade contemporânea. Entretanto nas empresas menores, que utilizam de menos recursos, de maquinário antigo, as conhecidas como “boca de porco”, estas são ainda piores. Com menos produção e trabalhadores, a calculadora destes patrões indica que o melhor é pagar as indenizações do que investir um centavo se quer em prevenção de acidentes. O mais lucrativo nestes casos é lançar os trabalhadores a sua própria sorte, e fazê-los serem gratos por uma quantia de dinheiro em troca de um membro perdido. Nestes galpões sujos, nem se quer manutenção é feita nas máquinas, a negligencia com qualquer procedimento de segurança não é somente legalizado, mas abertamente incentivado, a norma é colocar a saúde em risco em primeiro lugar.

Concluindo, enquanto o lucro e a produção irracional forem os açoites que dão o ritmo e o sentido ao trabalho, nenhum trabalhador estará seguro em suas fábricas, ou qualquer outro local de trabalho. Não importa o quão moderno seja, e muito menos os discursos hipócritas que são vomitados pela boca de sua chefia, cada local de trabalho no modo de produção capitalista é um criador de desumanidades, disseminador de doenças incuráveis, vetor de tristeza e depressão e tem suas paredes e pisos manchados de sangue da classe trabalhadora.




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